Uma das melhores sínteses de história econômica está sendo empreendida por Deirdre McCloskey, professora da Universidade de Illinois em Chicago. No seu projeto histórico, que deve ter de quatro a seis livros, dos quais dois já foram lançados (“Bourgeois Virtues: Ethics for an Age of Commerce” e “Bourgeois Dignity: Why Economics Can’t Explain the Modern World”), o desenvolvimento econômico é explicado a partir do empreendedor, numa longa perspectiva histórica.
Em sua obra mais recente, McCloskey busca entender como o mundo deu um salto de riqueza e longevidade a partir do século XIX. Até então, a renda per capita média se mantinha próxima da subsistência, algo como três dólares por dia. Quando uma região prosperava mais rapidamente, o aumento populacional puxava a renda per capita para baixo, na chamada armadilha malthusiana. Mas, a partir do século XIX, foi possível que houvesse crescimento de população e renda ao mesmo tempo. Hoje, os bolsões de miséria chamam tanta atenção justamente porque são exceções – e nossos impulsos morais clamam por eliminar tal condição. Mas miséria era o padrão de vida durante a imensa maioria do percurso humano. Subitamente (em termos históricos), passou-se a entender que todo ser humano deve ter acesso a meios dignos de vida, sendo a alimentação o mais básico. Como explicar uma mudança tão drástica, de algo que era padrão por milênios para ser exceção, a partir do século XIX?
Na visão de McCloskey, a chave não está na economia convencional – por sinal, a economia que ela aprendeu e ensinou durante anos. E ela aborda as diversas teorias sobre o crescimento e explica por que, em sua visão, elas são, no mínimo, incompletas. Usualmente se explicaria pela poupança, a parte da renda que poderia ter sido consumida, mas foi guardado para investir e gerar um maior retorno. Segundo McCloskey, essa mesma história tem as suas variantes “de direita” e de “esquerda”. A primeira saúda os frugais indivíduos que pouparam e investiram, pensaram no amanhã e construíram um mundo melhor. A versão da esquerda afirma que a poupança foi produto da exploração de mais-valia ou de recursos naturais de países pobres. As duas linhas de argumentação veem como mecanismo a poupança levando a investimento e posterior acumulação de capital.
Mas exploração do trabalho alheio e investimento não surgiram no século XIX – nem o comércio externo, outra comum explicação para o crescimento econômico. A grande muralha chinesa é um exemplo colossal de investimento forçado, bem como as pirâmides. Excetuando o fato de que as pirâmides são uma grande atração turística, elas não foram construídas com esse propósito – e, se o foram, a taxa de desconto até que elas gerassem receita com visitantes a inviabilizariam como investimento… “Roubar trabalho de pobres sempre ocorreu. Era assim que pessoas ficavam ricas antigamente. Se isso levasse a uma revolução industrial já a teríamos tido muitos anos atrás”, disse McCloskey em uma recente palestra da qual participei.
E o que pode explicar então? Na visão dela, um conjunto de mudanças sociológicas e políticas que proporcionaram aos empreendedores a liberdade de inovar e a respeitabilidade social. A liberdade é pré-condição para que inovações sejam adotadas e produzam resultados. Melhor ainda quando essa liberdade é acompanhada de admiração pública. Existe mais dinamismo em locais onde a inovação é estimulada e admirada. Os velhos produtos e soluções são mais facilmente substituídos por novas ideias. Nesse tipo de sociedade, empreender e não dar certo é encarado como um aprendizado, não como um fracasso. É preciso aceitar perdas para, no todo, ter maiores ganhos. É a destruição criativa, como falava Schumpeter. Ou a informação dispersa que planejador algum poderia reunir, lembraria Hayek. Ou ainda o estado de alerta para perceber oportunidades, como enfatiza Israel Kizner.
Mas empreendedorismo é mais que boa gestão ou boas ideias. É também persuasão, destaca McCloskey, que, entre outras coisas, ensina retórica. Empreendedores precisam persuadir as pessoas ao seu redor para acreditarem nas suas ideias (quando captam recursos) e comprarem os seus produtos. A liberdade de imprensa – e de opinião de modo geral – contribuiu para um governo limitado, mais eficiente e responsivo às demandas da população (accountability).
O sucesso econômico, em sua visão de longo prazo, dependeu de um ambiente político que proporcionasse liberdade para empreender, um ambiente cultural que olhasse para a inovação e o empreendedor como fatores a serem apreciados, e a liberdade de opinião como imprescindível para a correção de rumos. É possível crescer sem esses valores, por certo tempo, como em países que se aproveitam de rendas de recursos naturais em momentos de alta nas commodities. Mas, sem o devido ambiente institucional, a tendência é recuar.
Supondo que McCloskey esteja correta – e a sua obra é bastante convincente e está apoiada em ombros de gigantes –, existe uma agenda de crescimento pouco debatida no Brasil. O empreendedorismo de jovens morre dentro de casa por causa de pais que logo recomendam que estudem para concursos públicos. Futuros empreendedores que contribuiriam com o crescimento do país viram burocratas, que contam os dias para a aposentadoria – quando não ficam pulando de concurso em concurso, atraídos por bons salários e estabilidade. E estabilidade não rima com dinamismo ou inovação. Com a estrutura atual de incentivos, empreender no Brasil é enfrentar enormes riscos e ainda suportar um clima de desconfiança, uma aura de sonegador, explorador do trabalho alheio etc.
Não contente em mandar em dezenas de estatais, o governo ainda avança sobre o setor privado, como no caso da Vale, que viu o seu gestor pressionado a sair porque… bem, porque foi exemplarmente eficiente e se recusou a tomar decisões como construir pirâmides a pedido do poder político. Não surpreende o governo (qualquer que seja) querer que as empresas tenham gestores politicamente alinhados, mas é um péssimo sinal ver que tal movimento ocorre com enorme silêncio da classe empresarial, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), eloquente na hora de pedir protecionismo. São empresários que também estão virando funcionários públicos, preferindo a estabilidade (mantida através das boas relações com o governo) a uma administração independente e dinâmica. Não é um bom sinal para o país quando empreendedores perdem a dignidade (e a admiração pública) e também a liberdade de conduzirem seus negócios.





