27/06/2011

Capitalismo Terminal? Uma aposta para Leonardo Boff

Quero desafiar Leonardo Boff para uma aposta.

Em artigo recente, Leonardo Boff declara que “a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal”

Boff lista dois motivos para sustentar tese, mas acaba oferecendo três explicações:

1. O uso dos recursos naturais chegou ao ponto de exaustão: “Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado”.

2. A tecnologia tornou o trabalho humano dispensável. Os níveis de desemprego atuais não abaixarão porque as pessoas não conseguirão ser mais produtivas do que as máquinas: “Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva”.

3. Os novos descontentes atingem um nível consciência social não visto no passado. Conforme exigências do mercado aumentaram a formação educacional dos trabalhadores, aumentou-se também sua capacidade de pensar criticamente: “Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da super-exploracão de suas vidas e da vida da Terra”.

Eu discordo das previsões de Leonardo Boff. Acho que sua análise combina wishful thinking socialista com incompreensão de teoria econômica e dos eventos correntes.

Sobre 1, entendo que recursos naturais são produto da inventividade humana, e não apenas um dado da natureza. O petróleo não era um recurso para os maias, mas passou a ser para os mexicanos. Fatores naturais pouco ou nada utilizados por uma geração acabam se tornando recursos para gerações futuras. Não há motivos para vermos nossa geração como exceção ao funcionamento da história tecnológica da humanidade. Se a produção de energia a partir de recursos fósseis se tornar excessivamente custosa no futuro, seu uso se reduzirá e novas tecnologias de energia serão desenvolvidas. Hoje utilizamos os recursos naturais de forma mais eficiente do que gerações passadas e continuaremos o percurso.

Sobre 2, Boff enxerga a tecnologia como o carrasco econômico que empobrece o proletário. A história econômica discorda. Apesar do reajuste do trabalho, a tecnologia melhora as condições dos trabalhadores de forma geral. Por causa da tecnologia, os trabalhadores do século XXI têm um nível de vida melhor do que os burgueses do século XIX. É verdade que nenhuma pessoa consegue tecer algodão mais rapidamente que uma máquia têxtil, nem montar carros com mais eficiência do que a indústria robótica. Mas as revoluções tecnológicas do passado não criaram uma massa crescente e permanente de desempregados. Em vez disso, novas profissões foram criadas. Desemprego estrutural sempre existiu no passado e vai continuar existindo no futuro. Mas a tecnologia não cria desemprego permanente e crescente. O talento e a capacidade humana sempre encontram novas formas de servir a sociedade e de aumentar o nível de vida geral.

Sobre 3, não se pode colocar todo o descontentamento político mundial na mesma categoria. Alguns grupos rebeldes são mesmo simpáticos a causa anticapitalista de Boff. Mas são os que lutam pela manutenção do status quo. Os jovens e velhos que saem às ruas de Atenas não lutam contra o sistema. Lutam pela preservação do sistema de privilégios do welfare state grego. Quem está em crise na Europa são os governos. Não foram os empreendedores que fizeram com que a Grécia acumulasse 44 mil dólares de dívida per capita com promessas e mais promessas de benefícios. Foram os políticos, com ideias de “conquistas sociais” que teriam até a aprovação do Leonardo Boff. Em contraste, os descontentes das economias fechadas do oriente médio estão mais dispostos a participar do liberalismo globalizado que os déspotas lhes negaram na prática e que Boff quer negá-los na teoria.

Em resumo, Boff entende que mais mercado levará a maior exploração e/ou desemprego das camadas menos favorecidas. Eu entendo que mais mercado levará a empregos melhores e mais bem pagos. Boff acredita na revolução do socialismo. Eu acredito no triunfo do liberalismo. Se eu estou certo, países que liberalizarem seus mercados terão mesas com mais comida, cabeças com mais conhecimento, e crianças com mais saúde. Se Boff estiver certo, ocorrerá o contrário.

Quem está certo? Felizmente, há uma forma para Leonardo Boff e eu testarmos nossa divergência. Podemos fazer uma aposta. Vamos examinar, dentro de 10 anos, o que irá ocorrer com os países que mais liberalizarem suas economias. Então saberemos se a população mais pobre estará ainda mais pobre, como prevê Boff, ou se estará mais rica, como eu prevejo.

Nossa aposta pode ser decidida da seguinte forma: indentificamos os dez países que mais liberalizarem suas economias de 2011 a 2021. Se a renda per capita dos 10% mais pobres desses países houver diminuído, eu pago 500 dólares a Leonardo Boff. Se a renda dos 10% mais pobres tiver aumentado, Leonardo Boff me paga 500 dólares.

Para medir o grau de liberalização econômica, podemos usar o Relatório de Liberdade Econômica no Mundo, publicação anual do Instituto Fraser do Canadá. Para medir a renda per capita dos 10% mais pobres, podemos usar dados do World Development Indicators do Banco Mundial.

Portanto:

Leonardo Boff, aceita meu desafio? Lanço essa aposta de boa fé. Se você de fato acredita na sua análise de que o capitalismo está em fase terminal, estou lhe oferecendo dinheiro de graça. Basta que ocorra o que você já disse que irá ocorrer para que você ganhe 500 dólares. Será até uma chance de fazer doação para uma das populações empobrecidas.

Aguardo resposta.

Sobre o Autor

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Diogo G. R. Costa é professor de relações internacionais no Ibmec-MG e coordenador do OrdemLivre

9 Comments

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    Carlos says:

    Muito bom, também já escrevi sobre isto: http://ligadavirtude.blogspot.com/2010/11/liberdade-economica.html
    Parabens, boa resposta.
    Abs.
    Carlos

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    Bmonteiro says:

    «mais mercado levará a empregos melhores e mais bem pagos» – Correcto.
    Mas também:
    A menos empregos, menos ocupação humana em termos globais.
    Mais emprego na Ásia, menos na Europa e EUA.
    Não havendo agora guerras que eliminem dezenas de milhões de homens (século XX), um factor de regulação populacional (Gaston Boutul – “Polemologia”), como dar destino aos ‘excessos’ populacionais?
    Complicado.

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    Giuseppe says:

    A resposta a Boff contem aspectos lúcidos mas ao ver peca nos seguintes aspectos
    1- Focaliza a questao da exaustao dos recursos humanos ao setor energetico, omitindo a possibilidade de falta de alimentos, desequilibrio ambiental para a populacao mundial que em breve chegara a 9 bilhoes de individuos, acreditar que a historia segue rumo ao progresso cientifico é tao pobre quanto a teleologia marxista.

    2-O futuro do trabalho ainda é uma incognita, as maquinas poderão nos libertar para o ocio criativo ou agravar o desemprego estrutural, nao acho intelctualmente simplorio comparar o impacto das tecnologias do seculo XIX e do Seculo XXI em relacao ao desemprego. Pelo que foi afirmado ja posso dizer paraum catador de lixo em Bombaim,uma costureira hondurenha, um operario chines ou um garoto vietnamita que eles devm ficar felizes pois vivem melhor que os burgueses oitocentista?
    E dizer que a humanidade sempre acha uma forma de elevar o nivel geral das condicoes de vida de todos é um exercio de fé tao tacanho quanto o mantra socialista de Boff.

    3- Concordo inteiramente com oarticulista.

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    William says:

    Ótimo texto. Poderia até ter debatido que os principais estudiosos da area ainda divergem sobre a existencia de um aquecimento global. A explicação tão simplista de que quanto maior for o CO2, maior será o calor aqui na terra, ainda é debatido. Não devemos toma-lo como verdade absoluta ainda e tampouco culparmos a revolução industrial. Há bons documentários por aí que são esclarecedores.

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    celso pinheiro says:

    Eu ponho mais quinhentão em cima!

    Boff, agora vais ganhar MILÃO se você estiver certo!

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    celso pinheiro says:

    p.s Se não quiser dólares americanos, eu posso te pagar em pesos cubanos…

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    André says:

    Diogo, você está sendo generoso com o Genézio. Daqui a dez anos, ele vai estar com 83 anos e, certamente, mais senil do que hoje — isso, se estiver vivo! A hipótese “mais mercado levará a maior exploração e/ou desemprego das camadas menos favorecidas” já foi testada. Boff discorda da história econômica. Talvez a ache muito “sem coração”.

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    Peter Anderson says:

    Até concorco com os pontos 1e 3, mas não concordo com o ponto 2. Acredito que com o avanço da robótica e da inteligência artificial e seu barateamento o desemprego estrutural só tende a crescer no futuro , embora talvez não tão perto.

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    Peter Anderson says:

    Sobre o que eu falei no post acima eu estava falando sobre as colocações do autor do artigo

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