“Congressos de filósofos são uma contradictio in adjecto, já que raramente se encontram no mundo dois filósofos ao mesmo tempo e quase nunca em grande número.” – Arthur Schopenhauer
Filosofia é parricídio. Não existe gênero do conhecimento humano em que os discípulos mais se voltaram contra seus mestres, mais criticaram os criadores originais de ideias. É assim com Platão e Aristóteles, e continua sendo com Husserl e Heidegger. É a regra desde Tales e Anaximandro de Mileto até Wittgenstein e Bertrand Russell; de Agostinho e Tomás de Aquino a Schopenhauer e Nietzsche; de Descartes e Spinoza a Heidegger e Gadamer ou Zubiri. Foi assim até mesmo com James Mill e seu filho John Stuart Mill, que recebera rigorosa educação, a ponto de, conta-se, ler Platão no original em grego aos 3 anos de idade.
Seria, portanto, sob salva de aplausos que se receberia a notícia de que o ensino da filosofia e da sociologia foram incorporados ao currículo do ensino médio pela Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE) desde julho de 2006. Nada seria melhor para a nossa educação do que um estudo em que, pela primeira vez, aparentemente os alunos criticariam seus professores não só por serem chatos e criariam novas ideias, indo muitas vezes na direção diametralmente oposta ao que é pregado nas salas de aula.
Porém, como tudo aquilo que não é matemática pura, as coisas não são tão claras e facilmente delimitáveis na realidade tangível.
As críticas geralmente realizadas por nossos professores são tão idênticas em qualquer ponto do país que parecem ter saído de uma linha de produção fordista ou de uma fábrica de peças stalinista: critica-se o mercado, a sociedade de consumo, o neoliberalismo, o sucateamento da educação.
Curiosamente, a educação é alvo de vitupérios por entrar em regras “mercantilistas”. O maior problema da educação brasileira, inegavelmente, é ser focada apenas no vestibular. Aprende-se tudo o que é necessário para passar em uma prova específica, como se a difícil experiência em uma prova de questões objetivas fosse mesmo capaz de diferenciar futuros líderes da inovação de apenas reprodutores de discursos prontos, ou grandes e criativos críticos teóricos da turma do fundão, que nunca sequer se preocupou em entender a teoria a ser criticada.
Assim, o vestibular é visto como um instrumento elitista, para “separar” e “selecionar” os alunos ricos dos pobres, negando acesso dos últimos à ascensão social. Os professores costumam corretamente criticar o vestibular por ser uma prova enviesada. Todavia, sabe-se que a visão de mundo que o vestibular obriga qualquer um a pregar é, justamente, a visão dos próprios professores que criticam o vestibular. Se alunos pobres não conseguem realizar a prova, não é pelas eternas questões com “críticas sociais”, exigindo “interpretação” de quadrinhos da Mafalda ou do Angeli que são tão tradicionais quanto o trote na entrada das Universidades: são pelas questões de Exatas, que exigem o conhecimento de fórmulas específicas da realidade, e não do uso de um bom senso salvador que não indica esforço ou estudo anterior algum. Se o vestibular se tornou mercantilista, sabe-se que o mercado que ele atende é, justamente, o imenso mercado consumidor de professores de Humanas anti-mercado.
Surge, assim, o esquisito fenômeno de “pensadores críticos da sociedade” que, na verdade, reproduzem o mesmo discurso pronto há cerca de meio século sem nunca criticá-lo. Como julgam que este discurso é uma crítica em si, acreditam que apenas repapagaiá-lo, quase inconscientemente, é uma prova de ser um crítico em si. E, sobretudo, que isso dá algum aval para criticar uma sociedade que, segundo dizem, é “alienante” e não dá espaço para a reflexão.
Seria apenas mais um dos problemas da falta de uma meditação rigorosa buscando originalidade numa sociedade pós-contemporânea, tal como são as novelas, os reality shows e mesmo as notícias de muitos jornais, não fosse esta litania contaminar justamente as Universidades, e ser encarado como “ciência” e “filosofia”. Justamente o discurso menos refletido e mais automático de todos.
Ora, vender tal logorreia como “filosofia” para uma massa de jovens estudantes que mal conseguem entender a realidade em termos matemáticos ou físicos é como trocar as aulas de trigonometria pelas de álgebra abstrata, as de História do Brasil por análises de Tucídides, as questões sobre Machado de Assis e Clarice Lispector por James Joyce e Virginia Woolf, as de gramática por linguística (e, de certa forma, andam mesmo tentando fazer isso).
“Vender” é o termo mais correto e irônico possível. É difícil imaginar um filósofo que tenha tido seus grandes pensamentos antes dos 30 anos (os matemáticos, atletas e poetas, pelo contrário, raramente iniciam sua carreira depois desta idade). Obras introdutórias, como o Órganon aristotélico, ou mesmo livros de História da Filosofia como os de Adler, Reale e Antiseri, Will Durant ou Russell são de difícil compreensão até mesmo para adultos bem-versados em questões históricas e científicas bastante avançadas.
Se tais obras dificilmente conseguem entrar em acordo sobre quais são os filósofos mais importantes a serem estudados (e falamos de nomes gigantes da filosofia), que dirá deixar a tarefa de escolha a burocratas do MEC, ou professores cujo conhecimento de “filosofia” foram algumas fotocópias de alguns capítulos de livros que tiveram de ler não-filosoficamente durante a faculdade. Sabemos, então, o que acontece: no lugar de Aristóteles (quantos são capazes de ensinar as bases dos seus pensamentos pelo Brasil? Dá para preencher as escolas só da grande São Paulo ou Rio?), teremos algumas platitudes muito mal redesenhadas de alguns nomes menores e “pop”, que, muitas vezes, pouco possuem de filósofos – é o que acontece com a promoção de Marx e Freud ao título de “filósofos”, e o lugar dado a Rousseau, Sartre ou Foucault no rol dos maiores nomes do pensamento mundial – além da aplicação de filosofia até a canções de Noel Rosa em provas de vestibular.
Em verdade, o que estamos criando é apenas uma desculpa para alunos sem preparo e conhecimento adequado julgarem que o que sabem – e o grau do seu saber é justamente a régua com a qual medirão a realidade, ou mesmo as notícias do que ainda não sabem – é “ciência” e “filosofia”, ou seja, o máximo grau de disciplina e conhecimento possível. É algo como exigir um desenho livre no vestibular e chamar o estudo para a prova de “arte”.
É claro que, nas condições normais de temperatura e pressão, um mundo cheio de filósofos é muito melhor do que o mundo atual. Assim como seria interessante se todos fôssemos um pouco médicos – por que não ensinar conceitos básicos de medicina antes do Vestibular? Também deveríamos ser um pouco eletricistas: as aulas de eletromagnética que temos pouco nos ajudam a saber qual alavanca puxar no disjuntor quando o chuveiro fica sem água quente.
Estranhamente, algumas profissões com conceitos até facilmente ensináveis parecem formar uma guilda de conhecimento secretos só acessíveis aos poucos que se aventuram nessas áreas depois do Vestibular. Que tal algumas aulas de Direito no ensino médio? De Economia?
A filosofia trabalha delimitando conceitos com precisão cirúrgica. É por isso que filósofos tanto se voltam contra seus mestres: sempre se encontra uma delimitação maior que ainda não havia sido pensada. É como a busca por novas partículas subatômicas. Já o senso comum (em sentido não-filosófico, diga-se) contenta-se em usar termos como “neoliberalismo” para explicar a realidade sem delimitar seu significado com precisão. Na filosofia política, o simples uso deste termo já demonstraria quem não parece entender bem sobre o que está falando: quem inventou o neoliberalismo? Onde foi aplicado? Quais suas premissas? Quais foram os resultados obtidos? Quem defende a tese? Em quais livros? Quais seus principais nomes? Quando começou a ser aplicado? É simplesmente impossível responder a essas perguntas com muita precisão – porém, é justamente com termos vazios e permeáveis como este que se fazem aulas de “filosofia” e “sociologia” hoje.
Ao invés de aulas de sociologia, por que não ensinar aos pobres a maravilha do funcionamento do mercado financeiro e de uma Bolsa de Valores? A justificativa é óbvia: além de um entendimento do mundo muito maior, aprenderão a enriquecer com rapidez. Os Axiomas de Zurique é um livrinho que deveria ser obrigatório já em tenra adolescência. No lugar de aulas de filosofia e sociologia que nada ensinam de ambas as disciplinas – apenas dão uma pseudo-justificativa com ares de ciência a revoltas típicas da idade, que assim permanecem pelo período de uma vida – podemos dar uma vida muito melhor a alguém. Enquanto no Acre já foram vistas aulas de sociologia em que se ensinava como escrever cartilhas de sindicato, ensinemos a arcana, obscura, secreta e danbrowniana arte da Economia. Conhecimento claro sobre o próprio bolso – quem não quer? E quem recusaria entender como enriquecer e o que causam crises e flutuações da Bolsa que não param de ser noticiadas, e menos de 1% parecem saber o que significa?
Podemos ter aulas de explicações doidivanas sobre o mundo, mantendo-nos todos pobres e revoltados contra o “sistema”, ou podemos entendê-lo e enriquecer. O que é preferível?







Ótimo artigo…
Maior ignorância seria impossível. Somente quem não sabe o que significa Filosofia poderia er defecado tanto pela ponta dos dedos. Dizer que filosofia é parricídio é reconhecer pubpicamente que o ser humano por natureza inata é um ser parricida. Somente um ser totalmente ignorante não conhece a frase unanimemente repetida por todos aqueles que um dia se questionaram e exerceram o livre pensamento: “Cogito Ergo Sum”. O ato de filosofar ou seja “ser amigo do saber” é inato ao ser humano, afinal quel ser humano por mais desprovido de capacidades cognitivas jamais se questiou ou desesejou “SABER” alguma coisa. É claro que nem todos chegama se questionar “QUEM SOU EU”, “DE ONDE VENHO”, “PARA ONDE VOU”, “QUAL O SENTIDO DA VIDA”. Ao criticar os filósfos por se “Voltarem” contra seus “Mestres” o autor em sua suma ignorância demonstrou desconhecer que a filosofia não é mero conjunto de dogmas que devem ser enfiados goela a baixo como querem alguns, é sim discussão, debate e quetsionamento de idéias que para os mais incautos parecem contraditórias mas em essência são complementares e se harmonizam.
É triste ver alguem que defende a “ORDEM LIVRE” atacabdo o livre exercício do pensamento e questionando o ensido de Filosofia e Sociologia no ensino médio …
Olha só! O produto vivo da “filosofia” de ensino médio comprovando as palavras do autor.
Parabéns, Flávio. Ótimo texto. E nem precisou apontar o caminho pra que encontrassemos exemplos vivos do que você retrata aí, eles vieram até o texto.
Alguém não entendeu o texto.
Somente da ignorância devem o homem ser salvo. Somente aquele que desconhece que Filosofia significa literalmente “amigo do saber” seria capaz de defender tais ideias, o que por consequencia incentiva a reprodução do que há mil6enios é feito: manter o povo em total ignorância e desestimular o exercício do pensamento !
O autor do texto afirma que ‘repetir um discurso pronto não estimula o exercício do pensamento’, aí vem você e diz que sim, estimula e muito. Estou agora mesmo com a minha apostila de filosofia [comprei ontem] e acabo de ler nela um texto falando de crise climática (numa apostila de filosofia?!). Claro, nada mais filosófico que aquecimento global. É isso que o autor está dizendo: que nesse país todo professor de filosofia tem um discurso pronto, e isso é justamente o oposto de pensar ou ensinar a pensar. O ignorante aqui não é ele (olhe para um espelho e descubra quem é).
Deus do céu!
Esse Marcio Etiane tem graves problemas de interpretação de textos… Como é que pretende entender os grandes filósofos desse jeito? Onde é que o autor do texto “criticou os filósofos por se voltarem contra seus mestres”? Eu entendi justamente o contrário! E ainda termina o segundo post com um daqueles clichês de que há milênios o povo é manipulado para não pensar e blá blá blá…
Marcio, com seus dois posts vc conseguiu corroborar aquilo mesmo que o autor do texto critica! hehehe
Minha professora de filosofia ano passado (3º ano EM) se concentrou em falar no ano sobre Platão, Aristóteles, Nietzsche, Rousseau, Sartre… sem claro vender Marx como um grande filosofo. E economia no EM seria algo sensacional. Muito bom o texto.
Nada a acrescentar, Flavio, pois foi exatamente essa “filosofia” que me foi passada no ensino médio, por um professor que realmente achava que esse modo de pensar – ‘eu discordo de tudo porque isso me faz parecer inteligente’ – é o correto.
Congrats =)
Parabéns, Flávio. Tapa na cara da burguesia anti-burguesa!.
Flávio, esse livro Axiomas de Zurique ajuda mesmo a enriquecer? Tô precisando aprender isso.
Acho que a inclusão da filosofia/psicologia no ensino médio não tinha nenhum objetivo educacional maior. Pra mim, foi só uma maneira que o governo usou para criar uma reserva de mercado para setores que sempre o opoiou (e que, fora da universidade, não arranjam emprego): os professores de humanas.
Além de agradecimento, estão a pensar no futuro… com internet as groselhas dessa laia tendem a ser mais facilmente descobertas pelos jovens (não que não haja veículos do gênero na internet, mas nada pode ser pior que 40 anos de um exército de repetidores de discurso sindicalista e leitores de fotocópia de 4 ou 5 filósofos em toda a vida acadêmica nas salas de aula) assim faz-se mister arrebanhar os cordeiros cada vez mais cedo, já não basta a doutrinação na faculdade ou nas aulas de história, querem seus soldados a longo prazo.
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O que emperrava um pouco era a desatenção dos alunos nas aulas de História, mas sem problema: cria-se novas disciplinas onde são pinçados professores “boa praça” que ao invés de escrever na lousa sobre Carlos Magno, batem um papinho maneiro com os alunos, vários minutos só de conversa. Todo aluno gosta desse tipo de aula, mesmo ela ministrada por um professor de Biologia, que às vezes interrompe as mitocondrias e fala sobre drogas, gravidez, vida pessoal… “existem aulas que valem mais do que aulas” já ouvi dizerem. O resultado é que já se nota uma preferência dos alunos por essas matérias, dando ainda mais ouvidos à mesma ladainha repetida há 40 anos da qual se tu tentas desvencilhar-se, és alienado. Notável proselitismo.
Sensacional. Matéria digna de uma leitura bem feita e merece ser disseminada.
Parabéns, e grato por compartilhar conosco essas boas ideias.
Sensacional. Essa repetição dos mesmos discursinhos e o convite à reprodução que é o vestibular – prova em que basta seguir o politicamente correto e o senso comum para se conseguir excelente pontuação nas ciências humanas – é um desconvite à criatividade e à produtividade. Professores “críticos” que não veem as teorias das quais são seguidores com um olhar crítico acabam por premiar alunos que seguem sua doutrina, desestimulando os que tão somente pensam em pensar diferentemente.
Ahhh malditos pobres! a culpa disso tudo é deles. Por isso, ensinemos a eles como enriquecer na bolsa de valores, sustentar o neoliberalismo e não se revoltar contra esse sistema lindo!
e claro: não nos esqueçamos de queimar todos os professores de humanas. Esses inúteis!
Estou me formando em filosofia e sinceramente concordo com muito do que está sendo dito aí. Não que eu ache que o ensino de filosofia não é algo valioso ou etc, apenas acho que não deve haver alguma ordem estatal OBRIGANDO as pessoas a serem lecionadas tal disciplina, e não só filosofia, mas como qualquer outra. O que há de ser ensinado para os alunos deve ser algo a ser decidido pelos pais, se possível em conjunto com os próprios alunos. Não tem pra que o governo se meter no meio. Ademais, concordo PLENAMENTE com a defesa do ensino de economia (não que deva ser compulsório), mas em muitos sentidos pode ser muito mais útil para o cidadão médio do que o ensino de filosofia, é fundamental para ter uma boa compreensão do funcionamento da sociedade (e não cair nas falácias marxistas). Pensar que filosofia é “pra todos” é um mito muito romântico e simplesmente falso.
Concordo com uma estagnação muito grande dos cursos de Filosofia e Ciências Sociais pelo Brasil afora, entretanto entendo que algumas coisas ditas no texto e no comentários são ditas de forma displicente. Na minha opinião, Filosofia e Sociologia são temáticas importantes em todos os níveis de ensino. Afinal noções básicas de economia têm fundamentos sociológicos importantes demais para serem ignorados, assim como a constituição e o cotidiano em si já impõe vários questionamentos filosóficos necessários. E ao contrário do que disse Victor logo cientistas sociais por aí fazem muitos trabalhos sérios e competentes por aí, pesquise. Sou concluinte do curso de Ciências Sociais com ênfase em Antropologia e embora confie na profissão que escolhi vejo sempre que os maus profissionais da área formaram um estereótipo muito nocivo para a profissão.
O texto seria melhor substituído por : “A minha infelicidade por ser um pragmatista”, por :Flavio Morgenstern · 13 Março, 2012 ·
Esse foi o texto mais infantil, borriquoto e estúpido que já li esse ano.
Filosofia significa saber pensar. É o que falta ao populacho, mas também a quem pretende pautar a vida social, prescrevendo o que se deve conhecer. Platão, por exemplo, é a razi de todos os totalitarismos, e da separação entre filosofia e ciências em geral, entre o corpo e a alma. Quem disso souber,estará livre para discernir as artimanhas, Quem preferir, por conveniência, ou preguiça ou complexidade, ignorar as diferenças com Nietzsche ou Spinoza, por exemplo, não está apto, sequer, para ingressar em bolsa de valores, ou analisar o que venha a ser o Direito.
Juana, espero que o seu professor de filosofia te ensine a interpretar texto.
Ótimo texto; se fosse uma redação para o ENEM a nota seria 0. Num vestibular pago, 1 ponto talvez. Ahahahah.
HAHAHAHA..Então basta ler um livro (Axiomas de Zurique) para ficar rico? Se todos lerem, não haverá mais pobres? HAHAHAHAHA
QUE BOSTA DE TEXTO!
:D
Leitura truncada, texto com erros básicos de português – em se tratando de alguém que escreve com a sua frequência. Poxa vida, vamos caprichar? :(