Chegou ao fim esta semana mais uma edição dos Jogos Olímpicos. Como boa parte dos brasileiros, torci muito pelo sucesso dos atletas representantes do Brasil em Londres. O que me incomoda, no entanto, é a recorrência de um certo discurso no meio esportivo brasileiro após eventos como esse.
Ganhando ou perdendo, a história é quase sempre a mesma: “faltam investimentos no esporte no Brasil”. Se houve êxito, foi apesar da falta de incentivo – e a existência de talentos que superam adversidades seria uma prova de que, com investimento, “teríamos” (sempre na 1ª pessoa do plural) muito mais vitórias e medalhas. Se o resultado foi negativo, trata-se de uma mera consequência da falta de investimentos, sem os quais não há condições de competir.
A delegação brasileira que foi a Londres recebeu o maior aporte de investimentos públicos de toda a história do esporte brasileiro. Segundo levantamento do UOL Esporte, o volume de investimentos foi mais do que o dobro da Olimpíada anterior. Entre subsídios do Ministério dos Esportes, leis de incentivo e patrocínio de estatais, foram cerca de R$ 2,1 bilhões, contra pouco mais de R$ 1 bilhão no caminho até Pequim, em 2008.
Para os jogos do Rio em 2016, além dos gastos absurdos envolvendo infraestrutura esportiva de utilidade pós-Olimpíada amplamente duvidosa, já se anunciam investimentos ainda mais ambiciosos. Com o objetivo de que a delegação brasileira salte da recente 22ª para pelo menos a 10ª posição no quadro de medalhas, o Ministério do Esporte deve anunciar em breve um programa que concederá bolsas mensais entre R$ 5 mil e R$ 15 mil para atletas com potencial olímpico.
Atletas profissionais são, via de regra, pessoas que investiram grande parte de seu tempo no acúmulo de capital humano para se tornarem mais produtivos no seu ofício. Não podemos perder de vista, no entanto, o fato de que eles são trabalhadores como quaisquer outros. Faz sentido enquadrá-los, especificamente, no ramo do entretenimento, pois essa parece ser a principal função da exposição da prática desportiva (seja olímpica ou não). Ninguém (a não ser o próprio atleta, sua família, sua equipe e, vá lá, apostadores) extrai qualquer benefício tangível das suas vitórias. Mas as pessoas em geral se alegram pela vitória de alguém por quem se torce, ou ao menos admiram façanhas físicas perpetradas por esportistas.
Pode-se afirmar com certa segurança que ninguém aprendeu a ler quando Sarah Menezes (patrocinada, dentre outros, pela INFRAERO – ?!) ganhou o ouro no judô; nenhum doente na fila do SUS teve acesso a um leito hospitalar quando César Cielo (patrocinado pelos Correios) ganhou mais uma medalha; e nenhuma vida deixou de ser perdida por ações criminosas (que matam cerca de 50 mil por ano no Brasil) quando Esquiva Falcão e seu irmão Yamaguchi (patrocinados pela Petrobrás) ganharam suas medalhas no boxe olímpico.
Não há dúvidas de que que os atletas merecem todo o respeito pelo empenho em suas atividades – como qualquer trabalhador, aliás. No entanto, não há qualquer motivo razoável que justifique uma distinção especial ao trabalho de um maratonista ou de um ginasta e não ao de um marceneiro ou de um padeiro – o que dizer de um professor, de um médico ou de um empreendedor!
No caso de um atleta, é necessário contemplarmos duas opções: ou 1) o exercício de sua profissão tem viabilidade no mercado, e, nesse caso não há qualquer necessidade de subsídios governamentais; ou 2) não tem viabilidade, o que é sinal de que o público não têm interesse na atividade do atleta (não dando seu voto no mercado com seu dinheiro em seu favor) e de que talvez fosse melhor para a sociedade como um todo que ele se dedicasse a outro ofício com maior demanda no mercado.
Afinal, antes de “pensarmos” em “sermos” (1ª do plural significando sempre o uso de dinheiro público, lembre-se) uma das 10 potências olímpicas mundiais, como quer o Ministro do Esporte, deveríamos buscar melhorar pelo menos um pouquinho em lacunas de maior impacto no presente e no futuro do Brasil. No que toca à situação da educação, da saúde e da segurança, por exemplo, o cenário brasileiro é dramático.
Ocupamos a 88ª posição (dentre 127 países) no Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos, da UNESCO (atrás de países como Paraguai, Belize e Mongólia, dentre outros), com um nível de analfabetismo funcional que alcança ¼ da população e um modelo educacional que concentra excessivos recursos no ensino superior e deixa migalhas para a educação básica. Nosso sistema de saúde encontra-se na 125ª posição (dentre 191 países) de acordo com um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS), temos a 92° melhor expectativa de vida (72,4 anos – bem abaixo da Islândia, 3° país mais longevo do mundo, e que, por sinal, não levou nenhuma medalha em Londres) e a 106ª taxa de mortalidade infantil. Além disso, o Brasil apresenta média anual de mortes violentas superior à de boa parte dos conflitos armados mundo afora – alcançando a assustadora cifra de 1,09 milhão de homicídios entre 1980 e 2010 – em 2008, apenas 10 países no mundo tiveram taxas de homicídio mais altas que as brasileiras.
É óbvio que não se trata de responsabilizar os atletas brasileiros pelas mazelas do país. Mas dentre as diversas possibilidades de atuação que se colocam diante do Estado brasileiro, encontrar algo mais importante do que pagar o salário de atletas olímpicos deveria ser uma questão de bom senso. Faz-se necessário chamar à responsabilidade nossa classe política que se aproveita demagogicamente do apelo popular da retórica de pão e circo possibilitada por grandes eventos esportivos como Olimpíadas e Copa do Mundo.
Não me agrada nem um pouco ter cerca de metade do fruto do meu trabalho tomado pelo governo por meio de tributos. Imagino que a sociedade brasileira estaria muito melhor se pudesse buscar seus próprios fins por meio da cooperação voluntária no mercado, sem sofrer a exploração do governo, que toma parte importante da sua riqueza para redistribuir de acordo com critérios mais do que discutíveis. Mas se é para gastar o dinheiro suado do trabalhador brasileiro em nome de uma finalidade comum por meio do Estado, bem…, basta olhar ao redor para perceber que existem no contexto brasileiro problemas muito maiores do que o fato de não sermos uma potência olímpica.









Excelente texto, parabéns!
Eu não concordo muito com esta questão de viabilidade, pois muitas vezes o que falta é oportunidade do esporte ser visto, antes do Brasil torna-se Vice-campeão Mundial de Vôlei em 1982 nosso vôlei era desconhecido, depois daquela data tudo mudou e o vôlei hoje é um esporte muito popular e o contrário aconteceu com o basquete que já foi mais popular que o vôlei, temos que lembrar que muitas vezes o que tornar um esporte popular é um atleta extraordinário ou um time extraordinário que muitas vezes surge que desencadeia a curiosidade pelo esporte, também temos que lembrar que muitas vezes quem controla a popularidade de um esporte ou de até um time são os mesmos responsáveis pelos Michel Telo da vida ou seja é gente com péssimo gosto e que não dá vez a outros esportes. Quanto ao resto do texto eu não tenho do que reclamar, muito pelo contrário acho que estamos jogando dinheiro fora e enriquecendo políticos e construtoras,em uma Copa e Olimpíada que não precisamos invés de nos preocuparmos com saúde, segurança e educação.