A revista Foreign Policy publica um interessante relato sobre a política de censura do Estado chinês na primeira década do século XXI.
Eveline Chao, editora da revista China International Business entre 2007 e 2009, nos fala sobre sua relação com Snow, a censora que supervisionava a publicação.
“Me and my censor” capta as contradições de um regime que deseja ao mesmo tempo parecer relativamente aberto e exercer certo controle, e expõe o ridículo que inevitavelmente atrai os regimes autoritários: designando funcionários bem treinados para verificar pontos em um mapa ou o significado do termo monstro em uma frase.
The waters around China were always touchy. In May 2007, we ran an article about wind power, and had an artist create a map of China dotted with wind turbines to illustrate it. Snow cautioned that if we were going to depict a map of China, we had to make sure it included Taiwan and various disputed territories, including the now hotly contested small chain of uninhabited islands that China calls the Diaoyu and Japan the Senkakus. “Just put in a couple dots around the bottom, but whatever you do, make sure they don’t get cut off,” she said. In lay-out those islands did, indeed, get cut off; but at Snow’s advice, the designer haphazardly Photoshopped a few stray dots around the bottom of China’s eastern coast. The small gray blobs were not terribly accurate from a cartographer’s standpoint, but apparently they were good enough. Snow was satisfied and the illustration ran without incident.
(…)
Once, Snow deleted the word “monster” from a piece that said the Hong Kong stock market had been “boosted by a trend of monster IPOs” from mainland Chinese companies. “I bet the government is trying to downplay these huge IPOs because speculation on the stock market is getting out of control,” said our then executive editor, Gwynn Guilford. Later that afternoon, I walked by Guilford’s office and heard her saying into the phone, “No, it’s not monster, like, grrrrr,” while she curled her fingers into a claw and pantomimed an angry bear. Then she hung up and said, “We can leave in ‘monster.’”
A história de Snow, a censora, encontra paralelos em muitas outras, em outros regimes autoritários, em outros países. A censora censura porque esse é o seu trabalho. Ela deseja mudar de emprego, mas por enquanto censura artigos com “opiniões erradas”. A ausência da liberdade de expressão é parte da paisagem. É normal. Snow sabe o que pode ser dito na esfera privada e o que não pode ser dito na imprensa. Para Chao, a editora, seguir tentando vencer os obstáculos impostos pela paranoia governamental também é parte da rotina – sem publicar imagens de tigelas vazias para não lembrar os leitores da Grande Fome Chinesa – e manter sua revista circulando.
Essa relativa normalização das restrições à liberdade é um grande risco para qualquer democracia do mundo. Em sistemas democráticos, são raras as implementações de políticas em bloco, que cortem de uma só vez as possibilidades de indivíduos e veículos de comunicação se manifestar da forma e com os termos que desejarem.
As liberdades vão sendo diluídas aos poucos, sob o véu da normalidade, sob os olhos do judiciário.
O Brasil continua a ser líder em pedidos de bloqueio de conteúdo na internet. Há algumas semanas, a prisão do presidente do Google no país chegou a ser decretada depois de um juiz culpar a empresa pela manutenção de um vídeo – que criticava um político – em um dos seus sites. Durante a campanha eleitoral, a justiça foi utilizada mais de uma vez para impedir que jornalistas noticiassem fatos sobre o passado de alguns políticos. O Estadão permanece sem poder noticiar um processo que envolve a família Sarney.
Tudo isso no Brasil democrático. No século XXI. Na maior normalidade.







Excelente texto! Parabéns.