Charles Chaplin ficou famoso, dentre outras, por seu “Tempos Modernos”, no qual descreve uma caricatura da divisão do trabalho. Desde então, a famosa cena em que ele aparece confundindo os seios de uma mulher com parafusos a serem ajustados tem feito milhões de pessoas rirem (eu, obviamente, incluo-me nesta).
Toda piada, diz a sabedoria popular, tem um fundo de verdade. Caso aceitemos este fato, também seremos obrigados a pensar que toda piada também tem um fundo de mentira e esta é a graça maior da cena de Chaplin: sua visão da divisão do trabalho é, por si só, uma meia-verdade. Por que?
A divisão do trabalho é uma destas invenções sem inventores, como as línguas. Em algum momento, no passado, algum parente do ser humano percebeu que seria uma ótima idéia deixar os melhores caçadores para a caça e os melhores agricultores para a agricultura (e não o contrário).
Obviamente, a divisão do trabalho não veio nos braços de anjos e entregue para seres humanos iluminados. É fácil imaginar os primórdios da humanidade como uma época na qual a violência era tão comum quanto a paz. Não seria muito diferente de hoje, claro. Aliás, quem acha que videogames geram violência deveria estudar um pouco de História: duvido que encontraria uma criança romana menos sujeita à violência diante de uma das centenas de invasões bárbaras do que uma criança que se diverte com seu jogo eletrônico.
Goste-se ou não, a divisão do trabalho surgiu e, tendo servido a mais pessoas de forma eficiente, acabou por se tornar uma das instituições mais duradouras em nossas vidas. Aliás, em geral, todos adoram a divisão do trabalho. Por que? Porque a divisão nos permite usar a especialização para nos aperfeiçoarmos no que somos melhores. Há mesmo uma meta-divisão, por assim dizer, já que até para descobrirmos em que somos melhores, temos que praticar uma divisão de trabalho interior.
Em outras palavras, a divisão do trabalho é um método praticamente inato ao ser humano: antes de ler “O Capital”, o intelectual secretamente agradece à evolução humana a chance de poder alocar tempo para ler o dito livro, já que outros trabalham para que ele possa comprar o mesmo, tomar um lanche enquanto faz suas anotações, revoltar-se com a divisão do trabalho, etc. Engels e Marx usaram a divisão do trabalho com sabedoria. Afinal, quem financiava a boa vida de Karl?
Como eu disse no início do texto, o fato de a divisão do trabalho estar em nosso sangue, por assim dizer, não significa que ela seja sempre o fruto de uma pacífica e solidária reunião entre anjos em forma de pessoas. Pelo contrário, ela surge dos interesses individuais de cada um. Algo que os economistas chamam de “auto-interesse” e os que adoram falar mal de economia chamam de “egoísmo”, buscando rotular o “auto-interesse” de “ruim”, como se as pessoas devessem sentir remorso por pensarem em si próprias.
Não é difícil encontrar divisões de trabalho “inferiores”. Basta que se desrespeite o princípio básico das ações individuais de que trocas devem ser voluntárias. Um campo de concentração é um exemplo perfeito da genialidade humana em criar uma divisão de trabalho voltada para o extermínio da própria espécie. O que lhe dá um caráter tão abjeto é o fato de que pessoas foram desprovida de sua liberdade de ir e vir. Um judeu, em um campo destes, não tinha qualquer direito de propriedade sobre o próprio corpo.
Aliás, eis aí a razão do funcionamento de uma boa divisão do trabalho: direitos de propriedade bem definidos e respeitados. Obviamente, alguém poderá questionar se um campo de concentração não é uma entidade criada por uma lei. De fato, campos de concentração (ou de reeducação) geralmente foram criados sob um arcabouço legal em estados nacional-socialistas ou socialistas.
Como todo indivíduo mais ou menos civilizado, também penso que uma divisão de trabalho como esta é péssima. Faz parte do ser humano usar uma divisão de trabalho tão cruel assim? Claro que faz. Basta que não se criem incentivos para evitarem a criação de monstruosidades como esta.
Talvez muitos dos críticos da divisão de trabalho sejam pessoas que, no fundo, defendam crueldades. Nunca me esqueço de um colega de graduação – hoje, provavelmente bem-sucedido no mundo capitalistas – que identificava o futuro do Brasil com “aviões Mig soviéticos invandindo os céus de nosso país”. Talvez naquela época ele pensasse que seria fácil resolver as injustiças brasileiras com a caça e execução de algumas pessoas. Creio mesmo que este era seu desejo verdadeiro, embora oculto porque, obviamente, causa nojo aos outros (e a ele mesmo) verbalizar publicamente um argumento como este.
Embora a divisão de trabalho imposta por pensadores socialistas possa ser “eficiente”, do ponto-de-vista revolucionário, talvez não seja este o critério que desejamos, parafraseando um insuspeito anti-liberal como Michael Sandel.







Nunca li em Marx a defesa da abolição da divisão social do trabalho. Pelo que compreendo, o autor defende outra divisão, em que a relação entre trabalhador e produto não seja aplainada, como no taylorismo; em que não haja um controle intelectual da produção oposto à execução mecânica. O que Chaplin aborda magistralmente é a reificação do trabalhador. A principal falácia desta ponderação é essa: tomar a crítica a uma divisão do trabalho específica e universalizá-la. Creio que foi involuntária, mas é bom saber que podem haver divisões não mecânicas. O próprio capitalismo vem mudando os contornos neste sentido, embora criando outras formas de alienação ao longo deste processo.
Com relação à “boa vida” de Marx, parece-me que é uma crítica desinformada, talvez má vontade pura e simples. Quando este filósofo começou a crítica à economia política, vivia em uma condição indigna, de miséria, tinha uma legião de credores atrás de si, penhorava roupas das quais necessitava para poder comer e comprar materiais de estudo.
Não sou marxista, mas li Marx, assim como os liberais clássicos e contemporâneos. Sugiro-te o mesmo antes de tentar desmascarar “meias-verdades”.