Ordem Livre

 

Por Chico Mendez.

Nenhum outro país produziu tantos bilionários em tão pouco tempo como a Rússia de Vladimir Putin. Segundo a revista "Forbes", atualmente apenas os Estados Unidos têm mais bilionários do que a Rússia. É bem provável, porém, que no próximo ano as fortunas dos magnatas do país encolham bastante. A crise econômica que se espalha pelo mundo tem sido cruel com o gigante do Leste Europeu, um dos países que, provavelmente, mais têm sofrido com a fuga de capitais. Na Bolsa de Moscou, as perdas de capitalização de mercado das empresas listadas são calculadas em 75% aproximadamente, no período entre meados do ano e o fim do mês passado. Um desastre.

No momento em que a tendência é culpar a falta de regulamentação do sistema financeiro, o que se passa na Rússia, à primeira vista, são meros desequilíbrios do mercado. Correto? "Errado, muito errado. O que vemos hoje em Moscou é o mais puro reflexo de um governo que optou por um regime político e econômico até então inédito", afirma o economista russo Andrei Illarionov, pesquisador do Cato Institute.

Os bilionários que surgiram nos últimos anos e o derretimento do mercado russo têm uma raiz em comum: o Kremlin. A concentração de poder nas mãos do Executivo ao longo dos anos de Vladimir Putin e o cerceamento das liberdades individuais remetem Illarionov ao antigo regime comunista de partido único. As distorções causadas por esse excesso de poder explicam o que ele classifica como um governo comandado por mafiosos. "A Rússia não é uma democracia, não é um regime socialista. A Rússia é singular. O que vemos ali é o que mais se aproxima do esquema da Sicília. É o que classifico de sicilianismo", diz Illarionov, que está no Brasil para realizar uma palestra na Associação Comercial do Rio de Janeiro. Ele chega ao país duas semanas antes da visita oficial do presidente Dmitry Medvedev.

Illarionov foi o assessor mais próximo do ex-presidente russo entre 2000 e 2005, o homem de confiança do governo na economia e o representante do país no G-8. Hoje, é um incisivo opositor do "sicilianismo" moscovita e, desde que deixou o governo, teme o risco de ser calado à força, onde quer que esteja. Illarionov encontrou refúgio no Cato Institute, famoso por pregar a bíblia libertária na política e na economia. Mudar de país foi a única alternativa que lhe restou para se manter ativo. Illarionov mudou-se com família, mulher e filhos, sem data para voltar. Ou melhor, a data ele não sabe, mas tem consciência de que só volta a morar na Rússia quando o "sicilianismo" acabar. revisões? "Sobre mim, nenhuma. Sobre a Rússia, muitas."

Illarionov deixou o governo em 2005, depois de fazer um pronunciamento no Kremlin em que apontava os erros do governo Putin. "Imagine o que é falar mal do Putin em sua casa", relata um amigo do economista que pede para não ser identificado. No seu discurso de despedida, Illarionov afirmou "que começou trabalhando para um governo democrático, mas agora é funcionário de uma ditadura". "Putin deve ter ficado muito contente, não é?", brinca o amigo.

Illarionov acha que saiu tarde demais do governo. Em 2005, quando decidiu partir, as evidências do esquema "siciliano" já estavam visíveis. "A grande mudança de rumo na Rússia se dá em 2003, quando Putin decide prender Mikhail Khodorkovsky, ex-proprietário da Yukos", conta.

Ele se lembra bem do dia em que foi convidado para assessorar o ex-presidente. Recebeu a tarefa convicto de que Putin era o homem certo para levar adiante as transformações iniciadas com Boris Yelstin. Illarionov se recorda também do entusiasmo dos dois primeiros anos no cargo. "Putin tinha um projeto liberal sério para o país. As reformas econômicas que implantamos entre 2000 e 2002 só foram aprovadas por que tínhamos o apoio dele."

Visivelmente frustrado quando fala de seu país atualmente, Illarionov não sabe explicar o que motivou as transformações no regime russo. Ele considera duas hipóteses e acredita que elas formam uma equação perfeita de poder, um plano pensado cuidadosamente para concentrar as decisões entre um seleto grupo de "amigos". "Há duas versões para tudo isso. A primeira é de que Putin é um ex-membro da KGB de cabeça liberal e determinado a construir uma nova Rússia. A segunda é de que toda essa reviravolta já estava planejada desde o primeiro dia de seu governo. Acho que as duas versões estão certas. Putin se aproveitou da primeira para concentrar o poder no Kremlin e dar início, assim, à segunda fase. E tudo isso piora significativamente com o aumento do preço do petróleo. Os bilhões de dólares que entraram no país deram muita confiança ao governo e eles resolveram jogar com músculos."

O petróleo pode ter sido a partícula aceleradora das transformações na Rússia, mas o regime é hoje dependente de um outro fator para manter o poder. "Eles só dependem do uso da força e da coerção", diz Illarionov. "O regime russo desenvolveu uma tara por poderio militar. No dia em que todos os chefes de Estado mundo afora cumprimentaram Barack Obama por sua vitória, Dmitry Medvedev preferiu anunciar que a Rússia posicionaria mísseis na fronteira com a Polônia em resposta ao sistema antimíssil que os Estados Unidos pretendem instalar na região. Os russos fazem questão de mostrar o seu poderio bélico. Recentemente, anunciaram exercícios militares com a Venezuela no Caribe e violaram todos os tratados internacionais ao invadir a Geórgia."

O avanço militar acontece simultaneamente a uma intensa propaganda governista, que tem como centro a pessoa de Putin e visa despertar sentimentos nacionalistas. A personificação do governo na figura do atual primeiro-ministro conta com a ajuda dos grupos jovens conhecidos como "nashi", que cultuam a imagem de Putin e fazem lembrar o Konsomol, a organização da juventude comunista.

A soma de nacionalismo, corrupção, privilégios, avanço militar, medo, coerção e mortes explica por que o mercado russo sofreu perdas maiores do que os de países emergentes. "A natureza da crise na Rússia não é econômica, mas política. Há uma completa deterioração de políticas de governo que garantiriam o retorno do investimento estrangeiro. Com essas mensagens, não resta alternativa ao investidor a não ser deixar o país", afirma Illarionov.

O mais recente episódio que demonstra a falta de compromisso das autoridades russas ocorreu justamente com a maior joint-venture já feita no país, envolvendo a BP (British Petroleum) e a empresa russa TNK. Descontentes com os sócios britânicos, os oligarcas russos tentam de todas as formas tomar o controle da empresa. Como o muro que separa o público do privado não existe na Rússia, os sinais de que os britânicos estavam incomodando começaram a ser emitidos por autoridades governamentais. No começo do ano, o serviço de imigração negou o pedido de renovação do visto do CEO da parceria, o britânico Robert Dudley. "Esse foi um negócio fechado na presença de Tony Blair e Vladmir Putin, mas ainda assim não há nenhuma garantia de segurança jurídica. O Kremlin diz que prefere ficar neutro na disputa, mas é evidente que autoridades russas estão por trás disso."

Illarionov não se sente à vontade para falar de seu relacionamento com Putin. Diz apenas que cultivaram boas relações entre 2000 e 2001, mas hoje não mantêm nenhum contato. Mas, se pudesse enviar uma mensagem para Putin, o que Illarionov escreveria? "Já mandei recados diariamente durante seis anos. Agora preciso de descanso." Admite que não será fácil. Pode ser vítima de algum "acidente", em represália por criticar o governo. "Isso faz parte da vida em Moscou. Qualquer um pode ser atingido."
Ele recebeu neste ano o que pode ter sido um primeiro sinal de desagrado do governo russo com suas atitudes de rebeldia: a validade de seu passaporte foi reduzida de cinco para dois anos. "Isso tudo é muito triste. O país não tem imprensa livre nem partido independente, as instituições não existem e não há quem garanta a aplicação das leis. Na Rússia, hoje, não prevalecem os valores pessoais, mas sim os do governo."

Publicado originalmente no Valor Econômico.

Chico Mendez é jornalista, correspondente internacional para a Band News e mestrando em Relações Internacionais na Georgetown University.

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