Ordem Livre

 

Por Pedro Sette Câmara.

Em política, direita e esquerda são posições relativas a duas coisas: ao objeto ou critério escolhido como referência, e à posição que a pessoa escolhe assumir diante desse critério. Se você admitir um ponto de vista liberal ou libertário, no qual as funções do Estado são muito restritas, e associar esse ponto de vista à “direita”, será fácil e até rigoroso dizer que a mera existência de um Ministério da Educação e de uma política industrial são “coisas de esquerda”. É esse ponto de vista que legitima perfeitamente dizer que o governo militar brasileiro, o Terceiro Reich e os últimos presidentes americanos são de esquerda.

Claro que isso pode ser complicado pela adoção de outros critérios. Se o estatismo é “de esquerda”, e se o governo é, como disse George Washington, mera força física, essa força pode ser usada em favor de diversas idéias e propostas, o que é amplamente demonstrado pelas divergências que existem entre os estatistas. Se você acha que o governo deve promover a moral e os bons costumes, você sob esse aspecto é de direita; se acha que deve promover algo contrário a esse mesmo pacote de moral e bons costumes, é de esquerda. As duas posições tem um “esquerdismo” estatista em sua base, e não custa observar que aí é que está a raiz de muitos problemas. Se olharmos, por exemplo, para a questão do casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, qual posição é mais razoável: o governo promovê-lo, combatê-lo, ou simplesmente abster-se de legislar a respeito?

Aqui é preciso chamar a atenção para o segundo ponto que levantei: a posição que quem fala dá a si mesmo segundo seu próprio critério. Um fiel de Stálin pode dizer que o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães era “de direita” simplesmente porque a URSS entrou em guerra com a Alemanha. Não é difícil observar que, para muitos adeptos do comunismo, as únicas definições válidas são aquelas dadas pela direção do Partido naquele momento. Mesmo que você acredite que o estatismo é um dado (e não uma posição voluntária) e creia que a única questão política relevante é como usar o poder de coerção do governo, fica difícil crer que o projeto revolucionário de uma sociedade nova representa um moralismo conservador e portanto “de direita”.

Aqui é que chegamos à questão de como aquele que fala se posiciona perante seus próprios critérios. “Direita” e “esquerda”, politicamente, são termos inteiramente circunstanciais, que nunca foram consistentemente usados para designar princípios. Ou seja: eles podem funcionar mais ou menos numa dada situação, mas com ênfase no “mais ou menos”. Não é difícil para qualquer um olhar para mim e para meus amigos do PSTU (sim, eles existem) e dizer quem está na “direita” e quem está na “esquerda”. Mas eu não defendo diversas coisas que as pessoas da “esquerda” atribuiriam a alguém da “direita”, como o militarismo americano ou a aliança entre governos e grandes corporações; eu defendo o estado de direito e regras transparentes e iguais para todos. Por outro lado, sei muito bem que meus amigos do PSTU, por mais iludidos que eu os ache, não são nazistas.

Essa reflexão ainda nos leva a outra. Direita e esquerda podem ser componentes da sua identidade. Como ninguém quer associar a própria identidade a algo ruim, existe o risco de se querer livrar a sua preferência ideológica – ou religiosa, ou futebolística, ou artística etc – de todos os seus crimes com e sem aspas. No caso de “direita” e “esquerda”, porém, é muito fácil – e não necessariamente errado! – considerar esses nomes em puros entes de razão, em universais abstratos que só se realizam naquilo que é bom. Assim é que o meu discurso a respeito de como o nazismo é de esquerda pode ser considerado simples defesa do “direitismo”, como se eu não quisesse admitir que meu time perdeu pontos naquele momento; assim também já ouvi (verdade, verdade) de uma historiadora que a URSS tinha um governo “de direita”...

Só que isso não deve ser usado para forçar as pessoas a uma suposta coerência. Será realmente razoável forçar alguém a defender o nazismo porque o senso comum de um meio social espera isso? Talvez seja razoável demonstrar que muitas pessoas defendem uma espécie de nazismo sem campos de concentração, mas isso é outra história. O que está em jogo, aqui, é que essas expectativas em torno de “direita” e “esquerda” apenas mostram a impossibilidade de usar esses termos de maneira rigorosa e, por que não, justa e respeitosa.

Tudo isso, por fim, levanta ainda uma outra questão sobre o debate político. Ezra Pound dizia que poesia é “linguagem carregada de significado”, pressupondo que as palavras no uso comum já tinham algum significado, e no uso poético tinham mais ainda. Essas palavras, assim como “obscurantista”, “cidadania”, ou liberal (no uso americano), estão apenas carregadas de emoção, de afetação de superioridade moral, servindo para distinguir entre “nós”, os bons, e “eles”, os maus.

Aqui no Brasil (como em qualquer outro lugar, na verdade), quanto mais forte for a polarização entre “direita” e “esquerda”, mais emocionais serão as respostas e reações – mesmo que sejam escritas em tom aparentemente calmo – , e menos significado elas terão. Não se assuste ao ver usos cada vez mais ofensivos de ambos os lados. Mas cuidado para não se deixar levar. A calma aparente que mencionei é apenas uma estratégia retórica (até porque ninguém que considera a si mesmo razoável gosta de se ver cheio de ódio) e não deve impressionar. O que interessa é conseguir averiguar os sentidos possíveis do que se diz, sem com isso querer destruir, diminuir ou descartar o outro.

Pedro Sette Câmara mantém o site O Indivíduo.

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