Ordem Livre

 

por Antonio Fernando Borges


Talvez por influência da força simbólica do triângulo (a figura geométrica mais associada às idéias de divindade, proporção e equilíbrio), o fato é que muita gente costuma ver harmonia ou perfeição onde às vezes existe, no máximo, uma triangulação maliciosa. A malícia, como as aparências, costuma enganar. Mas quem tem olhos de ver pode chegar sem dificuldade a esta conclusão – que, aliás, passa ao largo de qualquer reflexão sobre o trivium medieval, a Santíssima Trindade católica ou o Delta Luminoso dos maçons. Basta uma “folheada” mais atenta no livro apócrifo do mundo – mais especificamente, na página contemporânea sobre a chamada “efervescência” de nossa vida cultural.

As numerosas produções brasileiras em cartaz (filmes, peças e shows musicais a mancheias!) parecem sugerir que a cultura vai bem ou, pelo menos, que o setor do show business teria atingido, entre nós, a maturidade financeira pretendida. Mas a realidade é que não atingiu – principalmente porque não era o que se pretendia. Por trás do aparente “funcionamento dinâmico dos negócios”, ou da “pujança cultural brasileira”, o que existe de fato é um... triângulo. Por sinal, um triângulo vicioso, formado por produtores astutos, consumidores cooptados e um Estado controlador e voraz.

É fácil construir a figura, mesmo de memória. Num dos vértices da base, estão os empresários-produtores, cuja ousadia empreendedora se resume, no essencial, ao esforço (tanto paciente quanto manhoso) de captar recursos junto a empresas estatais ou à iniciativa privada, através de programas e leis de incentivo – que abrangem desde o investimento a fundo perdido de Programas Culturais (caso da Petrobrás, por exemplo) aos mecanismos de renúncia fiscal regulamentados pela famosa Lei Rouanet.

Para o empresário-patrocinador, parceiro deste vértice, não deixa de ser também um ótimo negócio: além de liberar um dinheiro que o Estado usurparia de qualquer jeito, sob a forma de impostos, ele ainda marca alguns pontos na construção de uma imagem positiva, com direito à circulação de peças promocionais divulgando sua marca a custo “zero”.

Graças a esta engenhosa manobra de financiamento, a maioria das produções (filmes-peças-shows) já sai plenamente quitada, inclusive com uma discreta e sólida margem de lucro (vulgo “taxa de produção”) embutida na planilha de custos. Em poucas palavras: antes mesmo da estréia, o “sucesso” do espetáculo não depende mais da bilheteria – nem, é claro, do tão malvisto “mercado”.

Na verdade, quando a bilheteria decepciona e o espetáculo “fracassa”, não terá sido por falta de incentivos: afinal, no outro vértice da base deste nosso triângulo, estão os estudantes e idosos oficialmente autorizados a pagarem apenas 50 % do preço do ingresso. É a pródiga meia-entrada, garantida em praticamente todo o território brasileiro através de leis municipais – já havendo em tramitação um projeto de lei (o PL 5205/05) que regulamentará a barganha em escala nacional. Somando-se aos estudantes e idosos “legítimos” uma pequena legião de portadores de documentos falsificados, seria possível estimar a extensão do “prejuízo” – mas, como já vimos há pouco, quem pode falar em prejuízo, em tudo isso?

Para identificar o terceiro vértice, é só seguir as linhas (doces tentáculos!) que controlam as extremidades da base e se encontram no alto, fechando o triângulo: lá “de cima”, o Estado contabiliza seus ganhos desta operação, em termos de recolhimento de impostos, mas sobretudo de construção de uma linda imagem de mecenas, uma espécie de Lorenzo de Médici tropical, financiando aquilo que a iniciativa privada (“mesquinha”) não patrocina espontaneamente, nem o mercado (“insensível, inculto”) se mostra interessado em absorver como um bem cultural. “Brasil, um país de todos!” – no caso, de todos aqueles que estejam dispostos a participar desta roleta viciada, que cria dependência como outras drogas, mas é permitida e incentivada por lei.

Agora o pano cai, as luzes se acendem, arranca-se a máscara: nesta lição canhestra de “harmonia geométrica” e “dinâmica de negócios”, o que falta é justamente a dose de ousadia e risco que define o que se costuma chamar de mercado – e que constitui a base econômica real em que se assentam os valores culturais (quer dizer, morais) do capitalismo. Em suma, aquela arquitetura ética, intangível, que permite que coisas como bens, produtos e serviços tangíveis sejam afinal negociados.

Em nosso capitalismo de fancaria, a proverbial “mão invisível” de Adam Smith cede lugar aos cordéis explícitos do Estado-titereiro – e a liberdade de iniciativa vai perdendo cada vez mais terreno, arrastando consigo outras liberdades (de propriedade, de expressão, etc.), sem deixar rastro ou notícia. Como, aliás, os cargueiros Raifuku Maru e Cotopaxi e tantos outros – tragados, como se sabe, por um outro famoso triângulo, o das Bermudas...

Antonio Fernando Borges é escritor, com livros publicados pela Record, pela Companhia das Letras e pela Versal. Também mantém um blog.

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