
Socialismo, governo limitado, anarquia e biquínis
21 de Janeiro de 2008 - por David D. Friedmanpor David D. Friedman
A maior parte dos tipos de socialismo parte da premissa implícita de que há uma concordância unânime em relação aos objetivos. Todos trabalham pela glória da nação, pelo bem comum, o que for, e todos concordam, pelo menos num sentido geral, com o significado daquele objetivo. O problema econômico, tradicionalmente definido como o problema de alocação dos recursos limitados em objetivos diversos, não existe; a economia é reduzida à questão da “engenharia” necessária para melhor usar os recursos disponíveis e alcançar o objetivo comum.
A organização de uma sociedade capitalista parte da premissa implícita de que pessoas diferentes têm objetivos diferentes e que as instituições da sociedade precisam permitir essa diferença.
Essa é uma das coisas por trás da reclamação socialista de que o capitalismo enfatiza a competição enquanto o socialismo enfatiza a cooperação; é uma das razões por que o socialismo parece, em abstrato, um sistema tão atraente. Se todos têm diferentes objetivos, nós estamos, em certo sentido, em conflito uns com os outros; cada um de nós deseja que os limitados recursos disponíveis sejam usados para os próprios fins. A instituição da propriedade privada permite a cooperação dentro dessa competição; fazemos comércio uns com os outros para que cada um possa usar melhor seus recursos para atingir seus objetivos, mas o conflito fundamental entre os objetivos permanece. Isso significa que o socialismo é melhor? Não mais do que um tempo ensolarado significa que as mulheres deveriam sempre usar biquínis ou que os homens nunca deveriam carregar guarda-chuvas.
Há uma diferença entre o que as instituições permitem e o que elas exigem. Se numa sociedade capitalista todos estão convencidos de que um objetivo comum é desejável, não há nada na estrutura das instituições capitalistas que os impeça de cooperar para atingi-lo. O capitalismo permite um conflito de objetivos; ele não o exige.
O socialismo não o permite. Isso não significa que se nós estabelecêssemos instituições socialistas todos teriam instantaneamente os mesmos objetivos. O experimento foi feito; as pessoas não passaram a tê-los. Isso significa que uma sociedade socialista funcionará somente se as pessoas tiverem os mesmos objetivos. Se elas não os têm, o socialismo desabará, ou pior, vai se transformar, como a União Soviética, numa paródia monstruosa dos ideais socialistas.
O experimento foi feito muitas vezes numa escala mais modesta neste país. Comunas que sobrevivem começam com um objetivo comum, provido por uma religião forte ou por um líder carismático. Outras não sobrevivem.
Observo precisamente o mesmo erro entre os libertários que preferem o governo limitado ao anarco-capitalismo. O governo limitado, dizem, pode garantir uma justiça uniforme baseada em princípios objetivos. No anarco-capitalismo, as leis variam de lugar para lugar e de pessoa para pessoa, de acordo com os desejos e crenças irracionais dos diferentes consumidores a que as diferentes agências de arbitragem e proteção devem servir.
Esse argumento presume que o governo limitado é estabelecido por uma população em que a maioria ou todas as pessoas acreditam nos mesmos princípios jurídicos justos. Dada tal população, o anarco-capitalismo produzirá o mesmo direito uniforme e justo; não haverá mercado para nenhum outro. Mas assim como o capitalismo pode acomodar a diversidade de objetivos individuais, o anarco-capitalismo pode acomodar a diversidade de opiniões individuais em relação à justiça.
Uma sociedade ideal objetivista com um governo limitado é superior a uma sociedade anarco-capitalista no mesmo exato sentido em que uma sociedade socialista ideal é superior a uma sociedade capitalista. O socialismo lida melhor com pessoas perfeitas do que o capitalismo com pessoas imperfeitas; um governo limitado lida melhor com pessoas perfeitas do que o anarco-capitalismo com imperfeitas. E é melhor usar um biquíni num dia ensolarado que uma capa de chuva quando está chovendo. Esse não é um argumento contra carregar um guarda-chuva.
Tradução por Erick Vasconcelos do capítulo 33 do livro The Machinery of Freedom (1970), "Socialism, Limited Government, Anarchy and Bikinis".