A globalização é ótima
por Tom Palmer
A globalização provoca sentimentos fortes em muita gente, mas hoje não vou falar muito de sentimentos. Vou falar de razões, lógica e evidências. É importante que os argumentos façam sentido, que possam ser verificados ou refutados, e que possamos ativar o coração através da mente. Espero conseguir cativar as mentes de vocês, para que assim vocês coloquem seus corações do lado da humanidade.
É comum que os adversários da globalização utilizem este termo para descrever todas as características da vida humana que não apreciam. Usarei o termo “globalização”, de forma mais precisa, para me referir à diminuição ou eliminação das restrições estatais aos intercâmbios entre fronteiras e ao cada vez mais integrado e complexo sistema global de produção e trocas que emergiu como resultado mais urgente é saber quais os reais efeitos da globalização realmente tem, e se são positivos ou negativos.
A questão política fundamental é se uma fronteira deve ser utilizada para impedir as transações que seriam permitidas se ambas as partes estivessem do mesmo lado dessa fronteira. Deve-se permitir aos produtores de trigo dos EUA comprar celulares de pessoas da Finlândia? Deve-se permitir aos tecelões de Gana vender camisas e calças aos operários alemães?
Acredito que a resposta é sim. Os opositores da globalização, da esquerda e da direita, de Ralph Nader a Patrick Buchanan e Jean Marie Le Pen, dizem que não. Antes de explicar meu sim, devo enfatizar que o debate não é sobre a interação de números mas antes sobre a interação de pessoas reais, pessoas de carne e osso que têm corpos, mentes e vidas que são importantes e têm significado.
Para colocar um pouco dessa carne e osso nos argumentos formais, permitam-me contar uma história. No ano passado, um amigo maia que ensina antropologia na Guatemala levou-me às terras montanhosas maias. Disse-me que antropólogos da Europa e dos Estados Unidos que querem “estudar” os aborígines se queixam de que muitas mulheres maias já não vestem no dia a dia seus belos trajes indígenas feitos à mão. Essas peças estão cada vez mais reservadas para ocasiões especiais, como batismos e casamentos. A reação dos visitantes é quase unanimemente de horror. Os maias estão sendo privados da sua cultura, afirmam. São as primeiras vítimas da globalização e do imperialismo cultural. Os visitantes não se preocupam em perguntar às mulheres maias por que razão muitas delas não vestem as roupas tradicionais, mas o meu amigo decidiu fazê-lo. As mulheres lhe disseram que já não usam os seus vestidos feitos à mão porque eles se tornaram excessivamente caros. O que significa as roupas feitas à mão terem-se tornado mais caras? Significa que o trabalho da mulher maia se tornou mais valioso.
Em vez de passar horas e horas num tear manual fazendo um vestido para usar, ela pode empregar esse tempo fazendo esse mesmo vestido para vender a uma mulher na França e utilizar as receitas para comprar três outras peças de roupa — e óculos, ou um rádio, ou um medicamento para combater a febre dengue. Ou as mulheres podem fazer outros trabalhos e ainda assim ter capacidade para comprar mais coisas a que dão valor. Não estão sendo roubadas; tornaram-se mais ricas. E, de sua perspectiva, isso não é uma coisa ruim; mas é uma grande decepção da perspectiva daqueles a quem o meu amigo chama “turistas da pobreza” anti-globalizadores, que gostam de tirar fotografias de gente pobre colorida.
Assim, quando discutimos a globalização, devemos levar em conta as mulheres que fazem roupas que estão ficando excessivamente caras para que elas as usem todos os dias. Essas são as pessoas de carne e osso cujo destino será decidido, para o melhor ou para o pior, pelo debate sobre a globalização. Ficarão mais ricas ou mais pobres? Terão vidas mais longas ou mais curtas? A resposta a essas questões depende de adotarmos políticas sábias ou estúpidas.
Mitos sobre a globalização
A globalização destrói empregos. A política comercial não afeta o número de empregos, mas afeta o tipo de empregos que as pessoas têm. Se o protecionismo aumenta o número de empregos em indústrias que competem com importações, ele reduz de forma correspondente o número de empregos em indústrias exportadoras, ou seja, nas indústrias que produzem bens que teriam sido trocados por bens que teriam sido importados mas que são agora mais caros devido às tarifas ou excluídos por quotas. As exportações são, afinal, o preço que pagamos pelas importações, tal como as importações são o preço que os estrangeiros pagam pelas nossas exportações, de tal forma que se reduzirmos através de uma tarifa o valor de bens importados, reduziremos também o valor de bens exportados para pagar essas importações. Isso se traduz numa perda de empregos nas indústrias exportadoras.
A globalização direciona o capital para onde os salários são mais baixos e explora os trabalhadores mais pobres. Se fosse verdade que os fluxos de capital se dirigem para onde os salários são mais baixos, seria de esperar que o Burkina Faso e outros países pobres com baixos salários estivessem inundados de investimento externo. A afirmação tem implicações tangíveis, o que permite que a testemos. Durante a década de 1990, 81% do investimento direto estrangeiro dos EUA foi para três partes do mundo: o desesperadamente pobre Canadá, a empobrecida Europa Ocidental e o faminto Japão. Países em desenvolvimento (com salários em crescimento) como a Indonésia, o Brasil, a Tailândia e o México representaram 18%. O resto do mundo, incluindo toda a África, repartiram o 1% restante. Os investidores colocam o seu capital nos locais que lhes oferecem os maiores retornos, e em geral isso acontece onde os salários são mais altos, não mais baixos. Além disso, as empresas estabelecidas por investidores externos tendem a pagar salários mais altos do que as empresas locais, porque os estrangeiros querem atrair e reter os melhores trabalhadores.
O capital é exportado dos países ricos para o Terceiro Mundo criando sweatshops, que por sua vez exportam grandes quantidades de bens baratos para os países ricos, gerando excedentes comerciais nos países pobres e reduzindo a atividade industrial nos países ricos, de tal forma que todos ficam pior. Ouço esse tipo de história frequentemente nas universidades. É tão confusa que é difícil saber por onde começar. Primeiro, não é possível ter simultaneamente um superávit na conta de capital e um superávit comercial. Se um país exporta mais do que importa, ele recebe algo em troca das suas exportações, e o que obtém é a propriedade de ativos — ou investimento líquido — nos países para os quais exporta. Se um país importa mais do que se exporta — como os EUA têm feito nas últimas décadas — é necessário vender algo aos estrangeiros que lhe enviam seus produtos, e o que se vende são ativos, tais como ações de empresas. A identidade contabilística fundamental é: Poupança – Investimento = Exportações – Importações. A maioria dos cenários aterrorizantes anunciados pelos oponentes da globalização tem sua base na mera ignorância dos elementos mais básicos da contabilidade do comércio internacional.
A globalização origina uma deterioração dos padrões ambientais e laborais. Outra falácia é a de que o capital flui para onde os padrões ambientais e laborais são mais baixos. Mas verifiquemos os fatos. Os investidores investem nos locais onde os retornos são maiores, os quais tendem a ser onde a mão de obra é mais produtiva, os quais são onde as pessoas são, consequentemente, mais ricas — e as pessoas mais ricas tendem a exigir melhores, e não piores, condições ambientais e laborais. Os dois casos mais citados como exemplos de efeitos supostamente negativos sobre o ambiente dos acordos comerciais — os do “atum/golfinho” e “camarão/tartaruga” — revelam uma melhoria, não uma deterioração, na medida em que outros países adotaram os padrões legais dos Estados Unidos para proteger os golfinhos e as tartarugas. O mesmo se aplica às condições laborais. Os postos de trabalho nas empresas propriedade de estrangeiros são geralmente muito procurados, porque pagam melhores salários e oferecem melhores condições laborais do que as alternativas domésticas.
A globalização cria uma cultura norte-americana homogênea em todo o mundo. É mesmo verdade que os Estados Unidos são culturalmente atraentes e que algumas pessoas — geralmente das elites — se opõem a isso. Mas consideremos a moda que tomou todo o mundo, o pequeno mago inglês Harry Potter, ou a loucura que se instalou nas crianças de sete anos por todo o mundo há alguns anos com o fenômeno japonês do Pokemon, assim como com o também japonês anime, a indústria cinematográfica indiana, Bollywood, e muitas outras contribuições de outras culturas, as quais enriqueceram a nós e a outros. Isto sem mencionar a comida tailandesa ou a possibilidade de ouvir músicas gravadas em praticamente todas as línguas faladas no planeta. Se as culturas permanecerem hermeticamente seladas e estáticas, elas deixam de ser culturas humanas e transformam-se em exposições de museu. A globalização nos enriquece culturalmente.
A globalização gera desigualdade. As causas do aumento e diminuição da desigualdade são complexas, mas há uma verdade substancial na afirmação de que a globalização gera desigualdade — o diferencial de riqueza entre os países que têm economias fechadas e aqueles que praticam o livre comércio continua a aumentar. Essa não é a desigualdade que os anti-globalizadores têm em mente. No interior dos países que abriram as suas economias ao comércio e aos investimentos, as classes médias cresceram, o que significa que existeenos e não mais desigualdade.
Benefícios da globalização
A globalização conduz à paz ao diminuir os incentivos para o conflito. O protecionismo se baseia numa mentalidade e num conjunto correspondente de políticas que enfatizam os interesses divergentes das nações. Em contraste, o comércio livre une os países em paz. Há um velho adágio que diz: “quando os bens não podem atravessar as fronteiras, os exércitos certamente o farão”.
O comércio gera riqueza. Imaginem que alguém criou uma máquina que permitiria fazer passar por uma porta coisas que podem produzir de forma barata e obter por outra porta as coisas que gostariam de ter mas custam mais a produzir. Os australianos poderiam fazer passar ovelhas por uma porta e da outra sairiam carros e máquinas de xerox. Os japoneses poderiam empurrar vídeos e aparelhagens por uma porta e obter petróleo, trigo e aviões pela outra. O inventor dessa máquina seria celebrado como benfeitor da humanidade — até que Pat Buchanan ou Ralph Nader mostrassem que o invento é... um porto! Então, em vez de ser considerado um herói, o “inventor” seria vilipendiado por ser um destruidor de empregos e pela sua falta de patriotismo. Mas qual é a diferença entre essa máquina maravilhosa e o comércio?
O comércio traz benefícios para todos. O erro mais comum dos protecionistas é confundir vantagem absoluta com vantagem comparativa. Mesmo que a pessoa na primeira fila seja melhor que eu em tudo, ambos nos beneficiamos do comércio se ela se especializar naquilo que faz melhor e eu me especializar naquilo que faço melhor. O velho exemplo da datilógrafa e do advogado aplica-se tanto entre fronteiras como dentro dos escritórios. O advogado pode escrever documentos jurídicos e datilografar melhor que a secretária, mas ambos se beneficiam se o advogado se especializar em escrever documentos jurídicos, os quais custam menos em termos de produção datilográfica perdida, e a secretária se especializar em datilografar, o que custa menos em termo de perda de argumentação jurídica, já que a secretária é melhor datilografando do que redigindo documentos jurídicos. O produto total é maior e ambos recebem mais rendimento. Essa é também uma razão pela qual o comércio está tão intimamente relacionado com a paz. Em primeiro lugar, é pelo fato de as pessoas poderem ver os outros seres humanos como parceiros numa cooperação mutuamente benéfica, e não como rivais mortais, que a sociedade humana se torna possível. O comércio é a base primordial da civilização humana.
O comércio livre é o caminho mais rápido para a eliminação do trabalho infantil. Em todo o mundo, trabalham aproximadamente 250 milhões de crianças. A porcentagem de crianças que trabalham tem caído — e não aumentado — com o incremento do comércio e da globalização, e por razões relativamente óbvias. Os países pobres não são pobres porque as crianças trabalham. As crianças trabalham porque são pobres. Quando as pessoas enriquecem através da produção e do livre comércio, enviam seus filhos para a escola, em vez de os mandarem para os campos. O comércio global é o caminho mais rápido para eliminar o trabalho infantil e substituí-lo pela educação infantil.
O comércio, a abertura e a globalização reforçam os governos democráticos e responsáveis e o Estado de Direito. À medida que as barreiras comerciais foram caindo, a porcentagem de governos classificados como democráticos pela Freedom House aumentou dramaticamente. Dos 40% de países com maior abertura econômica segundo o Economic Freedom of the World (co-publicado pelo Cato Institute), 90% são classificados como “livres” pela Freedom House. Pelo contrário, nos 20% de países com economias mais fechadas, menos de 20% foram classificados como “livres” e mais de 50% foram considerados “não livres”. O México é um bom exemplo; a abertura da economia mexicana através do Tratado de Livre Comércio da América do Norte tornou possível a vitória do presidente Vicente Fox e a ruptura do monopólio do poder pelo Partido Revolucionário Institucional. Os defensores de governos democráticos e responsáveis e do Estado de Direito deveriam apoiar a globalização.
O livre comércio é um direito humano fundamental. Os antiglobalizadores e os protecionsitas partem do pressuposto de que têm o direito de usar a força para evitar que vocês e eu levemos a cabo trocas voluntárias. Mas os direitos fundamentais deveriam ser iguais para todos os seres humanos, e o direito de comerciar é um direito fundamental, do qual desfrutam todos os seres humanos, independentemente do lado da fronteira em que vivam. O comércio livre não é um privilégio; é um direito humano. O comércio é algo distintivamente humano. Algo que nos diferencia de todos os outros animais. O comércio se baseia na nossa faculdade de raciocinar e na nossa capacidade de persuadir. Como assinalou Adam Smith numa conferência em 30 de Março de 1763: “A oferta de um shilling, que para nós parece ter um significado tão simples e direto, é na realidade a oferta de um argumento para persuadir alguém a fazer algo de tal forma que se ajuste ao seu interesse”. Como ele observou, outros animais podem cooperar, mas não comerciam, e não comerciam porque não usam a razão com o fim de persuadir.
O comércio não só é distintivamente humano, mas é também uma característica distintiva da civilização, como salientou Homero na Odisséia. No Canto IX, quando Ulisses nos relata a sua chegada à terra dos ciclopes, oferece-nos alguns pensamentos sobre as razões pelas quais os ciclopes são “gigantes sem leis”. Ulisses observa que:
“Os Ciclopes não possuem nenhumas naus de cascos vermelhos, nem artesãos capazes de fabricar essas naus bem munidas de ponte, que, adequadas a todas as viagens, rumam na direção das cidades povoadas, e tantas são as que transportam através do mar os homens que vogam de uns países para outros.” (Odisséia, Canto IX, 125-129)
Os Ciclopes são selvagens porque não comerciam. Vivem no mundo preferido pelos anti-globalizadores, um mundo sem comércio, um mundo em que toda a produção é local. O protecionismo deve ser rejeitado não apenas porque é ineficiente. Ele deve ser rejeitado porque conduz ao conflito e à guerra, porque é imoral, e porque é contrário à civilização.
Tradução de André Azevedo Alves
Adaptação para o português brasileiro por Pedro Sette Câmara
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