10/05/2013

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Robinson Crusoé e o Curandeiro Neskey Mangate II: A Ira de Khaye

Meu último artigo, “Robinson Crusoé e o Curandeiro Neskey Mangate” tratou das desventuras de Crusoé ao lidar com a violenta crise econômica que se abateu sobre sua ilha. Nosso anti-herói buscou os conselhos do curandeiro Mangate, que lhe recomendou o aumento de gastos governamentais financiados por impostos ou pela criação de títulos do tesouro. Um conselho formado por primos do curandeiro ficaria responsável pelo consumo dos frutos da ilha, criando assim, de acordo com o curandeiro, a demanda agregada adicional que permitiria que a ilha saísse da crise, já chamada por muitos no arquipélago de “a pior desde a Grande Depressão”.

Crusoé hesitava, porém. Não era preciso muita inteligência ou sagacidade para perceber que os conselhos serviam mais aos interesses dos primos de Mangate do que a Crusoé e ao futuro econômico da sua ilha. Mas qual a alternativa? Nos jornais do arquipélago, curandeiros de diversas correntes afirmavam categoricamente que a crise tinha que ser confrontada, custasse o que custasse, pois a inação seria, de acordo com eles, o pior de todos os erros. Estariam os curandeiros corretos?

Crusoé lembrou-se então de que, numa ilha distante, isolada e montanhosa chamada Pelerin, havia um curandeiro eremita que atendia pelo nome de Khaye. O eremita Khaye era marginalizado pelos demais curandeiros, um indivíduo paranoico excluído do debate devido à sua mania de falar com as paredes e de ver vermelho onde os demais viam verde. Crusoé achou que, devido à gravidade da situação, não custaria nada buscar os conselhos do eremita. Afinal, depois das inúmeras festas promovidas por Mangate e seus primos com os recursos de sua ilha, ele não tinha mais nada a perder senão os grilhões.

Assim, nosso anti-herói embarca numa viagem perigosa em direção à ilha Pelerin. Uma vez lá, e após cansativa busca, ele finalmente encontra o eremita Khaye. Muito surpreso com sua presença, a reação do eremita foi a de buscar refúgio na escuridão duma fria caverna situada no alto de uma montanha coberta de neves eternas. Crusoé, porém, não se deu por vencido. Ele finalmente encontrou Khaye e o arrastou para fora da caverna, expondo o eremita à luz do dia.

Khaye começou repentinamente a gesticular e babar como um louco, gritando expressões incompreensíveis. Crusoé estava prestes a desistir da empreitada, quando percebeu que, para compreender Khaye, bastava ignorar os ecos em sua mente das ladainhas e dos cânticos do livro sagrado empoeirado sob a guarda do curandeiro Mangate. Assim, após fenomenal esforço de concentração, Crusoé finalmente foi capaz de se comunicar com o eremita Khaye.

Informado sobre a situação na ilha de Crusoé, Khaye ofereceu um diagnóstico bastante diferente do de Mangate. Khaye havia notado que, antes de a crise se abater sobre a ilha, os preços dos cocos e peixes não haviam subido, enquanto o preço das ações (conchas azuis que Crusoé dava a si mesmo toda vez que terminava a construção de um bem de capital, como uma escada para apanhar cocos ou uma nova ponte passando sobre os córregos da ilha) e os preços dos títulos imobiliários (folhas de bananeira que estabeleciam Crusoé como o proprietário dos barracos de sapé) haviam subido enormemente. Como explicar a explosão e posterior implosão dos preços dos ativos financeiros e a estabilidade dos preços dos bens de consumo?

De acordo com Khaye, Crusoé havia se tornado prisioneiro de um círculo vicioso que ele mesmo havia criado. Graças ao comportamento passado dos preços, Crusoé passou a acreditar firmemente que os preços dos ativos financeiros continuariam subindo de forma contínua, a taxas acima das que, em tempos normais, teriam sido consideradas razoáveis. Essa percepção foi confirmada pela interpretação otimista de diversos curandeiros. Crusoé passou então a dedicar parcelas maiores do seu trabalho à construção de escadas, pontes e barracos de sapé. Como Crusoé tinha menos tempo disponível para colher cocos e pescar, Crusoé imprimiu em folhas de bananeira notas promissórias que seriam pagas pelo próprio Robinson Crusoé em 30 anos. Essas notas permitiam a Crusoé “adquirir” cocos e peixes dos estoques de emergência, bem como exaurir de forma acelerada as fontes de recursos da ilha. Os títulos, em teoria, serviriam para garantir ao próprio Crusoé, 30 anos mais tarde, o usufruto de novos cocos e peixes que seriam “devolvidos” usando os ganhos resultantes da valorização dos ativos financeiros. Como em 30 anos estariam todos mortos, ou pelo menos muito mais ricos (como diziam os curandeiros ligados a Mangate), Crusoé terminou por se convencer de que havia encontrado a pedra filosofal econômica: baixas taxas de poupança combinadas com baixas taxas de juros, crédito barato, investimentos mesmo em projetos com baixas taxas de retorno, e preços de bens de consumo estáveis graças à manutenção, ainda que de forma insustentável, dos níveis ofertados.

O resto é história: o excessivo uso dos recursos levou finalmente ao desmoronamento do castelo de cartas do investimento excessivo em projetos de baixa rentabilidade. A redução do preço do capital e do valor dos ativos financeiros levou ao aumento dos níveis de poupança, ao redirecionamento dos investimentos para projetos com taxas de retorno saudáveis, e à contenção da excessiva utilização das fontes de recursos da ilha.

Crusoé perguntou então a Khaye o que deveria ser feito para conter a crise. Khaye lhe respondeu que a crise não podia ser contida: o ajustamento dos níveis de poupança de volta a patamares aceitáveis não poderia ser evitado com a adoção de políticas de despoupança privada ou governamental. O aumento da poupança e consequente redução do endividamento era de fato a única saída possível para os problemas da ilha. Em outras palavras, a crise teria sido causada por endividamento excessivo e, portanto, não poderia ser curada com a ampliação do endividamento. Na verdade, os projetos do comitê dos primos de Mangate seriam ainda mais ineficientes que os investimentos em projetos de baixa produtividade que estavam na origem da crise. Assim, os gastos governamentais excessivos e as correspondentes emissões de títulos do tesouro resultariam apenas no prolongamento e aprofundamento da crise. A inação nesse caso teria sido uma melhor solução, mas melhor ainda teria sido a adoção de medidas que facilitassem a transição para um novo cenário com maior mobilidade de fatores, menos endividamento e mais poupança privada e governamental. Tais medidas não eliminariam os custos da transição, mas pelo menos colocariam a economia da ilha de volta ao caminho do crescimento sustentável.

Crusoé voltou satisfeito para sua ilha, pois finalmente era capaz de compreender os seus problemas econômicos. Sua economia podia estar em crise, mas pelo menos se encontrava no caminho da recuperação econômica. O mesmo não podia ser dito, porém, das economias das demais ilhas do arquipélago. Ainda sob a influência do livro sagrado empoeirado e das ladainhas de Neskey Mangate, eram incapazes de sair do círculo vicioso no qual haviam se metido.

 

* Publicado origjnalmente em 25/08/2010.

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