Um blogue criado para combater a cultura liberal - sem achar necessário demonstrar por meio de citações que autores liberais realmente defendem as posições criticadas, ou porque elas são essenciais ao liberalismo - resolveu espetar seus ferrões em uma obra específica. Os dois primeiros capítulos de Ação Humana são suficientes para Sidney Silveira concluir, nesses dois posts, que Mises não passava de um “hedonista”, “materialista”, “empirista”, “pragmatista”, cuja “perspectiva antropológica e psicológica é de um empirismo tosco sem igual”.
São rótulos que parecem ofender sem definir. Ludwig Von Mises defendia o apriorismo em oposição ao empirismo e ao pragmatismo epistemológico (v. The Ultimate Foundation of Economic Science), atacava o materialismo científico (v. Theory and History) alegando que “a produção é um fenômeno espiritual e intelectual” (p 196), e não justificava ou praticava a fuga da dor e a busca pelo prazer sensível imediato.
Mas o texto de Sidney Silveira vai além do xingamento e oferece algumas observações que merecem ser respondidas. Enxugando-as de suas repetições e sarcasmo, acho que esta seria uma sumarização correta das críticas feitas pelo blogueiro à praxeologia de Mises:
1) Ignorar a noção de sacrifício (pessoal ou caridoso) - é possível que determinada ação humana produza intencionalmente uma situação imediata de maior desconforto para atingir um objetivo maior no futuro (ir ao dentista, usar cinto de segurança…) ou para o benefício de outra pessoa (educar um filho, o sacrifício de Jesus Cristo pela humanidade…).
2) Privilegiar o epicurismo - considera-se toda ação humana motivada por um hedonismo racional.
3) Rejeitar qualquer objetividade axiológica - ao relativizar todos os valores ao juízo subjetivo, a praxeologia não admite a existência de valor nas coisas em si.
4) Considerar a busca por desconforto uma característica distintiva do homem, quando, na verdade, é a atualização de uma potência inferior compartilhada por todo ser vivo.
Vou começar pelo final, já que Mises respondeu claramente a objeção número 4 no primeiro capítulo de AH:
“É claro que o apetite por comida e abrigo é comum aos homens e a outros mamíferos e que, como regra, um homem, ao qual falta comida e abrigo, concentra seus esforços na satisfação dessas necessidades urgentes e não se importa muito com outras coisas. O impulso para viver, para preservar sua própria vida e para aproveitar as oportunidades de fortalecer suas forças vitais é característica primordial da vida, presente em todo ser vivo. Entretanto, ceder a este impulso não é – para o homem – uma necessidade inevitável.
Enquanto todos os animais são incondicionalmente guiados pelo impulso de preservação de sua própria vida e pelo de proliferação, o homem tem o poder de comandar até mesmo esses impulsos. Ele pode controlar tanto seus desejos sexuais, como sua vontade de viver. Pode renunciar à sua vida quando as condições para preservá-la parecem insuportáveis. O homem é capaz de morrer por uma causa e de suicidar-se. Viver, para o homem, é o resultado de uma escolha, de um julgamento de valor.” (p 31)
Toda ação atualiza os poderes ativos do agente racional: o poder de fazer X implica no poder de não fazer X. Para Mises, essa escolha não existe para os animais, que apenas reagem aos instintos.
Sobre 3, o blogueiro diz que “há um ato de ser e, por conseguinte, um bem e um valor em si nos próprios entes, os quais independem do nosso julgamento individual, embora nós os alcancemos por este último”. A economia não nega ou afirma haver “um valor em si nos próprios entes”. O seu objeto de estudo é a ação - seu dado é a manifestação da ação, e não a motivação axiológica que guia a ação. Conforme Sidney admite, alcançamos o conhecimento de qualquer “valor em si nos próprios entes” por meio do “julgamento individual”. Mas a economia é uma ciência que deve analisar a ação tanto daqueles que alcançam esse entendimento quanto daqueles que o ignoram. E, como não temos o conhecimento do que é ser outra pessoa, temos que basear nossa investigação na manifestação ativa do julgamento individual. Ao dizer que sua análise “se abstém de fazer julgamento de valor” (p 34), Mises deixa claro que a economia não reivindica a posição de uma nova ética:
“É verdade que a economia é uma ciência teórica e, como tal, se abstém de qualquer julgamento de valor. Não lhe cabe dizer que fins as pessoas deveriam almejar. É uma ciência dos meios a serem aplicados para atingir os fins escolhidos e não, certamente, uma ciência para escolha dos fins. Decisões finais, a avaliação e a escolha dos fins, não pertencem ao escopo de nenhuma ciência. A ciência nunca diz a algúem como deveria agir; meramente mostra como alguém deve agir se quiser alcançar determinados fins”.(p 16)
Com relação a 2, de acordo com o blogueiro, Mises afirma que “as doutrinas ‘teológicas’ e ‘místicas’ não abalaram a essência do epicurismo”. Para Sidney, isso significa que a filosofia pós-Epicuro jamais superou a sua ética hedonista. Como o epicurismo é incompatível com a teleologia cristã, essa afirmação seria absurda. No entanto, Mises não diz que essa essência seja um hedonismo racional, mas o movimento humano ao menor desconforto: “fazer o agente homem sentir-se mais feliz, é a essência dos ensinamentos do eudemonismo e do hedonismo”. Com relação ao epicurismo, Mises entende que “muitos representantes dessa filosofia tenham falhado em reconhecer o caráter meramente formal das noções de “dor” e “prazer” e lhes tenham dado um significado carnal e material”. Mas que, quando se desconsidera a “negligência [epicuriana] em relação aos prazeres “nobres” e “elevados”, permanece a forma da ação humana como ação proposital. Mises não coloca eudemonismo e hedonismo no mesmo balaio moral, como acusa o blogueiro. Ele apenas trata da ação proposital como um fato compartilhado por diferentes escolas filosóficas na descrição da atividade humana e na prescrição de seus ensinamentos.
Sobre 1, se Mises priorizasse os prazeres imediatos ou se excluísse os sacrifícios humanos de sua investigação, teria que eliminar o próprio conceito de trabalho, que, por definição, provoca desconforto (p. 92). Mas o trabalho, como qualquer outro sacrifício, não é um fim em si mesmo. Os sacrifícios são meios para a obtenção de fins maiores. A análise da ação pode ser imediata, enquanto seus fins estão num futuro distante, mas não há nada na obra de Mises que indique um hedonismo descritivo.
Talvez essa impressão hedonista da praxeologia tenha sido sugerida pelo uso do termo “desconforto”, que vulgarmente indica um incômodo passageiro. Quem não gosta da palavra, pode substituir “desconforto” por “infelicidade”. Para Mises, “não há nenhuma objeção válida ao costume de definir a ação humana como a busca da felicidade”. E não há muita diferença entre dizer isso e dizer que “toda ação tem em mira algum bem”, como afirmou Aristóteles. Dificilmente alguém acusará Aristóteles de relativismo moral, mas a implicação prática é a mesma. E, numa época em que cada um tenta reduzir todas as dimensões da experiência humana a sua área de especialidade, acho saudável ler um economista dizer que não é função da economia investigar o que é o bem ou a felicidade. A economia é “uma ciência de meios e não de fins”. Nesse sentido, ela funciona como um instrumento da ética e da política, e não como sua senhora.
Sidney, a praxeologia de Mises pode ter seus problemas, mas não acredito que sejam os que você alegou. Espero que você continue a ler, talvez com mais paciência e menos aversão prévia, e a comentar sobre Ação Humana. E depois siga sua peregrinação com outros títulos do Liberty Fund. Talvez haja mais riqueza na cultura liberal do que você imagina.