A ignorância de Naomi Klein

Uma das mais bem escritas críticas ao recente livro da Naomi Klein vem da própria esquerda. Entre os problemas encontrados em Doutrina de Choque, Jonathan Chait, editor sênior da New Republic, se espanta com a falta de conhecimento de Naomi Klein a respeito da direita americana:

É impressionante (mas, dadas suas premissas, não muito surpreendente) a pouquíssima atenção que ela [Naomi Klein] dá às idéias de direita. Ela reconhece que o neoconservadorismo tem um lugar especial no projeto da guerra do Iraque, mas não parece saber o que é o neoconservadorismo – e não se esforça muito para descobrir. Sua ignorância da direita americana é vivamente demonstrada numa frase de tirar o fôlego:

Somente a partir dos anos 90 o movimento intelectual liderado pelos think-tanks de direita com os quais Friedman se associou por muito tempo – a Heritage Foundation, o Cato Institute e o American Enterprise Institute - passou a chamar a si mesmo “neoconservador”, uma visão de mundo que coloca toda a força do aparato militar dos EUA a serviço dos interesses das grandes corporações.

Por onde começar? Em primeiro lugar, a ideologia neoconservadora não data dos anos 1990, mas dos anos 1960, e o rótulo passou a ser amplamente usado nos anos 1970. Em segundo lugar, se o neoconservadorismo é altamente simpático aos interesses das grandes corporações, ele é menos simpático do que outras formas de conservadorismo. Os primeiros neocons, ao contrário dos conservadores tradicionais, não rejeitavam o New Deal. Eles preferiam aquilo que hoje chamamos “grandeza nacional“ ao governo limitado. E sua política externa costuma bater de frente com os interesses das corporações: os neoconservadores são a favor de demonstrações de poder bélico em lugares como a China e o Oriente Médio, onde os riscos políticos desagradam às as corporações americanas, e favorecem relações abertas e a ampliação do comércio externo.

Além disso, a Heritage Foundation sempre teve uma relação desconfortável com o neoconservadorismo. (Russel Kirk deu uma palestra famosa na Heritage Foundation em que declarou que “freqüentemente parecia que alguns eminentes neoconservadores confundiam Tel Aviv com a capital dos Estados Unidos”. E o Cato Institute simplesmente não é neoconservador, tendo feito oposição feroz à guerra do Iraque em particular, e ao intervencionismo em política externa em geral.

Finalmente, há o papel central que Klein impôs a Friedman, seu vilão, tanto nessa fantástica passagem quanto em outras por todo o livro. Em sua narrativa, ele é o guru intelectual da “doutrina de choque”, cujo programa pró-corporações foi implementado por seus súditos de Santiago a Baghdad. Klein chama o movimento neocon de “Friedmanista até a medula”, e afirma que a guerra no Iraque é uma “aplicação cuidadosa e fiel da ideologia ilimitada da Escola de Chicago” a qual Friedman presidiu. O que ela não menciona – nem uma vez, nem em qualquer lugar, em seu livro – é que o Friedman se opôs à guerra do Iraque desde o início, chamando-a de um ato de “agressão”.

Deve ser uma lastimosa vergonha para uma escritora descobrir que o personagem central da sua narrativa na verdade se opõe ao que ela identifica como a apoteose do seu próprio movimento. E o erro de Klein coloca à mostra o defeito mais profundo de sua tese. Friedman se opunha à guerra porque ele era um libertário, e o conservadorismo libertário não é a mesma coisa que o neoconservadorismo. Nem os interesses das corporações são sempre, ou até habitualmente, favorecidos pela guerra.

Johan Norberg já havia comentado sobre a ignorância de Klein a respeito de Milton Friedman neste vídeo:

A crítica de Norberg ao Doutrina de Choque pode ser lida aqui.

O ponto em comum

Eu havia dito que a compreensão do funcionamento do livre mercado carrega consigo uma teoria de exploração econômica política e uma teoria de harmonia social. A primeira oferece um objeto para o ódio pela injustiça e a segunda inspira a contemplação estética. E concluí que o capitalismo possui um caráter romântico.

O Claudio respondeu que as pessoas não têm essa percepção do capitalismo, não enxergam a ordem que emerge no dinâmico sistema de preços. Preferem crer no “carisma de um caudilho”, confundem planejamento individual com planejamento social, e acham que as “leis” partem exclusivamente de comandos arbitrários, em vez de serem socialmente construídas. Em vez de inspiração, o capitalismo causa aversão à maioria das pessoas que continua associando o mercado à desordem que privilegia uma minoria.

Não acho que dissemos nada de incompatível. Se a existência de beleza e moralidade no capitalismo fosse suficiente para mover as pessoas, viveríamos em uma sociedade liberal. Se as pessoas não percebem beleza e justiça no capitalismo, o problema é com a percepção pública, não com a realidade do mercado. É a mesma coisa que acontece com a percepção dos benefícios gerados pelo mercado. O capitalismo promove a paz, a saúde e a prosperidade. Ainda assim, muitas pessoas que querem paz, saúde e prosperidade rejeitam o capitalismo. Nos dois casos, o que falta é compreensão (e intelectuais articulados que se façam compreender), e não apelo racional ou romântico ao livre mercado. Acho que eu e o Cláudio concordaríamos nesse ponto.

Sim, falta apelo romântico ao capitalismo

Diogo Costa entrou em uma discussão muito interessante acerca da visão que temos do capitalismo. A pergunta é perfeita: “falta apelo romântico ao capitalismo”? Minha resposta, nem otimista, nem pessimista é que, sim, falta. Tentarei explicar minha opinião em poucas (?) palavras.

Em um artigo de 1994, Douglass North & Arthur Denzau introduziram o conceito de “modelos mentais compartilhados” (shared mental models) na tentativa de explicar, como sempre faz North, a relação entre instituições e desenvolvimento econômico. Tais “modelos mentais” seriam (tradução nossa): “…representações internas que os sistemas cognitivos dos indivíduos criam para interpretar o ambiente e as instituições são mecanismos externos (à mente) que os indivíduos criam para estruturar e ordenar o ambiente”. Mais importante, alguns modelos mentais podem ser compartilhados por indivíduos, dizem os autores. É fácil ver como a ideologia surge neste contexto. Ao leitor não-economista pode parecer óbvio que assim o seja, mas tenha em mente que a Ciência Econômica é extremamente cautelosa em modelar as ações humanas e a ideologia é um dos aspectos mais difíceis na modelagem econômica. Contudo, como já disse Robert Higgs, o fato de ser de difícil compreensão não significa que não seja importante (podemos pensar nisto de maneira mais relaxada, como “onde há fumaça, há fogo, embora eu não saiba bem se há”).

Esta história toda de modelos mentais e ideologia serve para explicar um pouco a falta de apelo romântico ao capitalismo. O próprio North, em outro trabalho, levantou esta questão. Por algum motivo, disse ele, as pessoas preferem acreditar na ação visível do Estado do que na mão invisível de milhares de indivíduos operando no(s) mercado(s). É até intuitivo pensar assim pois estamos acostumados a planejar nossas vidas e, sempre, minimizar os possíveis riscos aleatórios de fracassos. Assim, boa parte das pessoas identifica o planejamento individual com algum planejamento social (ou estatal) fazendo uma extrapolação simples, mas errônea. O problema é, portanto, como explicar a estas pessoas que o funcionamento dos mercados é mais eficiente (economicamente) e desejável (do ponto de vista liberal)?

Vejamos outro problema. Estamos acostumados, desde criança, a pensarmos em termos de regras. Estabelecemos regras para brincarmos de esconde-esconde, por exemplo. Embora a diversão tenha um preço (posso ficar encarregado de encontrar meus amigos que, facilmente se escondem), este não me é tão doloroso: faz parte da brincadeira. Da mesma forma, automaticamente extrapolamos que regras são sempre melhores que ausência de regras.

Novamente, outra sutileza não aparece aqui: como são formadas estas regras “sociais”? Devem elas ser impostas ou descobertas naturalmente pela sociedade? Como o custo de toda uma sociedade descobri-las é elevadíssimo, criamos a democracia representativa para resolver nosso problema. Claro que, em casos de decisões menos técnicas do que morais (ex. casamento homossexual, aborto, etc) estas democracias se utilizam de elementos da democracia participativa tais como referendos e plebiscitos (eis outra área de estudos interessante e recomendo ao leitor a busca pelos trabalhos de John Matsusaka). Mesmo assim, a questão permanece: como devem ser criadas as regras?

Planejamentos, regras…eis o problema dos modelos mentais. Grupos distintos da sociedade são formados a partir de um compartilhamento de valores específicos. Alguns querem mais planejamento, outros menos. Há os que pensam que regras devem ser feitas para tudo codificar, outros nem tanto e, sob uma ordem hayekiana, deveríamos ser livres para observar erros e acertos derivados destes grupos para escolhermos - de livre e espontânea vontade - mudar ou não aspectos de nossos modelos mentais.

Qual a consequência da adoção majoritária de uma visão de mundo na qual o Estado possa mais que o mercado? Simples: o Estado é visto como panacéia para todos os males. Não importa que o cálculo do custo-benefício aponte o contrário. O sujeito sempre desconfiará da mão invisível e da liberdade. Isto pode ser revertido, claro, e um “apelo romântico” ajuda. Aliás, é até bom que isso seja revertido porque o sobre-uso do mecanismo democrático, político, em contraposição ao mercado gera perigos reais. Por exemplo:

“Como bem observa Hayek, o crescente descrédito em que tem mergulhado o governo democrático deve-se ao fato de a democracia ter sido sobrecarregada com tarefas das quais não tem como se desincumbir”. [Alberto Oliva, Democracia e Liberdade: as escolhas de muitos, as decisões de poucos” In: Rosenfield, D. (org) Filosofia Política, III(6) - Democracia e Política, Jorge Zahar Editor, 2003, p.60]

O que Oliva (e Hayek) diz(em) é o que os teóricos da Escolha Pública têm dito há anos: o uso do Estado para atendimento de grupos específicos leva a um aumento de seu tamanho e também a um nível de ineficiência terrível. Claro que uma das consequências é o descrédito do mecanismo político de tomada de decisões, no caso do trecho citado, a democracia. Não é difícil ver o quão fácil fica a via para o populismo e para o autoritarismo. Assim, o “apelo romântico” tem, sem dúvida, consequências importantes. Cito Henri Besançon:

“O comunismo é mais perverso que o nazismo porque ele não pede ao homem que atue conscientemente como um criminoso, mas, ao contrário, se serve do espírito de justiça e de bondade (…) [A Infelicidade do Século, Bertrand Editores, p.64].

Qual o apelo romântico de uma mão invisível em contraposição ao carisma de um caudilho? Qual o apelo romântico de altas e quedas nos preços em contraposição a uma estrela, uma foice, ou uma suástica? Qual o apelo romântico de um mecanismo social que prevê que cada qual arque com seus custos ou benefícios de suas próprias ações quando alguém lhe diz que há como transferir os custos para outrem (seja porque é “burguês”, “expropriador” ou mesmo “judeu”) e ficar apenas com os benefícios?

Para piorar, no caso do Brasil, liberalismo ou liberdades são muito fortemente confundidos com “rent-seeking” e fortemente associados apenas a um grupo da sociedade: o empresariado (você já viu alguma “minoria” se dizer liberal, embora defenda ferrenhamente seus direitos individuais, até mesmo às custas do restante da sociedade?). Em resumo, capitalismo, no Brasil, é majoritariamente identificado com o que poderíamos chamar de “capitalismo rent-seeking” (ou paroquial), no qual grupos de interesse específicos usam o Estado para transferir recursos de outrem para si.

Sob um modelo mental que confunde capitalismo com rent-seeking, é fácil perceber que o apelo romântico pende muito mais para a ação “heróica” de um caudilho, de um ditador benevolente, ou para alguém que “bote ordem na casa, pois não é possível fazer um omelete sem quebrar alguns ovos”.

Eis o problema da falta de apelo romântico do capitalismo. Como resolvê-lo? Creio que a resposta passa pela difusão de idéias.

Falta apelo romântico ao capitalismo?

O professor Michael Stroup coloca a seguinte citação em seu site:

Falta apelo romântico ao capitalismo. Ele não faz o coração bater mais forte do mesmo jeito que as ideologias contrárias, como o socialismo, o fascismo e o ambientalismo. Não ferve o sangue, porque não aponta dragões para exterminar… É bem o oposto do socialismo. Enquanto o capitalismo ensina, mas não consegue inspirar, o socialismo inspira, mas não consegue ensinar. A história do socialismo está encardida de repetidos fracassos e miséria humana em larga escala. Ainda assim, o socialismo atrai sorrisos em vez de insultos dos povos que jamais conheceram seu jugo”. Peter Saunders, Policy (2007)

Muitos liberais concordariam com Saunders que o poder explicativo do capitalismo não basta para inspirar nem mover as pessoas. Discordo. A contemplação da economia de mercado é capaz de motivar aqueles que odeiam a injustiça e encantar quem souber apreciar a ordem gerada pelas pessoas livres.

Em primeiro lugar, embutida na compreensão do funcionamento da economia capitalista, há uma teoria de exploração econômica. Os industrialistas franceses distinguiam entre a classe produtora (trabalhadores, agricultores, empresários…) e a classe parasítica (políticos, burocratas, militares…). Na primeira metade do século 20, o sociólogo alemão Franz Oppenheimer fez uma distinção que influenciaria o movimento libertário pelas décadas seguintes. Segundo Oppenheimer, há dois meios para a transferência de recursos entre pessoas ou grupos. O primeiro refere-se à troca e ao comércio, o que ele chamava de meio econômico. O outro diz respeito ao roubo e à apropriação forçada, chamado por ele de meio político. Mais recentemente, a escola de Escolha Pública explicou, com o conceito de rent-seeking ou “rentismo”, como certas instituições das democracias modernas servem aos meios políticos.

Baseados em classificações desse tipo, os liberais se opõem às transações que não se firmam no consentimento ou na criação de valor. O que o difere das outras ideologias é que o capitalismo nos ensina que os dragões da economia moderna são institucionais, e não correspondem a um grupo específico de pessoas. Enquanto o socialismo tem os burgueses por inimigos e o nacionalismo os estrangeiros, os liberais pretendem exterminar as instituições políticas que, por diminuir a produtividade e a liberdade, não servem ao bem comum.

Frédéric Bastiat foi um desses liberais. Para explicar o mecanismo estatal de exploração econômica, Bastiat cunhou o termo espoliação legal – mais preciso e menos acanhado que rent-seeking. Mas além de denunciar o Estado como ficção espoliadora, o economista francês também descrevia, com ainda maior carga emocional, as maravilhosas regularidades geradas pelas atividades humanas em uma sociedade livre. Uma de minhas citações favoritas de Bastiat é o parágrafo com que ele termina o primeiro capítulo de Harmonies économiques:

Não condenemos a humanidade até havermos estudado suas leis, forças, energias e tendências. Newton, após ter descoberto a lei da gravidade, jamais pronunciou o nome de Deus sem descobrir a cabeça. Assim como o intelecto está acima da matéria, também o mundo social está acima do universo físico que Newton reverenciava – pois os mecanismos celestes não estão conscientes das leis que obedecem. Muito mais razão, pois, temos nós para nos prostrar diante da Sabedoria Eterna enquanto contemplamos o mecanismo do mundo social no qual a mente universal de Deus também reside (mens agitat molem), mas com a diferença de que o mundo social apresenta um fenômeno adicional e estupendo: cada um de seus átomos é um ser animado, pensante, dotado daquela maravilhosa energia, aquela fonte de toda a moralidade, de toda a dignidade, de todo o progresso, aquele atributo exclusivo do homem: a liberdade!

Não consigo prever a reação das atividades cardíacas nem a temperatura do sangue das pessoas, mas há um motivo pelo qual indivíduos extraordinários dedicaram sua vida à compreensão e à defesa das leis que emergem no mundo social. É difícil não se fascinar ao perceber que há harmonia na cataláxia, que há ordem na liberdade. Que não precisamos de comandantes superpoderosos para fazer existir paz, prosperidade e justiça. Que a mão invisível responde à racionalidade de uma mente invisível orquestrando inconcebíveis prodígios por meio da nossa incessante busca por felicidade.

Liberdade pneumática

Vejo num post do Rui Carmo no Insurgente a notícia de que a liberdade religiosa está garantindo na Holanda o direito a fumar em lugares fechados:

Para fugir à proibição do fumo em recintos fechados, o dono de um café em Amesterdão, Holanda, vai consagrar hoje o seu estabelecimento como a A Igreja Única e Universal dos Fumadores de Deus.

Pode parecer piada, mas não é. E os princípios também não são piada de jeito nenhum.

Uma das maneiras de se lidar com a diversidade religiosa é a propriedade privada. Cada um pode realizar seus cultos em seu próprio espaço. O que ninguém esperava era que a religião viesse restaurar a propriedade privada, o simples direito do dono de um estabelecimento de permitir que seus clientes fumem.

É claro que a “Igreja Única e Universal dos Fumadores de Deus” não é séria enquanto religião. Mas isso não vem ao caso, e sim o fato de que o respeito à propriedade e à responsabilidade individual já se desgastou tanto no discurso público que uma farsa pode ser usada para permitir aquilo que jamais deveria ter sido proibido.

Tom Stoppard na Time

Assim termina o texto:

Numa festa que deu ao ar livre recentemente, ele [Tom Stoppard] foi obrigado a contratar dois salva-vidas porque havia um laguinho no jardim. “A idéia mesma de que somos todos responsáveis por nós mesmos e não precisamos de babás enchendo o saco o tempo inteiro, isso está acabando. E nem sei a quem isso interessa ou quem quer que as coisas sejam assim. Parece um jorro de lava que ninguém pediu. Na verdade, sabemos a quem isso interessa. Isso interessa às hordas de funcionários públicos que não existiam há 10 anos.”

Eis a questão: o discurso de proteção social pode facilmente ser desmistificado como defesa do interesse próprio da burocracia. Os burocratas também são indivíduos. Eles também precisam se viabilizar. Quem se beneficia com o aumento do governo senão eles?

Anarquismo de base em São Paulo?

Este artigo do editorial do Estado de S. Paulo trata do crescente número de bairros “privados” no estado de São Paulo. Em diversos municípios associações de moradores formam comunidades fechadas para prover serviços que não recebem do governo, como segurança, limpeza e conservação das ruas e manutenção de áreas de lazer. O artigo critica a ilegalidade de vários desses condomínios e acusa a irresponsabilidade das prefeituras que “nada fazem e se dão por satisfeitas com a situação. Continuam recebendo impostos, mas deixam ao grupo privado a tarefa de prover o bairro de serviços que seriam de sua responsabilidade”. No último parágrafo, um advogado “argumenta que os moradores já pagam os tributos municipais, razão pela qual não precisam pagar também a mensalidade. E observa: ‘Não há contrato, não há nada, então as pessoas não podem ser cobradas por algo que não contrataram’”.

Concordo que “as pessoas não podem ser cobradas por algo que não contrataram”, mas o mesmo argumento não pode ser usado contra a administração pública? Reescrevendo, se os moradores já pagam a mensalidade, não precisam pagar também os tributos municipais. Ainda mais porque a prefeitura sequer realiza os serviços para os quais os impostos são coletados.

Será que São Paulo está caminhando para permitir projetos em pequena escala de comunidades anárquicas, ou será que esse é o surgimento dos novos bairros-estados? Provavelmente nenhum dos dois, mas talvez esses exemplos venham a oferecer casos de estudo interessantes sobre como a iniciativa privada pode ser mais eficiente em prover serviços tradicionalmente atribuídos ao Estado.

Liberalismo, socialismo e poder

Poder. Por Rui Albuquerque.

Os socialistas são, por consequência, elitistas e defensores do governo iluminado. Eles julgam que o processo democrático selecciona os melhores servidores da causa pública, ou que estes se transformam em gestores exemplares pelo simples motivo de chegarem ao governo. Só esta fé, só tanta fé, pode justificar que eles depositem nas mãos dos governantes eleitos um feixe de poderes e de competências quase ilimitado. Leia mais →

Pugnando Mises (2)

No que diz respeito a contribuir para um mais correcto entendimento das posições de Mises, pouco poderia acrescentar ao excelente texto do Diogo, mas o episódio fez-me pensar no elevado número de vezes que me deparo com críticas a Mises e - ainda mais - a Hayek que parecem ter por alvo não o que os autores realmente defenderam mas espantalhos imaginários.

Certamente que o mesmo acontece também em algumas críticas de liberais clássicos a autores como Rawls ou Marx, mas creio que o fenómeno se verifica desproporcionalmente em críticas a Mises e Hayek.

O fascínio que os principais autores da Escola Austríaca exercem sobre os seus críticos parece frequentemente ser tão forte que impossibilita a leitura e discussão atenta e serena dos textos que pretendem criticar. É pena.

Pugnando Mises

Um blogue criado para combater a cultura liberal - sem achar necessário demonstrar por meio de citações que autores liberais realmente defendem as posições criticadas, ou porque elas são essenciais ao liberalismo - resolveu espetar seus ferrões em uma obra específica. Os dois primeiros capítulos de Ação Humana são suficientes para Sidney Silveira concluir, nesses dois posts, que Mises não passava de um “hedonista”, “materialista”, “empirista”, “pragmatista”, cuja “perspectiva antropológica e psicológica é de um empirismo tosco sem igual”.

São rótulos que parecem ofender sem definir. Ludwig Von Mises defendia o apriorismo em oposição ao empirismo e ao pragmatismo epistemológico (v. The Ultimate Foundation of Economic Science), atacava o materialismo científico (v. Theory and History) alegando que “a produção é um fenômeno espiritual e intelectual” (p 196), e não justificava ou praticava a fuga da dor e a busca pelo prazer sensível imediato.

Mas o texto de Sidney Silveira vai além do xingamento e oferece algumas observações que merecem ser respondidas. Enxugando-as de suas repetições e sarcasmo, acho que esta seria uma sumarização correta das críticas feitas pelo blogueiro à praxeologia de Mises:

1) Ignorar a noção de sacrifício (pessoal ou caridoso) - é possível que determinada ação humana produza intencionalmente uma situação imediata de maior desconforto para atingir um objetivo maior no futuro (ir ao dentista, usar cinto de segurança…) ou para o benefício de outra pessoa (educar um filho, o sacrifício de Jesus Cristo pela humanidade…).

2) Privilegiar o epicurismo - considera-se toda ação humana motivada por um hedonismo racional.

3) Rejeitar qualquer objetividade axiológica - ao relativizar todos os valores ao juízo subjetivo, a praxeologia não admite a existência de valor nas coisas em si.

4) Considerar a busca por desconforto uma característica distintiva do homem, quando, na verdade, é a atualização de uma potência inferior compartilhada por todo ser vivo.

Vou começar pelo final, já que Mises respondeu claramente a objeção número 4 no primeiro capítulo de AH:

“É claro que o apetite por comida e abrigo é comum aos homens e a outros mamíferos e que, como regra, um homem, ao qual falta comida e abrigo, concentra seus esforços na satisfação dessas necessidades urgentes e não se importa muito com outras coisas. O impulso para viver, para preservar sua própria vida e para aproveitar as oportunidades de fortalecer suas forças vitais é característica primordial da vida, presente em todo ser vivo. Entretanto, ceder a este impulso não é – para o homem – uma necessidade inevitável.

Enquanto todos os animais são incondicionalmente guiados pelo impulso de preservação de sua própria vida e pelo de proliferação, o homem tem o poder de comandar até mesmo esses impulsos. Ele pode controlar tanto seus desejos sexuais, como sua vontade de viver. Pode renunciar à sua vida quando as condições para preservá-la parecem insuportáveis. O homem é capaz de morrer por uma causa e de suicidar-se. Viver, para o homem, é o resultado de uma escolha, de um julgamento de valor.” (p 31)

Toda ação atualiza os poderes ativos do agente racional: o poder de fazer X implica no poder de não fazer X. Para Mises, essa escolha não existe para os animais, que apenas reagem aos instintos.

Sobre 3, o blogueiro diz que “há um ato de ser e, por conseguinte, um bem e um valor em si nos próprios entes, os quais independem do nosso julgamento individual, embora nós os alcancemos por este último”. A economia não nega ou afirma haver “um valor em si nos próprios entes”. O seu objeto de estudo é a ação - seu dado é a manifestação da ação, e não a motivação axiológica que guia a ação. Conforme Sidney admite, alcançamos o conhecimento de qualquer “valor em si nos próprios entes” por meio do “julgamento individual”. Mas a economia é uma ciência que deve analisar a ação tanto daqueles que alcançam esse entendimento quanto daqueles que o ignoram. E, como não temos o conhecimento do que é ser outra pessoa, temos que basear nossa investigação na manifestação ativa do julgamento individual. Ao dizer que sua análise “se abstém de fazer julgamento de valor” (p 34), Mises deixa claro que a economia não reivindica a posição de uma nova ética:

“É verdade que a economia é uma ciência teórica e, como tal, se abstém de qualquer julgamento de valor. Não lhe cabe dizer que fins as pessoas deveriam almejar. É uma ciência dos meios a serem aplicados para atingir os fins escolhidos e não, certamente, uma ciência para escolha dos fins. Decisões finais, a avaliação e a escolha dos fins, não pertencem ao escopo de nenhuma ciência. A ciência nunca diz a algúem como deveria agir; meramente mostra como alguém deve agir se quiser alcançar determinados fins”.(p 16)

Com relação a 2, de acordo com o blogueiro, Mises afirma que “as doutrinas ‘teológicas’ e ‘místicas’ não abalaram a essência do epicurismo”. Para Sidney, isso significa que a filosofia pós-Epicuro jamais superou a sua ética hedonista. Como o epicurismo é incompatível com a teleologia cristã, essa afirmação seria absurda. No entanto, Mises não diz que essa essência seja um hedonismo racional, mas o movimento humano ao menor desconforto: “fazer o agente homem sentir-se mais feliz, é a essência dos ensinamentos do eudemonismo e do hedonismo”. Com relação ao epicurismo, Mises entende que “muitos representantes dessa filosofia tenham falhado em reconhecer o caráter meramente formal das noções de “dor” e “prazer” e lhes tenham dado um significado carnal e material”. Mas que, quando se desconsidera a “negligência [epicuriana] em relação aos prazeres “nobres” e “elevados”, permanece a forma da ação humana como ação proposital. Mises não coloca eudemonismo e hedonismo no mesmo balaio moral, como acusa o blogueiro. Ele apenas trata da ação proposital como um fato compartilhado por diferentes escolas filosóficas na descrição da atividade humana e na prescrição de seus ensinamentos.

Sobre 1, se Mises priorizasse os prazeres imediatos ou se excluísse os sacrifícios humanos de sua investigação, teria que eliminar o próprio conceito de trabalho, que, por definição, provoca desconforto (p. 92). Mas o trabalho, como qualquer outro sacrifício, não é um fim em si mesmo. Os sacrifícios são meios para a obtenção de fins maiores. A análise da ação pode ser imediata, enquanto seus fins estão num futuro distante, mas não há nada na obra de Mises que indique um hedonismo descritivo.

Talvez essa impressão hedonista da praxeologia tenha sido sugerida pelo uso do termo “desconforto”, que vulgarmente indica um incômodo passageiro. Quem não gosta da palavra, pode substituir “desconforto” por “infelicidade”. Para Mises, “não há nenhuma objeção válida ao costume de definir a ação humana como a busca da felicidade”. E não há muita diferença entre dizer isso e dizer que “toda ação tem em mira algum bem”, como afirmou Aristóteles. Dificilmente alguém acusará Aristóteles de relativismo moral, mas a implicação prática é a mesma. E, numa época em que cada um tenta reduzir todas as dimensões da experiência humana a sua área de especialidade, acho saudável ler um economista dizer que não é função da economia investigar o que é o bem ou a felicidade. A economia é “uma ciência de meios e não de fins”. Nesse sentido, ela funciona como um instrumento da ética e da política, e não como sua senhora.

Sidney, a praxeologia de Mises pode ter seus problemas, mas não acredito que sejam os que você alegou. Espero que você continue a ler, talvez com mais paciência e menos aversão prévia, e a comentar sobre Ação Humana. E depois siga sua peregrinação com outros títulos do Liberty Fund. Talvez haja mais riqueza na cultura liberal do que você imagina.

Teoria Econômica do Direito (Law and Economics)

Este é apenas um texto informativo. Para quem viu a entrevista do prof. Salama no Ordem Livre, eis aqui sua página de trabalhos acadêmicos. Se você gosta de Law and Economics, então vai se divertir um bocado.

Liberalismo é para todos

Após ler isto, eu me lembrei de algo importante: é lá perto do brasileiro pobre, que necessita de um governo liberal, que a educação não chega. Chega, quando muito, uma doutrinação unilateral (aquela que acusa o capitalismo de criar o apocalipse, a AIDS e, sei lá, as novelas mexicanas).

Quão profundas são as raízes liberais em nossos jovens de elite? O liberal autêntico entenderá que filosofias autoritárias e paternalistas são piores para os pobres, mesmo após a convivência mais próxima com estes no colégio (por outro lado, sempre há a patuléia que se comporta como aquela rica menina mimada do filme “Tropa de Elite”…).

Maravilhas do governo inglês

Ok, não do governo federal inglês, mas dos conselhos municipais. Tiradas do Top Gear, meu programa favorito.

Aparentemente os burocratas ingleses adoram criar placas de trânsito, mesmo que sobrecarreguem o motorista de informações e isso possa custar sua vida.

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Por que os sem-terra precisam dos direitos de propriedade (bem definidos) e de um bom mercado?

A notícia começa legal, com algumas palavras sobre uma nova base de dados sobre conflitos de terras. Lá pelas tantas, um historiador envolvido na construção da base de dados diz:

O historiador notou que os conflitos no Pontal têm sua origem na falta de legalidade dos títulos de propriedade rural. “Muitas terras ali são griladas”, afirma.

Em outras palavras: muito dos problemas que temos no Brasil é porque o governo brasileiro nunca foi muito chegado na importância dos direitos de propriedade. É quase imediato perguntar-se sobre o efeito dos direitos de propriedade sobre os sem-terra. O que aconteceria se as terras griladas passassem, efetivamente, para as mãos deste pessoal?

Há dois estudos interessantes e que lançam luz sobre isto (eis aqui um e outro). Também vale a pena pensar em como nosso passado influencia os direitos de propriedade hoje. Neste sentido, vale a pena dar uma olhada nisto.

E quanto à questão da eficiência da política agrícola brasileira? Bem, eis aqui um bom texto. Neste excelente trabalho, o prof. Assunção conclui, dentre outras:

As principais lições que podem ser extraídas dos resultados apresentados são as seguintes: (i) imperfeições de mercado vêm impedindo uma utilização eficiente de recursos na agricultura brasileira; e (ii) essas imperfeições têm importantes consequências para o desenho de políticas públicas.

Como se percebe desta pequena amostra de pesquisas científicas sobre reforma agrária, há muito mais a ser discutido do que a superficial visão marxista que permeia boa parte do debate sobre reforma agrária no Brasil.

“Melhor morrer tocando a liberdade por alguns segundos do que morrer baleado pelas FARC”

Betancourt afirmou que estava de acordo com o resgate militar e, ao lembrar dos que morreram em conflitos, declarou: “Melhor morrer tocando a liberdade por alguns segundos do que morrer baleado pelas Farc”, como aconteceu com 11 deputados seqüestrados.

É tocante ouvir isto, não? Eu me emocionei.

A crítica do liberalismo…

…por dois de seus representantes.

A entrevista citada acima é uma das raras vezes em que o leitor encontra, na internet, uma crítica sincera, honesta e bem-intencionada aos praticantes - ou meramente divulgadores - do liberalismo brasileiro. Deixe lá seu comentário. A prova de que existe auto-crítica dentro do liberalismo está na reação dos liberais à esta entrevista. Por menos importante que seja o blog, crítica sempre chega aos ouvidos dos criticados. A questão é se e como reagem.

Ah sim, observo, com orgulho, que os colegas do Ordem Livre são citados em comentário como os mais úteis na difusão do pensamento liberal no Brasil.

O declínio dos jornais

Richard Posner explica por que os jornais estão condenados:

“The Web provides a virtually costless method of distributing the products that are bundled in a newspaper. The distribution is not only cheaper, but better, because it avoids the time and space constraints of hard copy delivered on a daily (rather than instantaneous) basis and space-constrained by the cost of paper. The unbundling goes deeper than the section level (classified ads, the sports section, etc.), for every section of a newspaper is itself a bundle. The news section bundles a variety of news stories that different readers value differently; readers who have no interest in foreign policy nevertheless pay for a newspaper that may maintain costly foreign bureaus in order to produce good stories on foreign policy. The Web provides a customized news service that enables the tastes of particular readers to be identified and then satisfied by instantaneous and often costless delivery of a product laser-focused on those tastes.”

Dá para concluir do texto que as revistas, mais especializadas, têm chances maiores de se adaptarem a web do que os jornais. No entanto, os mais populares portais simulam os jornais, agregando diferentes seções na home. Talvez os portais sejam apenas um resquício do hábito dos leitores de jornal. Mas pode ser que há algo valioso na oferta eclética. Talvez a maioria das pessoas gosta de ter tudo o que acontece de mais importante em diferentes assuntos numa mesma página. Mesmo assim, serviços de feed seriam mais eficientes do que os grandes portais.

O que eles têm em comum?

Os diferentes sabores do mesmo espírito totalitário:

Garrafas de assassinos políticos do século XX

Foto postada por meu amigo Ivan Isorio

Vitória da liberdade individual

A Suprema Corte americana decidiu pela inconstitucionalidade da lei que proibia há 32 anos a posse de armas de fogo em Washington, DC. Robert Levy, senior fellow do Cato Institute, foi conselheiro do caso. Levy se pronunciou sobre a decisão:

Nessa quinta-feira, a Suprema Corte americana redescobriu a segunda emenda da Constituição. Passados cinco anos desde que seis residentes da cidade de Washington, D.C., contestaram a proibição de 32 anos de todas as armas de fogo nos domicílios, a Suprema Corte afirmou, no caso do Distrito de Columbia vs. Heller, que a lei é inconstitucional.

O caso Heller é apenas a primeira rajada de uma série de processos que terminarão por definir quais armas e pessoas podem ser reguladas e quais restrições são permissíveis. Mas, graças à decisão dessa quinta-feira, as perspectivas de reviver o significado original da Segunda Emenda são muito mais favoráveis.

Ainda os assentos dos cinemas

Vejam só, quando começamos a discutir determinadas bizarrices estatais corremos o risco de nos perder. Não estou dizendo que foi isso que houve no post do Diogo; só quero fazer um acréscimo.

O que está em jogo não é se é melhor os cinemas terem lugar marcado ou não. Não é descobrir aquilo que é o ideal para então tornarmos obrigatório. A discussão política não pode partir do princípio de que o melhor deveria ser obrigatório, e só resta descobrir o que é o melhor.

Antes, o que está desde sempre em jogo é a sua liberdade de comprar e vender. E isso inclui a sua liberdade de fazer compras ruins, mas perceber que pode fazer compras melhores e “punir” quem presta maus serviços deixando de adquiri-los. Eu mesmo, para dizer a verdade, dou preferência aos cinemas com lugares marcados.

E devo dizer que essa boa iniciativa do setor privado tem mais chance de se universalizar se o governo, em vez de tentar transformá-la em lei, restabelecer a obrigatoriedade de exibição de curtas-metragens brasileiros nos cinemas. Aí sim só vamos querer lugar marcado! Muitas vezes, será imprescindível pular essa parte da sessão e ter o nosso assento garantido.