Fome de comércio

No Estadão de anteontem, Claudia Costin analisa crise global de alimentos. Ela menciona dois fatores determinantes: 1)”a população mundial continua a crescer num ritmo perigosamente elevado, e nas regiões menos capazes de absorvê-la”; e 2) “o aumento da renda em alguns países, como Índia e China, tem levado a mais que dobrar o consumo mundial de arroz e de outros alimentos”. Logo depois, Claudia diz que, combinada com o aumento do preço do barril de petróleo e do barateamento da manufatura chinesa, a ocorrência desses dois fenômenos é uma “infelicidade”.

Quando se trata do enriquecimento honesto de centenas de milhões de pessoas, da prosperidade que permite a essas pessoas comer mais e melhor, eu costumo esperar um tom mais comemorativo. O que merece condenação são as políticas que dificultam a adaptação mundial ao aumento do preço da energia e às condições climáticas. Os subsídios pagos aos agricultores pela União Européia e Estados Unidos limitam os incentivos e recursos para a modernização da agricultura de boa parte dos países pobres e as barreiras ao livre comércio diminuem a oferta mundial de alimentos mantendo o preço elevado. Em todo o mundo, apenas de 5 a 7% da produção de arroz é comercializada internacionalmente.

A solução à crise dos alimentos não está nos programas estatais, como sugere Claudia, mas na extinção de políticas mercantilistas.

A “autonomia” de Santa Cruz

O G1 tem um bom guia para entender o referendo de Santa Cruz de la Sierra.

Naturalmente, colocar a questão como “uma região rica que não quer dividir seus recursos com outras mais pobres” é um apelo ao sentimentalismo. Não é a riqueza natural que traz necessariamente a riqueza material: países africanos paupérrimos têm diamantes, e o Japão não tem riquezas naturais.

Vamos colocar a questão de outra maneira: “região que não fracassou apesar da interferência do governo central deseja ter autonomia similar à praticada por diversos estados que fazem parte de muitos países do mundo”.

Se a autonomia sair (improvável, ao que parece), até mesmo os pobres de outras regiões podem ser beneficiados. Como não haverá restrições à sua “imigração”, estarão melhor indo para a região que ficará ainda mais rica do que esperando o planejamento central.

Por isso, o único perdedor possível é Evo Morales. O que, normalmente, é uma coisa boa.

Governo: melhores momentos

Então você, amigo carioca, elegeu deputados para que eles obrigassem os restaurantes a oferecer fio dental? Temo que sim…

E o deputado que fez a proposta ainda é daquele partido que tinha a palavra “liberal” no nome…

Mario Vargas Llosa sobre a identidade latino-americana

“Apesar da universalidade da América Latina, uma de suas obsessões recorrentes tem sido definir sua identidade. Na minha opinião, essa é uma empreitada inútil, perigosa e impossível, porque identidade é algo possuído por indivíduos e não por coletividades, pelo menos desde que elas tenham transcendido as condições tribais. Somente nas comunidades mais primitivas, onde o indivíduo existe apenas como parte da tribo, é que a idéia de uma identidade coletiva tem alguma raison d’être. Mas, como em outras partes do mundo, essa mania por determinar uma especificidade metafísica ou histórico-social para uma aglomeração tem causado o fluir de oceanos de tinta latino-americana, gerando diatribes ferozes assim como polêmicas intermináveis.

(…)

A riqueza da América Latina está em ser várias coisas simultaneamente - tantas, na verdade, que é um microcosmo no qual todas as raças e culturas do mundo coexistem. Cinco séculos após a chegada dos europeus a suas praias, serras e florestas, os latino-americanos de descendência espanhola, portuguesa, italiana, alemã, africana, chinesa ou japonesa são tão “nativos” ao continente quanto aqueles cujos ancestrais foram os antigos astecas, toltecas, maias, quechuas, aimarás ou caraíbas. E a marca que os africanos deixaram no continente, onde vivem por cinco séculos, é omnipresente: nas pessoas, língua, música, comida e até em certas formas de se praticar a religião. Seria um exagero dizer que alguma tradição, cultura ou raça deixou de contribuir para o vértice fosforecente de misturas e alianças diluídas em todas as ordens da vida latino-americana. Essa aglomeração é nosso maior patrimônio: ser um continente que não possui uma só identidade porque contém todas as identidades. E, graças aos seus criadores, continua se transformando a cada dia.”

Mario Vargas Llosa parece se contradizer nesse ensaio da edição de fevereiro de The American Interest. Em um momento nega a existência de uma identidade coletiva em uma grande sociedade para depois exaltar a identidade coletiva da América Latina (ainda que constituída por várias outras identidades coletivas). É possível identificar certas características generalizadas entre as pessoas de certas sociedades. A empreitada que considero realmente “inútil, perigosa e impossível” é a identificação de uma pureza cultural, uma idéia moderna que leva apenas à intolerância e ao próprio empobrecimento da cultura. É importante nos lembrarmos de que as características de qualquer sociedade florescem das relações entre os indivíduos. E de que qualquer tentativa de fechá-los em uma identidade bem definida tende a tornar estático aquilo que é fluido e a reprimir o que é espontâneo.

Resposta a um leitor

O leitor Pedro Padilha, em comentário ademais elogioso ao artigo que escrevi contra a tirania do gosto, aponta dois possíveis problemas, que reformulo para concentrar-me na tese e não nos exemplos que ele deu.

1. Mesmo que a liberdade econômica proporcione o acesso material a certos produtos culturais superiores (ou supostamente superiores), muitas pessoas não os buscam.

Bem, as pessoas têm gostos diferentes. O liberalismo não é um projeto total para a vida humana. Francamente, acho que você pode ser tão liberal ouvindo Kelly Key quanto Schubert. Se uma parte significativa das pessoas compartilha preferências diferentes das minhas, nós só precisamos estar de acordo quanto a uma coisa: eu não vou proibi-los de ouvir suas músicas, eles não vão me proibir de ouvir as minhas, nem vamos forçar-nos mutuamente a ouvir qualquer coisa.

A questão não pode ser colocada nos termos da cultura contra a ignorância. É claro que a cultura é melhor do que a ignorância. Mas daí não se deduz a necessidade da criação do Ministério da Cultura. Não é porque algo é um bem que o governo deve ser responsabilizado por sua promoção e manutenção. O problema do Ministério da Cultura não é ele não ser comandado pelas pessoas erradas. O problema é ele existir.

2. Um determinado produto cultural pode ser “pervertido” e “massificado” pela indústria cultural.

Esse “problema” não tem nada a ver com o ordenamento jurídico do mercado. Se você gosta de algo relativamente obscuro (os Lieder de Schubert são obscuros em relação às músicas da Madonna), gosta de se sentir especial por apreciar algo que só você e uma pequena comunidade de especialistas aprecia. Aquele produto define a sua identidade e você sente que ela é dissolvida se um grande número de pessoas passa a consumi-lo também. Só que você não foi impedido de fazer nada. Subjetivamente, ficou menos gostoso. E só. Para outros, passou a ser. Não cabe ao mercado manter a sua identidade pessoal. Cabe a você manter os seus gostos quando eles não o diferenciam mais das outras pessoas.

Governo de Hugo Chávez sobre o Prêmio Milton Friedman

O Ministério do Poder Popular para a Comunicação e a Informação da Venezuela se pronunciou sobre o Prêmio Milton Friedman 2008, oferecido para o líder estudantil venezuelano Yon Goicoechea (veja entrevista aqui). Como não devem ter encontrado meios de atacar a reputação do Cato Institute diretamente, a solução foi amaldiçoar o dinheiro. “Petrolera Exxon Mobil financió “premio” a estudiante opositor venezuelano” é o título da matéria. Não que eu me importaria se o Cato recebesse uma ajuda extra da Exxon Mobil, mas a verdade é que a companhia simplesmente não financia nossa organização nem contribuiu para os 500 mil dólares do prêmio. A mentira ainda consegue ser diluída pelas difamações no corpo da matéria, onde Eva Golinger diz que essa é “uma maneira de filtrar o dinheiro através de instituições supostamente limpas” para “desestabilizar governos na América Latina”. E que o dinheiro provém do “sangue de milhões de latinoamericanos”. O governo venezuelano consegue ser extremista até na auto-ridicularização.

Yon Goicoechea
Yon Goicoechea, vencedor do Prêmio Milton Friedman 2008.

Uma questão para a Receita Federal

Sou usuário de Mac há alguns anos. Não sou um fiel do culto à Apple. Entendo que, além do alto preço que pago pelo computador (que para mim é compensado por não precisar atualizar o antivírus, desfragmentar o HD e, em suma, não ficar fazendo manutenção), há um preço por estar à margem do sistema majoritário. Tudo bem: a escolha foi minha e eu sabia de todas as suas conseqüências.

Sabia, inclusive, que a Receita Federal disponibilizava versões em Java dos programas necessários para fazer o Imposto de Renda. Eles sempre funcionaram perfeitamente. Acho que, diante da insignificância numérica dos usuários de Mac, eu até entenderia se não houvesse uma versão além daquela para Windows. Mas como o governo brasileiro sofre de fascínio pelo Linux, provavelmente pegaria mal desprezar gente como eu, mesmo que esse desprezo pudesse vir a ter o sabor revolucionário de um orgulhoso anti-elitismo.

Dessa vez, porém, a Receita disponibilizou uma versão “específica” para Mac de seus programas. O que parecia uma cortesia do Leão - algo como colocar você numa travessa mais confortável antes de ser devorado - acabou virando um pequeno pesadelo. Sucede que as pessoas compram Macs para não precisar levantar o capô e olhar para um monte de peças esotéricas, e a Receita obrigou todos os usuários de Mac a abrir o capô para instalar seus programas. Isto, é claro, sem oferecer o suporte adequado; foi preciso recorrer ao Google e a um fórum de usuários para encontrar as linhas de comando (tipo o DOS, lembra dele?) exatas. Como dentro de mim ainda habita um nerd, em uma hora consegui resolver o problema. Mas recebi telefonemas verdadeiramente desesperados de outros usuários…

Isso é tão bizarro que realmente leva à pergunta: terá sido a preguiça de quem não precisa prestar contas a ninguém (experimente dizer à Receita que não deu para declarar o imposto porque você não soube mexer no software) ou pura implicância contra nós, essa zelite desprezível e burguesa que insiste em usar um sistema minoritário e fechado?

Declaração da sociedade civil Do Zimbábue a respeito das eleições harmonizadas de 2008

Nós, os líderes das organizações da sociedade civil do Zimbábue, absolutamente conscientes do mandato concedido a nós pelos cidadãos do Zimbábue por meio de várias iniciativas democráticas, incluindo, mas não apenas, a All Stakeholders Conferences, culminando na Convenção do Povo, de 2008, bem como nas Consultas pós-29 de março, para trabalharmos contínua e consistentemente, individual e coletivamente, visando a trazer um desfecho à crise multifacetada que o Zimbábue enfrenta hoje.

Recordamos os antigos e ignorados apelos feitos pela sociedade civil antes da eleição, em favor de maiores esforços no sentido de garantir condições democráticas propícias para um processo eleitoral livre e justo através de, entre outras coisas, um processo de reforma constitucional dirigida pelo povo, a revogação da legislação repressiva e um maior comprometimento com a promoção e a proteção dos direitos humanos. Havíamos recomendado ao povo do Zimbábue que participasse pacificamente das eleições harmonizadas de 29 de março de 2008, apesar das condições políticas, socioeconômicas e humanitárias serem adversas, e apesar de um ambiente eleitoral insatisfatório, a partir de nossa clara intenção de contribuir com o processo de democratização do Zimbábue.

Temos consciência de que a profunda crise, exacerbada pelas Eleições Harmonizadas de 29 de março, possui suas raízes no falho sistema constitucional do país. Enfatizamos que o fracasso da Comissão Eleitoral do Zimbábue [ZEC] em divulgar rapidamente o resultado da eleição é principalmente uma grande violação dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos, que devem ser garantidos na constituição.

Reconhecemos com preocupação e temor que o período pós-eleitoral de 2008 tem se deteriorado, sendo danificado pela violência politicamente motivada e por outros distúrbios na vida econômica e social das pessoas.

Notamos com crescente preocupação a deterioração do clima político e social, bem como da segurança e dos direitos humanos, o que tem atrapalhado a vida dos cidadãos e, além disso, essa deterioração tornou extremamente difícil para organizações humanitárias e defensoras dos direitos humanos oferecerem serviços e ajuda aos grupos sociais mais vulneráveis;

Observamos com grande preocupação o contínuo abuso dos poderes executivo e militar para subverter a vontade expressa pelo povo.

Reconhecemos a gritante extensão da crise de legitimidade, democracia e governança na qual o Zimbábue tem afundado.

Condenamos o fracasso da ZEC em relação à execução correta de sua delegação constitucional dentro de um prazo razoável, assim, causando ansiedade e sofrimento entre o povo do Zimbábue, particularmente através do prolongado e injustificado atraso na finalização do processo eleitoral harmonizado de 2008.

Expressamos nossa crença firme de que a continuação dessa situação frouxa projeta uma séria ameaça à democracia, ao desenvolvimento socioeconômico e à paz no Zimbábue.

Reiteramos a antiga posição das Organizações da Sociedade Civil (CSOs), de que a falha dos portadores de obrigações em respeitar os direitos de todos os cidadãos é a maior ameaça à paz, à democracia e ao desenvolvimento no Zimbábue.
Destacamos o fracasso desapontador da mediação liderada pela Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral [SADC] na resolução da crise no Zimbábue.

Reconhecemos a necessidade de intervenções regionais e continentais mais vigorosas em ajuda ao povo do Zimbábue.

Reconhecemos a crescente solidariedade global em relação ao povo do Zimbábue, em seus esforços para confrontar-se com os múltiplos desafios que emanam das eleições de 2008;

Então, assim resolvemos:

1- Imediatamente, adotar e lançar a Campanha Façam Nosso Voto Valer, como uma iniciativa nacional, de massa, conduzida pelo povo, para mobilizar a população do Zimbábue a recuperar seus votos através de uma ação social pacífica e, dessa forma, contribuir para o entrincheiramento da democracia e da boa governança no Zimbábue.

2- Exigimos um processo de reforma constitucional popular e democrático.

3- Apelamos para a população do Zimbábue se unir e a, pacificamente, reafirmar e recuperar seus votos através da ação social não-violenta.

4- Apelamos às lideranças regionais e internacionais, em particular a União Africana e a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), a intensificarem urgentemente seus esforços para exercerem a pressão necessária sobre os líderes políticos do Zimbábue para cumprirem e protegerem a vontade do povo.

5- Exigimos que sejam tomadas atitudes imediatas visando garantir a supressão da milícia jovem e dos acampamentos de base dos veteranos e militares que têm sido instalados em várias áreas, em todo o país, e a fiscalização do desarmamento e do debande desses grupos.

6- Apelamos ao ZANU PF para que cessem imediatamente o uso de instituições da segurança de Estado e a legislação repressiva para subverter e negar a vontade expressa pelas pessoas, particularmente suspensão dos direitos de reunião, associação e expressão.

7- Exigimos que os chefes das forças armadas (por exemplo, forças de defesa, inteligência, polícia, prisões, exercito, aeronáutica) abram mão, imediatamente, dos discursos partidários e inflamatórios, ameaçando uma possível - e inconstitucional – tomada do governo.

Assim, nós lançamos a Campanha Faça Nosso Voto Valer aqui em Harare, no dia 17 de abril de 2008.

Façam Nosso Voto Valer – Respeitem o voto da população.

Como não explorar petróleo

A queda de produtividade petrolífera no México é um exemplo de problema dos comuns?:

Sem novas descobertas, as suas reservas, que já foram de 50 bilhões de barris, hoje são de 15,3 bilhões. A queda dos investimentos mexicanos se deve ao seu modelo de exploração de óleo, feito por meio de contratos de serviço. Nesse sistema, o país contrata companhias privadas para explorar o petróleo e as remunera por isso. As empresas não tem direito a nenhuma parcela do óleo, que é todo administrado pela Pemex, a estatal do setor. Para as petroleiras, o modelo foi se tornando desinteressante, em função de não lhes permitir acumular reservas.

É o que explica o artigo “Tesouro submerso” da Revista Piauí, número 19.

Fórum da Liberdade

Fórum da Liberdade

Primeiro, os quatro da equipe do OrdemLivre.org: da esquerda para a direita, Tom Palmer (de cujo blog veio a foto), Diogo Costa, Magno Karl e finalmente, mais à direita, o único sem paletó nem gravata, este que vos escreve. Aliás, como estava quente fora do auditório. Depois, ainda mais à direita, e o trocadilho fica por conta deles, Luiz Felipe Costamilan e Cristina Camargo, do Instituto Millenium.

Aguardamos ansiosamente pela edição de 2009.

O chip do carro vem aí

Leio ontem no G1 que Gilberto Kassab, prefeito de SP, está só esperando o governo federal para tornar obrigatório o uso de chips nos carros.

A matéria não recorda, mas o chip, combinado com os radares, permitirá maravilhas como avaliar se você ultrapassou o limite de velocidade, estabelecendo que o tempo mínimo para ir de A a B é X. Assim, se você demorar menos do que X, será multado.

E alguém ainda tem coragem de dizer que não existe indústria de multas?

O direito natural e a criação de limites ao governo

Direito natural. Por Rui Albuquerque.

Para todos os efeitos, o direito natural foi sempre um forte entrave ao despotismo e ao totalitarismo do poder político. Ele fundamentou, no mundo antigo, a ideia de justiça, e no mundo moderno e contemporâneo a criação de limites ao governo e ao exercício dos seus poderes. Fê-lo por via da proclamação de direitos fundamentais inerentes aos cidadãos de uma comunidade política, consagrados nos textos constitucionais, eles próprios também decorrentes da preocupação de limitar e conter a soberania.

A blogosfera cubana ainda tem sinais de vida

Tentaram, mas não conseguiram: Generación Y está no ar. Fidel pode espernear, chorar e gritar. Não adianta. A sociedade aberta sempre o terá como um ditador.

A picada cibernética do TSE

O Tribunal Superior Eleitoral parece ter encontrado uma nova forma de demonstrar como sua existência pode causar mais mal do que bem. Lê-se no Art. 18 da nova resolução do TSE, “A propaganda eleitoral na Internet somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral”. É claro que a razoável “divulgação de opinião favorável a candidato” é permitida, mas “mas os abusos e os excessos, assim como as demais formas de uso indevido do meio de comunicação, serão apurados e punidos”. E essa redundância de “abuso” e “uso indevido” serve para que os humores judiciais constituam um elemento tipificador.

A resolução dá a entender que o TSE pretende equiparar as campanhas políticas por meio de restrições sobre o meio mais acessível, barato e direto de publicidade. Foi por causa da Internet, com YouTube e MeetUp, que um candidato como o Ron Paul, pouco conhecido fora dos círculos libertários, conseguiu se tornar uma sensação nacional nos Estados Unidos, quebrando recordes históricos de arrecadação. Mas, deve ser lembrado, nos Estados Unidos não há TSE para democratizar o processo democrático.

A dica é de Idelber Avelar.

O Humanitário com a Guilhotina

O Humanitário com a Guilhotina, texto adaptado e traduzido por Miguel Botelho Moniz a partir do original de Isabel Paterson, incluído no seu livro The God of The Machine, editado em 1943.

Quem mais ajudou as vítimas do Katrina? O Wal-Mart

Colby Cosh, no National Post, comenta um novo estudo que conta a história de como a direção do Wal-Mart deu carta branca aos funcionários para fazer aquilo que fosse necessário para ajudar as vítimas das enchentes provocadas pelo furacão Katrina.

Ninguém que conheça o pensamento econômico desde a Segunda Guerra Mundial ficará surpreso com isso. Intelectuais como F. A. von Hayek, James Buchanan e Gordon Tullock nos ensinaram que dizer que o governo é “público” e as empresas são “privadas” quando são estas que têm os maiores incentivos para responder às demandas sociais. Uma empresa que se isole de uma comunidade logo será forçada a sair dela, mas o governo sempre fica. Para sobreviver, as empresas devem criar valor econômico de algum jeito; os funcionários do governo podem aumentar seus orçamentos e seu poder pessoal destruindo ou desperdiçando riquezas, e a maior parte deles não faz outra coisa. As empresas têm nos preços sinais que guiam seus esforços de produção; o governo ofusca esses sinais.

O que parece bastante claro. Uma empresa não pode só pensar nos lucros, porque precisa dar alguma coisa em troca; o governo pode alegar o que quiser e fazer o que quiser com seu dinheiro. É a classe política que pode só pensar nos lucros, se quiser.

Epigenéticas Libertárias

O Philipe faz um excelente trabalho em seu blog, o Matizes Escondidos. Este texto curtinho (mas nem tanto) está excelente. Libertários responsáveis por suas idéias não podem deixar de pensar no tema.

Gravai esta verdade em vossos corações

Allan H. Meltzer, hoje no WSJ:

O primeiro princípio da regulamentação é: advogados e políticos redigem as regulamentações; e os mercados criam maneiras de passar ao largo delas sem violá-las.

Peter Bauer, “2+2=4″, “outrossim, data venia” e a boa economia

O Ordem Livre disponibilizou, recentemente, um medianamente longo ensaio do falecido Peter Bauer. Após uma breve leitura, fiquei com a impressão de que Bauer pode ser mal interpretado. Suas críticas sobre a Ciência Econômica são interessantes mas, no Brasil, onde prevalece uma corrente de pensamento que chamo de pterodoxa, elas podem ser mal entendidas.

De uma vez por todas: Bauer não critica o uso da Matemática em Economia. Ele critica aqueles que usam a Matemática para esconder sua ausência de idéias. É a mesma crítica que se faz aos “verborrágicos” (95% dos pterodoxos brasileiros são verborrágicos, mas há os 5% que usam o que Bauer chama de formalismo vazio, embora eu nunca tenha encontrado um desta última sub-espécie).

Dizer que uma pesquisa séria não pode ser feita com (ou sem) Matemática é algo muito complicado. No mínimo, a Matemática apura a linguagem, organizando o pensamento. Sim, o importante é, como diria Buchanan, ter idéias. Ninguém discorda disto. Só que a pesquisa científica não é um caminho harmonioso, feito por cientistas angelicais: a verborragia, ao longo da História da Economia, tem sido usada para avançar ideais bem pouco nobres, do meu ponto-de-vista. Tanto ela como a Matemática. Basta conhecer um pouco da real história do pensamento econômico na ex-URSS. Aliás, eis um tema pouco estudado pelos nossos economistas. Lá havia a marcante presença dos dois tipos de pterodoxos: os verborrágicos e os que encaravam o funcionamento da economia simplesmente como um sistema próximo ao de um mecanismo criado pelo homem (mecanicismo e “engenharia social” seriam bons nomes para isto).

Deirdre (ex-Donald) McCloskey, por exemplo, é uma autora que já falou sobre estas questões (talvez de forma muito mais elaborada do que Bauer). Ironicamente, quando escreveu seu clássico ensaio sobre o uso da retórica em economia, foi logo adotado(a) pelos pterodoxos brasileiros como um modelo. Toda sua obra cliométrica anterior, sobre a história econômica inglesa, foi ignorada. Não há um único pterodoxo brasileiro que seja capaz de citar um artigo seu sobre o tema. Mas qual era a crítica de McCloskey? Certamente não era contra a Matemática como o leitor pode atestar neste seu genial e breve livro (gratuito).

Muitos liberais brasileiros bebem na fonte dos economistas austríacos (outrora conhecidos por muitos como indivíduos que rejeitam qualquer uso de Matemática em Economia) e mesmo estes já não enxergam a Matemática como algo perigoso, vil ou inútil para o entendimento da realidade econômica. Claro, há sempre os radicais de plantão, mas veja-se, por exemplo, os trabalhos de Roger Garrison ou os mais recentes números da Review of Austrian Economics: até a econometria, obviamente, já é usada pelos modernos economistas austríacos.

Não existe, como disse Milton Friedman, esta dicotomia entre economistas austríacos e não-austríacos. A questão relevante é sobre boa e má economia e, claro, devemos definir o que é um bom e um mau economista, neste caso. Aqui, creio, Bauer novamente chama a atenção para algo importante: a lição fundamental da Economia é que não existe almoço grátis e é por isto que liberais se identificam tanto com a boa economia.

Ah sim, antes que me esqueça, uma crítica. Bauer parece-me muito pessimista. Para alguém que acredita que indivíduos agem racionalmente, sob incentivos, é difícil entender porque pensa que os colegas de profissão agiriam de forma diferente. Embora faça um diagnóstico bem preciso dos incentivos políticos que permeiam as ações de economistas acadêmicos, deixa a desejar na análise dos que não se sujeitam aos mesmos. Tanto a matemática como o uso da linguagem têm sido utilizados há séculos por ambos os lados do debate em Economia e o próprio artigo de Bauer é uma prova disto. Matemática em Economia, leitor, não é um mal em si. Como diria o agente Smith (American Dad): guns don’t kill people. People kill people. O mesmo vale para a Matemática. Pensando bem, Smith (não o Adam, mas o agente) falou tudo o que Peter Bauer disse, só que com muito menos palavras…

Como nasce um mercado negro

Na Hook Junior High School, na Califórnia, é proibida a venda de doces - exceto coisas “saudáveis” como barras de cereal.

É exatamente por isso que alguns alunos estão ganhando dinheiro vendendo doces aos colegas.

Já era previsível que em breve comer um chocolate seria um ato de transgressão. Já posso ver homens e mulheres de jaleco branco e cara amarrada condenando e lamentando alguma cena de filme em que o jovem e belo casal devora despudoradamente seu Toblerone.

E, já que estamos falando dos EUA (ainda), tenho algo mais a dizer: um Kit-Kat, por favor.