A novilíngua de sempre
13 de Dezembro de 2007 por Pedro Sette Câmara
José Múcio Monteiro, ministro de Relações Institucionais (alguém pode me dizer qual é a job description do cargo?), presenteou-nos com a seguinte pérola sobre a derrota do governo na prorrogação da CPMF:
“Os sonegadores, aqueles que sonegam impostos, talvez tenham sido os vitoriosos. Os brasileiros responsáveis, que acreditam no país, que acreditam que estamos promovendo um país mais justo e diminuindo as diferenças sociais, que são beneficiados pelos programas sociais, todos esses foram derrotados”.
Primeiro, temos a presunção de que somente os criminosos venceram. “Ah, você não quer um imposto? Você deve ter culpa no cartório. Quem não deve não teme.” Até onde eu sei, essa é inversão da presunção de inocência que é a base da nossa justiça. Mas já sabemos que, em matéria de impostos, esse princípio não vale. Quando chega a cartinha da Receita ou da Secretaria de Fazenda dizendo que você deve, você é que precisa provar que pagou tudo direitinho. Não eles. Talvez por essa bela demonstração de continuidade entre teoria e prática é que José Múcio seja o ministro das “relações institucionais”.
Segundo, há a velha retórica nacionalista. Sempre me pergunto: o que significa “acreditar no país”? Significa ficar feliz diante de números produzidos por economistas oficiais? E “acreditar no Brasil” tem alguma coisa a ver com ser responsável? Quer dizer, o governo federal produz um orçamento com um rombo de 40 bilhões – o que eles esperavam arrecadar com a CPMF – e o ministro ainda vem dizer quem é e não é responsável? Será que eu não poderia dizer que o presidente verdadeiramente responsável preferiria não contar com 40 bilhões incertos?
Este último dado, aliado ao segundo, ainda revela um traço da mentalidade estatista: por alguma razão misteriosa, pessoas que acham que estão cheias de boas intenções sentem-se no direito de realizá-las tomando o dinheiro dos outros à força e nunca cogitam a possibilidade de estar erradas. A idéia de que talvez os brasileiros prefiram decidir eles mesmos o que fazer com o próprio dinheiro é puro escândalo.

[...] políticas no pós-CPMF. Veja também a crítica, digamos, moral, de Pedro Sette acerca da safadeza da novilíngua que, aliás, anda bem em voga nos dias de hoje. No meu tempo de faculdade, denunciar [...]
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