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Ainda o anti-tabagismo estatal

Nunca senti vontade de fumar. Nunca senti sequer curiosidade, e isso se estende a todos os tipos de fumo. Admito que num dado momento achei que havia até algo levemente transgressor nessa minha disposição, já que quase todo mundo à minha volta fumava, e gostei de me sentir diferenciado. Há dez anos eu jamais teria pensado que o cigarro viria a se tornar um símbolo da liberdade individual contra o desejo do governo de regular nossas vidas.

A proibição radical da prefeitura do Rio é um nó de violência. Primeiro, de violência contra a propriedade privada. Eu sei que na nossa Constituição a propriedade não é exatamente respeitada, mas o que interessa é o fundamento moral. A quem deveria caber a decisão de fumar ou não em ambientes fechados? Aos donos dos ambientes fechados. E quem não quisesse sentir cheiro de fumaça… que não entrasse.

Aqui é que muita gente começa a torcer o nariz para o argumento. As pessoas acham que “têm o direito de ir a um lugar e não sentir cheiro de cigarro”. E elas têm mesmo. A questão não é essa. O truísmo “o direito de um acaba quando o começa o direito de outro” pode perfeitamente ser traduzido em “a liberdade está associada à propriedade”. Assim, as pessoas só não têm – ou não deveriam ter – o direito de ir a um lugar que é propriedade de outra pessoa e dizer àquela pessoa como ela deve dispor de sua propriedade. “O bar é seu, mas eu é que decido o que as pessoas podem fazer nele.” É esse mesmo direito de propriedade que o autoriza a expulsar da sua casa pessoas que tenham condutas indesejadas.

Respeitando o direito de propriedade – afinal, todo mundo tem alguma propriedade; o mais miserável dos mendigos possui seu próprio corpo e seu próprio tempo – , também não se deve tentar usar o governo para impedir os outros de fumar. As pessoas que favorecem legislação anti-tabagista estão desautorizadas a dizer que estão pensando na comunidade. Estão pensando em atingir seus objetivos às custas dos outros. Depois vêm os artigos no jornal, reclamando que “cada um só pensa em si próprio”… Se você não tem pudor de usar o governo para atender a seus objetivos privados de não sentir cheiro de fumaça, não se espante se outra pessoa também conseguir usar o governo para criar uma barreira protecionista que faz você pagar três vezes mais por um produto duas vezes pior do que em outros países. Você vai dizer que está protegendo a saúde da população, e ela vai dizer que está protegendo a indústria nacional.

Aliás, o sofisma da “proteção à saúde” é ainda maior. Dizem que o governo gasta X zilhões de dinheiros com “doenças relacionadas ao fumo”. Mas os fumantes também pagam imposto. Pela lógica, os não-fumantes é que deveriam pagar menos, já que supostamente utilizariam menos o sistema de saúde.

Comentários (9)

  1. Excelente Pedro Sette! Eu fumo. Não posso fumar em casa porque aqui todo mundo odeia cigarro.Fumo na rua, enquanto não proíbem. Gostava muito de fumar em cafés de centros comerciais, mas foi proíbido. De vez em quando fumo nos “fumódromos”, mas há sempre um problema: famílias inteiras tomando sorvete ou jogando conversa fora muito bem acomodadas nos guetos destinados aos fumantes. Não raro,essas pessoas extremamente higiênicas e saudáveis fazem cara feia quando acendo meu Marlboro, como se eu estivesse no lugar errado.
    Fumo e fumarei sempre. Minha família tem histórico de câncer, sobretudo de próstata. Tenho por enquanto, pelo menos o direito de escolher o câncer de pulmão.

    Carlos Eduardo
  2. Eu fiquei mais chocado com a nova campanha publicitária do Governo Federal contra o fumo.

    Erick Vasconcelos
  3. Excelente, Pedro! Você tem certeza que não estudou economia?

    claudio
  4. [...] Textos que eu gostaria de ter escrito…mas nem por isso eu faço plágio Junho 4, 2008 Posted by claudio in Uncategorized. Tags: direito de propriedade trackback Pedro Sette escreve uma “redação que nenhum aluno de economia (os que já vi) foram capazes de fazer até hoje”. Ficou tão bom que segue na íntegra. [...]

    Textos que eu gostaria de ter escrito…mas nem por isso eu faço plágio « De Gustibus Non Est Disputandum
  5. Participo de um fórum sobre uma festa e é incrível como as pessoas passam ao largo da questão da propriedade privada neste tema. Não querem nem saber, cada um puxa a sardinha pro seu lado como se fosse uma questão meramente de fumantes versus não-fumantes. Cada um quer o estado intervindo a seu favor e nem se pensa nos desdobramentos econômicos ou na conceituação de uma justiça objetiva.

    Sol Moras Segabinaze
  6. Sol, isso lembra o Alexander Herzen reclamando: “as pessoas não querem liberdade, querem uma tirania que esteja do lado delas!” :-)

    Pedro Sette Câmara
  7. Reproduzi o texto do Pedro em meu blog e há um bom debate lá. Economistas, especialmente, gostarão. Todos, obviamente, convidados.

    claudio
  8. Eu não fumo, mas acho a proibição um verdadeiro retrocesso.
    A propósito, como bem lembrado pelo Erick, a nova propaganda do governo contra o fumo é de extremo mau gosto e chocante.
    Fazer campanha para que as pessoas não fumem é uma coisa, mas fazer campanha atacando a indústria de cigarro é um absurdo.

    Luciana
  9. Quero ter meus direitos de volta. quero ter a dignidade de escolher o que devo ou nao fazer.fumar ou nao.

    roberto dos santos

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