A protecção a uns é um ataque a outros
15 de Janeiro de 2009 por Bruno Alves
Naquela que foi, em princípio, a sua última conferência de imprensa enquanto Presidente dos EUA, George W. Bush afirmou que “compreendia” que, numa conjuntura de crise, as pessoas tivessem a “tentação de querer proteger os seus empregos, os dos vizinhos, dos familiares”. No entanto, dizia, gostaria que os EUA não cedessem a essa “tentação”, não se tornando numa “nação proteccionista”. Por muitas críticas que se possam fazer a George W. Bush e à sua Administração (inclusive neste domínio), este seu desejo é de louvar. Até porque a “tentação” proteccionista é especialmente perigosa, pois ela acaba por proteger menos do que destrói.
Se um Governo emitisse uma lei que textualmente proibisse os seus cidadãos de comprar os produtos mais baratos existentes no mercado, isso provocaria um justificadíssimo escândalo. E este exemplo hipotético que dei provocará certamente no leitor um também ele justificadíssimo rol de insultos a propósito de uma hipotética falta de qualidades mentais deste vosso criado. E no entanto, quando, há anos, os governo europeus pretenderam reduzir ou dificultar a entrada de produtos textêis chineses, pelo facto de serem mais baratos que os produtos indígenas, estão a fazer exactamente o mesmo que o meu absurdo exemplo hipotético. E quem se deixou cair na tentação proteccionista achou essa postura normal e positiva. Tal como acharam todos aqueles que aplaudiram a protecção à indústria do aço americana, ou todos aqueles que defendem que o (futuro) Presidente Obama e o Congresso americano devem proteger a indústria automóvel.
Protegem-se empregos nacionais, dizem. Não duvido. Mas não é justificação. Pela simples razão, nunca entendida por quem sucumbe a esta tentação como um adolescente se deixa levar pelos atributos físicos de uma jovem esbelta, que a protecção a uns é um ataque a outros. Nem menciono os empregos que, noutros países, se perdem devido à não-exportação dos seus produtos, coisa que não comove (e nem precisa comover, diga-se em abono da verdade) as boas consciências. Basta pensar nos muito nacionais consumidores. Consumidores que vêem impedida a hipótese de escolher entre produtos mais baratos, mesmo que de eventual pior qualidade, e produtos eventualmente melhores, mas sem dúvida mais caros. São obrigados a comprar este últimos. Como no exemplo absurdo que dei. Mas, geralmente, sem gerar qualquer escândalo. Duvido que a declaração (sensata) de George W. Bush mude esse estado de coisas. Por muito estranho que me possa parecer (a mim e a qualquer pessoa sensata e apreciadora do sexo oposto), o proteccionismo parece ser mais sedutor que Kirsten Dunst.

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