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A Presidência Obama

O comentário do Diogo Costa, acerca da contradição entre a prática política de Barack Obama e a natureza da percepção que o cidadão comum americano tem da sua personalidade, é uma excelente ilustração do dilema que Barack Obama enfrentará ao longo dos (pelo menos) quatro anos em que ocupará o cargo de Presidente dos Estados Unidos, e que se arrisca a transformar este “messias” numa personagem trágica: aquilo que o fez chegar onde chegou poderá muito bem ser a razão do seu eventual falhanço; e todos aqueles que “acreditaram” nele pagarão também o seu preço.

Estive a assistir as cerimónias da Inauguração pela televisão, e a dada altura, um dos repórteres entrevistou uma senhora que havia viajado de Detroit para Washignton, a fim de assistir ao vivo à tomada de posse do novo Presidente. Detroit, outrora “sede” da vigorosa indústria automóvel americana, é hoje um símbolo daquele que será um dos grandes desafios de uma futura presidência Obama. Detroit assistiu ao começo da crise do “sub-prime”: os desempregados da cidade deixaram de poder pagar os empréstimos que haviam contraído, de tal maneira que a sobreavaliação dos bens imobiliários se tornou notória para todos, alastrando a todo o sistema financeiro. Foram esses desempregados, os “órfãos” da indústria automóvel de Detroit, das fábricas do Ohio, do porto de Baltimore, das cidades e estados americanos cujas actividades económicas tradicionais foram “vencidas” pela globalização, que Obama procurou atrair com o seu discurso proteccionista, com o sucesso que está à vista.

Resta agora ver que sucesso terá essa política, uma vez posta em prática. Que melhorias trará Obama à vida dos americanos, através do aumento dos preços dos produtos que estes quererão consumir? Que melhorias trará Obama à vida dos americanos, através da manutenção artificial de actividades económicas que oferecem um serviço menos desejado que as suas concorrentes estrangeiras? Já agora, que melhorias trará Obama, salvador do mundo, às populações de Àfrica ou da Àsia, bloqueando o acesso destas ao mercado americano, ou seja, restringindo as oportunidades de negócio e enriquecimento delas? E como irá Obama atrair para uma economia dependente do dinheiro estrangeiro (e com o bailout, ainda mais necessitada dele do que já estava) esse capital de que ela tanto necessita, com uma política proteccionista?

Claro que se pode sempre dizer que esses foram excessos de campanha, que o “realismo” e o “pragmatismo” de Obama rapidamente o farão abandonar. A conversa de um representante de Obama com um embaixador canadiano, em que foi dito a este último que Obama não iria, ao contrário do que prometera na campanha, rever o acordo do NAFTA, até parece confirmar esta ideia. Mas isto apenas significará o descrédito de Obama, e mais, o descrédito da actividade política. Se a escolha que Obama tiver de fazer, enquanto presidente, for entre as consequências de uma política errada, por um lado, e o incumprimento das suas promessas, por outro, a sua eleição, por muito importante que seja o seu significado simbólico (que é), não será uma boa notícia.

Esse dilema entre ter de escolher entre as consequências de uma política errada ou quebrar as promessas eleitorais é um bom exemplo do principal problema de Obama, que há bastante tempo identifiquei: de certa forma, ele está condenado a desiludir. Ao longo da campanha, ele foi uma espécie de Zelig: ao pé de adeptos de cortes nos impostos, um conservador fiscal, ao pé de um socialista, um redistribuidor de riqueza, ao pé de falcões um deles, junto de pacifistas um defensor do diálogo. Agora, tal como Zelig, Obama vai acabar por criar descontentes em algum lado. Ou quem acreditou na sua retórica proteccionista, ou quem achou que ela não passava de retórica; entre quem defende impostos baixos, ou quem quer redistribuição.

De certa forma, Obama é mais parecido com Bush do que os apoiantes de ambos parecem pensar. Ambos se apresentaram, como outsiders do “sistema” de Washington, políticos de “instinto” que querem “unir” a América, e sem grande experiência nível internacional. Obama foi o mais “bushista” dos Democratas. Não apenas pela falta de experiência internacional, mas essencialmente pela sua retórica: é extraordinário como o seu discurso da “esperança” e do “fim das divisões” ecoa o “uniter not a divider” de Bush em 2000, e como o seu discurso anti-”Washington” se assemelha ao de Bush quando se apresentava como um “ordinary guy form the good old state of Texas“. Independentemente do que se pense acerca das políticas do antigo presidente (algumas com que concordo, outras que detesto), viu-se como acabou o “uniter not a divider“: quando teve de fazer escolhas difíceis, acabou por ser precisamente um “divider, not a uniter“. Como afinal, todos os políticos têm de ser.

É por isso que Obama, independentemente do teor das políticas que propõe, é “perigoso”. O que o está a catapultar é a sua retórica, e esta, por muito boa que seja (e é), acabará por se virar contra ele. Uma vez eleito, o homem da “esperança” e da “unidade” vai ter que desagradar a alguém, e aqueles que dele esperavam a receita para uma América sem disputas entre Democratas e Republicanos, conservadores e liberals, evangélicos e ateus, acabarão por se desiludir com ele. E como uma América como esta que os apoiantes de Obama sonham é impossível, ele não poderá fugir a este destino. Bush não conseguiu, e não foi por ser “estúpido”, foi porque a realidade corre mais depressa. Por muito “simbólico” e “exemplar” do “sonho americano” que a eleição de um descendente de imigrantes seja, a verdade é que a vitória deste descente de imigrantes, precisamente por causa da retórica em que assentou a sua campanha, acabaria por lançar os americanos, uma vez visível o irrealismo de uma tal “esperança” na “união”, num clima de pessimismo só comparável ao do pós-Vietnam. Os que mais se entusiasmam com Obama são dos que mais desprezam Bush, mas, sem se aperceberem, escolherão precisamente o que de mais parecido havia com aquilo que querem substituir: as políticas poderão ser diferentes, mas o resultado (a desilusão) será o mesmo. Com a agravante de que, depois de tantas esperanças depositadas em Obama, a desilusão seria muito maior e o clima de pessimismo posterior bastante mais difícil de superar. É pena que assim seja, mas a eleição de Obama arrisca-se a ser do pior que, a longo prazo, poderia acontecer aos EUA. Eu também “acredito na América”, e no “sonho americano”, mas este não “vai lá” só a falar-se dele. Precisa, na conjuntura actual, de políticas difíceis que implicam escolhas ainda mais complicadas de se fazerem, e o que Obama faz é levar a crer o contrário. Essa sua hubris, bem como a de todos os que embarcaram com ele, terá de ser paga. E o preço arrisca-se a ser bem elevado.

Comentários (2)

  1. Muito bom texto, Bruno.

    Claudio
  2. [...] Arquivar em: Internacional, Media, Política, Religião — André Azevedo Alves @ 1:47 am A Presidência Obama. Por Bruno Alves. De certa forma, Obama é mais parecido com Bush do que os apoiantes de ambos [...]

    Obama: de Messias a personagem trágica? « O Insurgente

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