A mentira política
20 de Março de 2009 por Bruno Alves
Em 1987, um deputado do partido Trabalhista britânico, então ainda em ascensão, Tony Blair, dizia ao The Times que “a verdade se torna quase impossível de comunicar porque a franqueza total, transmitida pelos meios de comunicação de massas, se torna simplesmente numa arma nas mãos dos opositores”. Muito provavelmente, a maioria dos leitores do Ordem Livre acham que os políticos são pouco agarrados à verdade. Os próprios políticos o acham: há dias, numa conferência no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (a propósito, vale pena ouvir a entrevista que o Diogo Costa fez a João Carlos Espada, director do Instituto), António Borges, um dos dirigentes do partido português PSD, disse, em resposta a uma pergunta que lhe fiz, que é natural que os políticos mintam, que isso faz parte da natureza da actividade política. Mas, por muito “natural” que seja, a mentira não deixa de ter consequências. E por muito habituados que nós estejamos ao facto de os políticos mentirem, pensamos pouco nessas consequências.
As democracias, em vez de um confronto de diferentes propostas e orientações políticas, parecem ter-se transformado em grandiosos concursos de popularidade, cuja única diferença relativamente a um reality–show está em os eleitores não poderem votar pelo telefone (o que torna a coisa menos apelativa). O que está a ser medido não é, como deveria ser numa democracia, a “opinião popular”, qual o conjunto de propostas que uma maioria da população considera ser o mais adequado, mas, como diz John Lukacs (Democracy and Populism, Yale, 2005) o “sentimento popular”, qual o partido, e cada vez mais, qual o político com o qual uma maioria da população sente maior empatia, maior proximidade, maior “ligação”.
Perante uma democracia, coloca-se sempre o problema de como conciliar a vontade popular com o bom governo. Como conjugar a necessidade de respeitar a escolha da maioria com a necessidade da boa-governação. Encontrou-se uma resposta no governo representativo. O poder, em vez de exercido pelo povo, era delegado por este nos seus representantes, por um determinado período de tempo. Esse ciclo eleitoral permite aos responsáveis políticos terem tempo para que as suas medidas obtenham resultados para depois serem julgadas, sem que a sua avaliação esteja permanentemente sujeita ao “ar do tempo”. A pressão da comunicação social, através das sondagens, subverte a lógica do governo representativo. Sobre os representados, dá-lhes a ilusão de poder efectivo, de poder decisório, que num regime representativo efectivamente não lhes cabe. E ao dar aos representados esta ilusão, coloca sobre os representantes a pressão de satisfazer as ilusórias pretensões dos representados.
A competição política transforma-se assim na competição publicitária. Um político deixa de procurar convencer o eleitor de que as suas propostas são melhores para ele. Passa a querer saber o que o eleitor quer, para depois lho oferecer, ou pior, a convencê-lo de que aquilo que tem para lhe oferecer é aquilo que ele quer. A criação de empatia com o eleitor não envolve convencimento, envolve manipulação. É por querer dizer ao eleitor o que este quer ouvir que, na oposição, o político grita contra tudo o que é impopular, em campanha promete tudo o que agradará aos eleitores, e no poder manipula os cidadãos para não ter de enfrentar a impopularidade daquilo que nunca disse que iria fazer.
O resultado é, como mostra, num livro que merece ser lido (The Rise of Political Lying, Free Press, 2005), o jornalista britânico Peter Oborne, o enfraquecimento do poder dos cidadãos. Ao mentir, um político retira aos cidadãos a possibilidade de emitir um julgamento sobre o futuro político da comunidade. Ao mentir, o político não coloca aos cidadãos a possibilidade de escolher qual o caminho que deseja para a sua comunidade, visto que não lhe diz o que pretende fazer. Por paradoxal que possa parecer, numa época em que têm acesso a muito mais informação do que os seus antepassados, os cidadãos das democracias europeias cada vez menos decidem sobre o que realmente está em questão. Ao mentir, o político retira aos eleitores a responsabilidade pelas suas escolhas. Quando estes tiverem de pagar o preço das escolhas feitas pelo poder á margem dos mecanismo de responsabilização, a sua confiança nos eleitos diminui, forçando-os a mentir para ultrapassarem essa desconfiança. Ao mentir, o político torna-se refém do “sentimento popular”, da “democracia” no depreciativo sentido dos antigos, da “tirania da maioria”. Mas por esse “sentimento popular”, “tirânico” em sociedades que vêem no “povo” o seu soberano e na “maioria” a “Razão”, resultar de uma mentira, da não-explicitação do que se pretende fazer, essa “maioria”, mais do que um ditador apenas motivado pelo interesse pessoal, assemelha-se a um rei absoluto, limitado apenas pela sua vontade, mas uma vontade manipulada por aqueles que o rodeiam e manipulam.

Ótimo texto!
Em um dia desses eu mesmo pensava enquanto lia artigos sobre a recente eleição dos EUA: é curiosíssimo que se fale com a maior naturalidade sobre Obama ter batido o recorde de arrecadação para campanha eleitoral e sobre ter revolucionado a forma de fazer o marketing eleitoral. Digo, falam reconhecendo que ele (ou o seu marqueteiro) foi um gênio neste aspecto. Dando a entender que fazer uma grande publicidade e cativar as massas é algo a se admirar em um político.
Isso deveria suscitar nas pessoas mais reflexões sobre a natureza do processo democrático.
Eleições são isso: batalha de marketing. Um processo claramente movido pela paixão e não pela razão. Propostas são apenas um detalhe de segundo ou terceiro plano.
henriqueHenrique, conhece o livro “O Mito do Eleitor Racional” do Bryan Caplan?
Juliano Torres