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A arrogância fatal: “farinha pouca, meu pirão primeiro”

No post abaixo o Diogo Costa cita matéria do Estadão sobre protesto realizado em SP com estudantes de jornalismo capitaneados pelo sindicato. A matéria do Estadão cita 200 manifestantes. Matéria do Comunique-se, portal especializado em mídia, dá conta de 80 gatos pingados:

Manifestação contra fim da obrigatoriedade do diploma fracassa em São Paulo

Cinthia Almeida

Era para ser um protesto capaz de ecoar pelos corredores do Supremo Tribunal Federal. Mas a manifestação contra o fim da exigência do diploma, na manhã desta segunda-feira (22/06), em São Paulo, não passou de um encontro murcho, com aproximadamente 80 estudantes. A passeata começou em frente ao hotel Renaissance, onde o ministro do STF, Gilmar Mendes, estava hospedado, e seguiu até a faculdade Cásper Líbero. Depois, voltou à porta do hotel.

“O objetivo do protesto não é questionar uma decisão nem mostrar indignação, e sim mudar uma lei, que vai para o Senado. Se no STF não cabe mais recurso, agora a mudança é na legislação, no Congresso Nacional”, discursou Augusto Camargo, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, organizador da manifestação.

O sindicalista ficou só no discurso. Embora tenha falado para o público, não teve nenhuma liderança sobre os poucos manifestantes presentes, que nem sequer conseguiram gritar em coro os mesmos cânticos.

Número inflado
O Sindicato dos Jornalistas informou à imprensa que havia 200 manifestantes. Não é verdade. O Sindicato atribuiu essa informação à Polícia Militar. Também não é verdade. A reportagem do Comunique-se estava ao lado de Camargo quando ele recebeu de um sargento da Polícia Militar o número exato de manifestantes presentes. “Tem 80 pessoas”, informou o PM. Mesmo sem o consentimento do policial, os sindicalistas combinaram que o número oficial, embora falso, seria o de 200.

No momento em que os manifestantes se sentaram em frente à Cásper Líbero, a reportagem do Comunique-se conseguiu fazer a contagem se posicionando no alto da escadaria da Cásper Líbero. E constatou haver entre 80 e 90 presentes.

Independentemente do número de manifestantes, há um argumento recorrente sobre a decisão do STF que acabou com a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da ofício: a não exigência do curso desvaloriza a profissão. Usando a forma positiva, o argumento é o de que a profissão só é valorizada pelo diploma (e de tudo o que deveria vir acompanhado, presumo, como o conhecimento). Mas há aqui uma tese estranha considerando, na média, o baixo nível dos cursos de jornalismo, situação reclamada por boa parte dos estudantes e dos profissionais da imprensa. Um evento que poderia ser convertido num debate sobre o defasado ensino do jornalismo e a propaganda ideológica rasteira usada por boa parte dos professores nas salas de aula virou um bate-boca do tipo “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Trabalhei como jornalista de fevereiro de 1996 a dezembro de 2008. Sou formado em Direito. Fiz pós-graduação em Jornalismo Cultural e hoje faço mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais. Nunca pisei numa faculdade de comunicação e contra mim não pesa a acusação de que não estudo.

Quem lê este texto pode até pensar, ok, sua defesa da decisão do STF é óbvia pelo interesse pessoal. Nunca foi. Não ter diploma de jornalismo nunca me impediu de trabalhar. Eu poderia usar esse fato para defender o fim do diploma, mas também acho uma idiotice. O que os estudantes e profissionais contrários à decisão do STF não perceberam, ou fingiram não perceber, é que o fim da obrigatoriedade não provocará mudanças profundas no estado de coisas. Vai, sim, legalizar situações estabelecidas ao permitir que milhares de profissionais que trabalham há anos na grande, média e pequena imprensa, das capitais e das cidades do interior, tenham direito ao registro do Ministério do Trabalho.

Algo que eu espero sinceramente ver a médio e longo prazo é a melhora do nível médio dos jornalistas pela concorrência com profissionais de outros cursos, como Direito, Economia, Sociologia, Política, História etc. Basta conversar com um bom estudante de jornalismo e com um bom estudante de economia para ver o défice na formação do intelectual do primeiro em relação ao segundo (como estou me referindo à média, admito a possibilidade de se encontrar um estudante de comunicação que tenha uma formação intelectual melhor do que o de outras áreas).

A tese segundo a qual o fim da exigência do diploma desvaloriza o jornalismo é o atestado público da desvalorização individual do estudante ou profissional que teme a concorrência inevitável com a abertura da profissão a outros cursos. Não li ainda ninguém que tenha demonstrado por que o curso de jornalismo é essencial para se formar o jornalista. Teve gente que atribui à universidade a responsabilidade de ensinar ética e outras questões de ordem moral. Mas, me digam, se a faculdade, ao ministrar disciplinas de português, parte do pressuposto de que o estudante sequer sabe o idioma pátrio como poderá ser responsável por ensinar a tomar decisões e adotar comportamentos? O máximo que a universidade consegue (se o aluno estiver disposto a aprender) é dar noções técnicas sobre determinados assuntos. Técnica de apuração e redação de uma reportagem? Se a pessoa gostar de jornalismo aprende rapidamente dentro da redação.

A grita dos estudantes é explicada pelo medo; a dos sindicatos, por outro módulo de medo. Numa situação em que o mercado estava fechado aos portadores do diploma, obrigados a financiar os sindicatos pelo acordo do dissídio coletivo mesmo que não fossem filiados, havia legitimidade jurídica de representação da categoria, que também deixou de existir com a decisão do STF. Os protestos com 80 ou 200 pessoas podem continuar sendo realizados, mas a situação é irreversível (salvo se os sindicatos conseguirem a aprovação de uma lei para regulamentar a profissão – antes havia um decreto com força de lei – e exigir o curso universitário). Até lá, talvez, diplomados e não diplomados em jornalismo possam esquecer a rinha de galo e pensar como melhorar um ofício que está em xeque pelas novas exigências e variadas formas tecnológicas de comunicação.

PS: Aproveite para perguntar a um estudante de jornalismo se ele lê jornal diariamente.

Comentários (5)

  1. [...] Bruno [...]

    Diploma de jornalistas « De Gustibus Non Est Disputandum
  2. A decisão do STF é favorável à meritocracia. Provada a competência o sujeito deve ter poder exercer a profissão. Creio que não se pode negar a talentos extraordinários autodidatas o exercício de uma profissão. Um juiz da Suprema Corte Americana, Promotor no Tribunal de Nuremberg, cursou apenas 1 ano de Direito e diz-se que quando Wittgenstei chegou a Cambridge espantando a todos deram-lhe logo um título de doutor em filosofia sem que jamais tivesse cursado nem a graduação em Filosofia. Mas o burocratismo e o corporativiamo não são “privilégios” brasileiros. Li a história de Wittgensteim numa biografia escrita por Paul Johnson que afirma, Wittgeinstei, devido às exigências burocráricas da Universidade hoje, não seria aceito nem como aluno.

    Vinícius de Oliveira
  3. Quero ver quem gostaria de esfregar o diploma na cara do guarda aqui: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,policia-iraniana-prende-jornalistas-em-jornal-da-oposicao,392225,0.htm.

    no mínimo, irônico. Mas vale para refletir um pouco mais sobre as responsabilidades de quem deseja diploma a todo o custo. É, irônico… :)

    Claudio Shikida
  4. As entidades representativas de classe permaneceram inarredáveis. Insistiam na importância da graduação, fazendo alegações as mais diversas, com ênfase especial sobre um possível declínio na qualidade do exercício profissional. E, como não poderia deixar de faltar também um pretexto ideológico, insinuaram ainda que a abolição do diploma satisfaz uma demanda exclusivamente patronal, cuja preocupações – segundo afirmam – resumem-se sempre a interesses comerciais.
    Mas o arrazoado das entidades classistas também apresenta o seu lado, digamos, comezinho. Atenta aos interesses corporativos, esmeram-se em manter, de forma obstinada, uma cômoda e benfazeja reserva de mercado. O brasileiro, como se sabe, sempre foi avesso a ambientes competitivos, e esquiva-se da livre-concorrência com um desembaraço – esse sim – bastante eficiente. No Brasil, os monopólios e privilégios compõem a ordem natural das coisas, e são preservados com ares de cláusulas pétreas (bem entendido: sempre em favor de uma minoria organizada, e em detrimento de uma maioria silenciosa).
    É preciso ter em mente que em algumas profissões o autodidatismo é não só possível como legítimo. Para exercê-las, a exigência de nível superior se mostra tão descabida quanto prejudicial. O pré-requisito de uma graduação, por ser um formalismo desnecessário, sufoca o surgimento de uma verdadeira meritocracia. Só posso atribuir esses entraves burocráticos a um atávico e provinciano culto ao bacharelismo. Posto de lado todo e qualquer fetichismo do diploma, os diplomados terão que mostrar sua superioridade em uma livre disputa pelos postos de trabalho. A seleção, então, se processará de forma natural e espontânea, e só sobreviverão profissionalmente aqueles que apresentarem uma capacidade efetivamente demonstrada. Já diz o adágio: “quem não tem competência, não se estabelece”. E não vale dizer que a regulamentação da profissão passa pela exigência do diploma, porque não passa. Essa é uma questão à parte.
    O lado mais mercantil dessa estória é que em nosso país, nos dias atuais, faculdades são abertas em escala industrial. Os diplomas, por sua vez, sobretudo nas universidades particulares, são expedidos numa facilidade e profusão que as engrenagens do mercado de trabalho mal conseguem absorver. Dada magnitude da oferta, exibir graduação na praça já não é mais garantia de emprego. As empresas no ramo das comunicações já perceberam que o mero diploma de jornalismo, nos dias que correm, assemelha-se, mutatis mutandis, ao curso de datilografia em tempos idos, ou seja: atesta apenas que você sabe usar a máquina, mas não garante que você saiba escrever.
    Diante desse corporativismo tacanho, os alunos acabam ingressando no curso superior com um interesse unicamente instrumental: obter o diploma. Eles podem até saber que o conhecimento não tem preço, mas para todas as outras coisas eles usarão o cartão de crédito.

    Luciano Garrido
  5. Principalmente nas universidades que temos, onde a doutrinação é mais importante que a instrução.

    Daqui uns dias saber ler e escrever vai ser um privilégio e muitos sindicalista vão obedecer a lógica perversa das maiorias.

    Quebrar os teares….

    Falou….

    Cristovam

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