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Cuba não mudará tão cedo

Em 1970, Cuba tinha um PIB que equivalia a 18.6% do PIB dos EUA. Após duas décadas, em 2003, o resultado não era muito distinto: 18.4%. É verdade que durante o período das inflações na América Latina, 1985-91, o desempenho médio foi um pouco melhor (27.5%), mas a reversão à média prevaleceu. Só para se ter uma idéia, os mesmos dados para o Brasil são 23.2% em 1970, 20.9% em 2003 e 27.4% em 1985-91. Ambos os países são similares no que diz respeito à desconfiança no funcionamento dos mercados, embora distintos quanto ao tipo de regime político efetivamente adotado.

A notícia de que Fidel renunciou deixou excitadíssimos os neo-cons latino-americanos, aqueles que pretendem minar as liberdades individuais e ampliar a intrusão estatal sobre a vida das pessoas através de estratégias militares e/ou midiáticas. Todos eles pensam que da ditadura de Castro emergirá um paraíso no qual haverá mais democracia e menos mercado, algo que, claro, contraria o princípio da liberdade de trocas mas, ora bolas, neo-cons latino-americanos não se preocupam com a lógica ou com as fugas de cubanos noticiadas nos jornais.

A sociedade cubana é uma das menos livres do mundo. No ranking de liberdade econômica da Heritage Foundation, o país aparece, na última medição, como o 156o colocado (trata-se do penúltimo lugar…). Em termos de liberdade política, o governo cubano não está melhor. Não é necessário ir muito longe para saber que a liberdade de imprensa se encontra em situação igualmente ruim: Cuba é o 165o colocado entre 169 países. Embora o Brasil não faça bonito em todos os três índices, o leitor poderá verificar que estamos longe da situação desastrosa de Cuba.

Entretanto, as semelhanças entre os indicadores apontados no primeiro parágrafo são interessantes pelo que, indiretamente, dizem. Basicamente, Cuba e Brasil são similares no que diz respeito ao grau de distorções que seus governos geram nas livres ações dos seus cidadãos. A diferença marcante fica por conta do grau de autoritarismo, marcante em Cuba.

Tais distorções estão relacionadas com os resultados sócio-econômicos citados acima. Não se trata de “socialismo” e “capitalismo”, mas sim do nível de atividades rent-seeking em cada país. Tais atividades, como já demonstrado na literatura, levam empreendedores a buscarem muito mais a atenção dos burocratas do que dos consumidores.

Obviamente, o grau de rent-seeking em uma sociedade varia conforme os incentivos que suas normas formais ou informais representam. O ponto positivo disto é que instituições, como fruto da criação humana, podem ser mudadas para potencializarem a prosperidade. O ponto negativo, obviamente, é que podemos também transformar boas instituições em desastres de grandeza variável. Pior ainda, o design de uma boa instituição não costuma depender de planejamento consciente de indivíduos bem intencionados. Pelo contrário, tal planejamento costuma gerar desastres que se iniciam com excelentíssimas intenções e um bocado de ingenuidade.

O resultado destes desastres geralmente se resume em governos obesos, mercados estagnados e, dependendo do grau de intrusão em sua vida, sociedades dominadas pela absoluta falta de liberdade individual. Nada que o brasileiro (ou o cubano) não conheça há mais de 50 anos..

Assim, não há motivo para otimismo: a nova administração (do novo) Castro não se mostrou claramente empenhada em abandonar nem o discurso, nem as práticas que, nestes 50 anos, continuam a motivar cubanos a fugirem do país em desespero, contrariando todo o discurso dos nossos neo-cons latino-americanos.

Comentários (2)

  1. [...] Uncategorized. Tags: bolivarianismo, Cuba, Ordem Livre, socialismo real, totalitarismo trackback Eu, Leonel e um certo “frei” concordamos: a ditadura socialista continua. A diferença é [...]

    Eu, Leonel Marshall e um certo “frei” concordamos: nada mudará em Cuba « De Gustibus Non Est Disputandum
  2. [...] Tags: bolivarianismo, Cuba, socialismo real trackback Versão resumida- e levemente modificada – disto publicada [...]

    Cuba « De Gustibus Non Est Disputandum

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