O que acontece quando o governo sai de cima
25 de Fevereiro de 2008 por Pedro Sette Câmara
Você é adolescente e ouve falar na escola de proteger a indústria nacional contra o supostamente malvado capitalista estrangeiro, como se uma lei protecionista não servisse unicamente para proteger o supostamente malvado capitalista nacional. Mas, aí, é claro, a chave retórica não é “capitalista”, e sim “nacional”: é uma questão de nós contra eles, como se ser “oprimido” (ainda hei de entender como ter a possibilidade de adquirir um produto pode ser considerada uma forma de opressão) por um estrangeiro fosse melhor do que ser “oprimido” por um brasileiro. Tudo isso são palavras vazias para encobrir a realidade: são os planejadores sociais que oprimem a população com seus planos.
Foram mais de 20 anos de lei de “reserva de mercado” para a informática. O resultado foi que o computador era um luxo ou uma ilegalidade, obtido pelo contrabando. Três anos depois de a pata do Leviatã ter saído de cima, empresários conseguem oferecer produtos à classe C e garantem a onipresença do produto. Segue um trecho da reportagem de Elis Monteiro no caderno de informática do Globo de hoje:
Quem abre as páginas de jornais e revistas e dá de cara com dezenas de ofertas de computadores (notebooks e desktops) de marcas diversas, muitas delas nacionais, nem se dá conta do longo caminho trilhado por algumas empresas para chegar ali, ao alcance do consumidor e com crédito facilitado. Lembremos, pois, que houve um tempo em que a indústria nacional era resguardada por uma irritante reserva de mercado, estabelecida em 1984, quando o governo decidiu fechar o mercado de computadores para as empresas estrangeiras, a fim de “proteger” a indústria nacional. O efeito da reserva foi oposto ao esperado: o mercado não só não cresceu como o país passou a ficar à mercê do contrabando de novas tecnologias.
Em 1992, felizmente, a reserva teve fim, mas deixou uma herança negativa: um mercado nacional dominado pela pirataria e em que, quando não contrabandeados, os micros custavam os olhos da cara. O cenário permaneceu assim até 2004, quando o dólar chegou a alcançar a marca de R$ 4, o mercado legal era soterrado pelo índice de 75% de pirataria (hoje, é de 47%) e o varejo nem sonhava em vender PCs como vendia geladeiras. Pois em 2005 as coisas começaram a mudar, abrindo caminho não só para as marcas “tradicionais” estrangeiras como criando espaço para novas entrantes, que, com os incentivos fiscais do governo (através da MP do Bem), geraram demanda, principalmente proveniente das classes C e D. Vendendo mais, passaram a produzir mais e a chamar a atenção de outros empreendedores dispostos a lucrar com a fase animada do mercado. O exemplo clássico de empresa que “correu por fora” é a Positivo Informática. Os números não mentem: empresa é um caso de sucesso e já estimula muitas outras a tentarem a mesma sorte. Em 2007 a Positivo vendeu 1,389 milhão de computadores apenas no Brasil, passando a fazer parte da lista das dez fabricantes que mais vendem desktops no mundo. No mercado de notebooks, ocupa a 16aposição, com um crescimento de vendas de nada menos que 423,9% no ano passado.
Em desktops, em 2007 a empresa vendeu 361 mil unidades a mais que em 2006.
Em 2007, vendas de PCs superaram as de TVs E pensar que tudo começou há pouquíssimo tempo, em 2004, conta o presidente da empresa, Hélio Rosemberg.

Adicionar um comentário.