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Mais um mensageiro da morte da imprensa, ou de como fazer tudo errado

Do Comunique-se:

“Será que a profissão de jornalista vai se extinguir?”, questiona especialista

Izabela Vasconcelos, de São Paulo

O sociólogo Erik Neveu, diretor do Institut d’Etudes Politiques de Rennes, na França, discutiu o tema “Informação sem jornalistas: ameaça real ou história de terror?”, durante 7º Encontro Nacional dos Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), nesta quinta-feira (26/11), na USP. Na palestra, o especialista apontou algumas sugestões para manter a profissão de jornalista viva.

Segundo Neveu, atualmente existe uma tendência das notícias virem diretamente da fonte, sem intermediários, como os profissionais de imprensa. “Será que a profissão de jornalista vai se extinguir?” questiona.

Para ele, a perda de espaço dos jornalistas se deve a três fatores: profissionalização das fontes, monopólio de mídia e desenvolvimento da internet. “Hoje muitas informações são produzidas pelas fontes (…). E um dado importante é que um em cada quatro jornalistas franceses são freelancers, mas eles não escolheram isso”, destaca.

Neveu acredita que os conglomerados de mídia reduziram as margens de autonomia dos jornalistas, o que fez os próprios profissionais se “desencantarem” com o mercado de trabalho. Outros fatores importantes são a desvalorização da profissão, com o pagamento de baixos salários e falta de trabalho em campo, agora mais restrito às redações.

Cooperativas, incentivos fiscais e colaboração
Como resposta às imposições do monopólio de mídia, o especialista sugere a criação de cooperativas de jornalistas, para garantir a autonomia.

Para conter a queda do interesse pela profissão e para que o jornalismo se mantenha viável, Neveu apresentou outros possíveis caminhos. Um deles é que o Estado promova alguns incentivos para a imprensa. “O governo poderia conceder vantagens fiscais para alguns e estabelecer regimes fiscais aos veículos que só ‘roubam’ informação dos outros, ao invés de produzi-las”, declara.

Segundo o especialista, recorrer ao Estado não seria um problema. “Tem um caminho para contar com o Estado sem ser partidário. As instituições públicas na França, como as faculdades, são críticas. Lá as rádios públicas são muito mais críticas ao governo do que as privadas”, explica.

Outro ponto levantado por ele foi a colaboração dos internautas e a aproximação com os leitores. “A energia dos internautas pode ajudar os jornais. (…) Se as mídias falassem com menos desprezo às classes populares, teriam mais leitores” conclui.

O estado deve promover alguns incentivos à imprensa? A resposta só pode ser afirmativa se você considerar que um grupo merece um privilégio em detrimento de outros e dos demais indivíduos. Partamos do princípio de que consideramos a imprensa importante para uma democracia liberal e para o estado de direito. Nem por isso devemos conceder ao ofício um privilégio que o contamina.

É interessante notar que as empresas de comunicação que se tornaram bem sucedidas foram aquelas administradas como, preparem-se!, empresas. Parece tolice apontar essa obviedade, mas durante décadas os próprios jornalistas tinham uma certeza inabalável que o jornal ou revista deviam ser gerenciados como uma instituição que prescinde de administração eficiente e dinheiro. A quantidade de projetos jornalísticos fracassados no Brasil demonstra a inviabilidade de tal sonho levado a cabo por jornalistas sem qualquer talento para o empreendedorismo.

É claro que o defensor de empresas estatais de comunicação aos meios de comunicação tem na ponta da língua o nome da BBC de Londres. De fato, a qualidade dos produtos da BBC é inquestionável, mas, enquanto empresa, não se viabiliza se não com o dinheiro do pagador de impostos britânico.

Em 2002, abriu-se a discussão, por necessidade do segmento, de o BNDES abrir linhas de financiamento para o setor de comunicação. A própria existência do BNDES é uma excrescência, mas o ponto é outro: como pode uma empresa de comunicação fazer o seu trabalho tendo o estado como credor?

As grandes empresas de comunicação desistiram da proposta por causa das condições apresentadas pelo banco e, depois, pela polêmica que se seguiu à divulgação do interesse pela ajuda, nessa ordem.

Quanto à frase “As instituições públicas na França, como as faculdades, são críticas”, bem, a crítica é por mais estado, por mais ajuda, por mais tudo. E o padeiro que não frequentou e nem pretende frequentar uma universidade? Ele deve pagar para os outros (que também pagam) estudarem?

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