Entrevista: Tom Palmer

Entrevista concedida ao Blog do Fórum da Liberdade.

Pela primeira vez no Brasil, o vice-presidente de Programas Internacionais do Cato Institute, localizado em Washington, se auto-intitula um libertário. Nos anos 80 e 90, Palmer esteve intensamente envolvido na disseminação de idéias liberais clássicas no bloco de estados soviéticos e seus sucessores. Atualmente, dedica-se a defender a globalização e suas vantagens. Ansioso para chegar a Porto Alegre, ele explica nesta entrevista exclusiva como o livre comércio pode beneficiar nações como o Brasil e porque tanta gente ainda resiste à abertura.

Ao discutir os mitos da globalização, diante do argumento de que ela origina uma deterioração dos padrões ambientais e laborais, o senhor afirma que os postos de trabalho nas empresas de propriedade de estrangeiros são geralmente muito procurados, porque pagam melhores salários e oferecem melhores condições laborais do que as alternativas domésticas. Em países como o Brasil, pode-se pensar que poucos teriam chance de conquistar postos nessas empresas devido às exigências de formação profissional. Nesse sentido, a globalização é um processo democrático que beneficia a todos?

- O crescimento de investimento aumenta a produtividade do trabalho, incluindo o trabalho não-qualificado. É por isso que os salários de trabalhadores não-qualificados continuam a subir em países onde o investimento cresce. Simplificando, melhores ferramentas fazem com que uma hora de trabalho produza mais valor. Salários sobem quando o produto do trabalho aumenta. Os maiores beneficiados, em termos de mudanças reais em seu padrão de vida, são os mais pobres. As pessoas que tendem a se opor a maior competição são os privilegiados que temem a perda de seus monopólios. É por isso que a oposição mais feroz à competição global vem de elites locais que perdem seu poder sobre o restante da população. É preciso mencionar que as leis trabalhistas no Brasil aumentam de forma gigantesca o custo de empregar, o que tende a discriminar os mais qualificados dos menos qualificados. Se você quer tornar os benefícios da globalização mais amplamente acessíveis, uma importante reforma doméstica seria reduzir os obstáculos à contratação no Brasil.

Como a globalização e o livre comércio promovem os direitos humanos? Não deveria haver progressos mais significativos na China, por exemplo?

- Estive na China por três semanas em dezembro e janeiro e acho que as mudanças ocorridas, inclusive desde minha última visita, são simplesmente surpreendentes, não apenas em termos de bens materiais, mas também em termos de abertura social e disposição para expressar opiniões. A China foi por décadas uma das mais horríveis ditaduras que o mundo já viu. Nos anos 60, a escassez criada deliberadamente de alimentos levou à morte por fome mais de 30 milhões de pessoas. O uso de trabalho forçado era padrão e a brutal supressão da divergência era tão normal que ninguém se importava em comentá-la. O poder do partido sobre o indivíduo era total. Não havia imprensa livre. Não havia livre discussão. Não havia liberdade de modo algum. Basicamente, a China tem simplesmente experimentado mudanças imprecedentes que é difícil reconhecer o país. O movimento democrático na Praça Tienanmen foi impulsionado pela globalização e esmagado pela oligarquia que temeu a perda de seu poder. Desde então tem havido uma gradual flexibilização do poder e crescimento da liberdade e, com liberdade, da prosperidade e um maior senso de poder por parte dos cidadãos. A maior força condutora para a mudança democrática tem sido, sem dúvida, a globalização de informação, comércio, viagem e de investimento. É preciso lembrar que quando nota-se o aumento de reportagens sobre abusos, isso pode significar que o número de abusos está crescendo, ou - como é o caso da China - que abusos que antes eram ignorados ou varridos para baixo do tapete estão sendo agora relatados e discutidos abertamente, o que significa mais, e não menos, abertura democrática. A globalização está, sem dúvida, melhorando os direitos humanos na China.

Se a globalização tem tantos pontos positivos por que tantas pessoas se opõem a ela?

- Na verdade, não há tanta gente lutando contra a globalização. Elites privilegiadas que temem a perda de seus monopólios para importações. Empresas de elites domésticas que temem concorrência se opõem ao livre comércio. E milhões de consumidores se beneficiam ao livrar-se de seu controle. Milhares de trabalhadores se beneficiam por haver maior competição por seu trabalho, o que eleva seus salários. A oposição ao livre comércio tende a vir de duas fontes: os poderosos que naturalmente temem a extinção de seus privilégios e os equivocados, que não entendem os benefícios de uma concorrência mais ampla, o que tende a diminuir os preços e elevar os salários. A grande maioria da população mundial tem se beneficiado tremendamente da globalização e ativamente participado do processo. A oposição tende a vir de pequenas mas barulhentas minorias.

Como o senhor relaciona a globalização e a onda atual de fundamentalismo islâmico? Alguns dizem que a globalização seria a causa do fundamentalismo, enquanto outros acreditam ser a cura.

- Esse é o tipo de questão em que é fácil expressar uma opinião, mas muito mais difícil apresentar evidências. Sempre é possível dizer que X é uma reação a Y, mas como alguém testa uma teoria? Por exemplo, alguns dizem que o terrorismo radical é uma reação à pobreza, mas por que há tão poucos terroristas haitianos? Suspeito de opiniões que não sejam acompanhadas por evidências e a maioria das discussões sobre a relação entre extremismo religioso e globalização se encaixam nessa categoria. Mesmo assim, acredito que seja digno de atenção o fato de que os grandes radicais islâmicos tendem a vir de famílias cultas, mas com pouca chance de ascensão social, em parte pelos rígidos controles do estado sobre a economia, assombroso desemprego (o Egito é um bom exemplo) e por aí vai. Assim sendo, me sinto razoavelmente seguro em afirmar que o livre comércio e mais prosperidade para a classe média criariam um importante elemento contra o terrorismo extremista. O melhor trabalho empírico sobre o assunto é do Prof. Erik Gartzke da Universidade de Columbia (Nova York), que descobriu que o melhor indicador de paz entre as nações não era a democracia, embora a tese da paz democrática tenha forte apoio empírico, mas a liberdade econômica. É possível ler suas conclusões acessando este link.

Qual é a melhor maneira para que países emergentes como o Brasil aproveitem as vantagens da globalização?

- Uma seria tratar investidores estrangeiros e domésticos da mesma maneira, sem privilégios para nenhum dos dois. Alguns políticos tentam atrair investimento estrangeiro oferecendo tratamento preferencial para investidores estrangeiros. Isso é um erro e mina o Estado de Direito não menos do que dar tratamento preferencial para investidores locais. Outro elemento importante seria cortar a papelada burocrática, autorizações e outros obstáculos à entrada no mercado, o que tende a ser explorado por elites privilegiadas às custas das massas. De acordo com o relatório Doing Business, leva 152 dias para abrir um novo negócio no Brasil. Isso comparado a 60,7 dias na América Latina (incluindo Brasil), 13 dias na Itália e seis dias na Dinamarca. É alguma surpresa que seja difícil criar empregos no Brasil? Abertura a investimentos e disposição para a criação de empregos requerem cortes massivos de papelada e burocracia. Um dos principais problemas de muitos países é que seguidamente as tarifas correspondem a uma grande porcentagem da renda do estado, então cortar tarifas implica cortar a renda do estado, o que políticos não gostam de fazer. Se houver algum imposto sobre bens importados, devem ser os mesmos - nem maiores, nem menores - do que os impostos sobre bens domésticos. Finalmente, é importante ensinar às pessoas que o livre comércio por si só não aumenta ou diminui vagas no mercado de trabalho, mas leva à substituição de postos de salários mais baixos por salários mais altos e produtos de preços mais altos por preços mais baixos (e melhores). Se você quer estimular a indústria doméstica, seria necessário aprender a lição da Tese de Simetria de Lerner (Lerner Symmetry Thesis) sobre comércio internacional, em que impostos sobre importações têm no total o mesmo efeito de impostos sobre exportações. Se você quer impulsionar indústrias de exportação, a melhor maneira de fazer isso é reduzir os obstáculos a importações, que é o que os estrangeiros pagam pelas exportações - o que eles chamam de importações. O livre comércio é para benefício das massas em todos os países. Elites perdem seus privilégios, mas a longo prazo, até mesmo elas se beneficiam.

Esta será sua primeira vez no Brasil, qual a sua expectativa com relação ao XXI Fórum da Liberdade?

- Espero ansiosamente para conhecer uma das maiores nações do mundo. Fico quase envergonhado de dizer que esta será minha primeira visita ao Brasil. Espero aprender mais sobre uma das emergentes potências culturais e econômicas. Tenho muita esperança no futuro do Brasil, no enriquecimento do povo brasileiro e, através do livre comércio, no enriquecimento do resto do mundo. Essa será uma parte importante da minha apresentação: a intersecção da economia e da moralidade do livre comércio. Nacionalistas de pensamento restrito - e nós certamente temos nossa parte na América do Norte - encaram a prosperidade dos outros como uma ameaça. Eles rangem os dentes quando encontram evidências de que outros países estão prosperando. Eles pensam que se outras pessoas prosperam, isso acontece às suas custas. Mas o comércio voluntário enriquece as duas partes da transação; a prosperidade de um não ocorre às custas do outro. O livre comércio confere respeito moral aos outros e tende a promover a paz internacional. Então, discutirei a relação entre a economia e as dimensões morais do livre comércio. Estou ansioso para aprender mais sobre a perspectiva brasileira. Essa será uma aventura para mim, não apenas do ponto de vista turístico, mas intelectual. Mal posso esperar.

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