A realidade do mercado

por Russell Roberts

Você está em casa, sentado, e repara que está frio demais para um dia quente de verão. Ao fundo, o som distante do ar condicionado. Você se levanta e checa o termostato. Logo confirma suas suspeitas – alguém girou o termostato, diminuindo a temperatura – e você sabe exatamente o que fazer: ajusta o botão para uma temperatura mais agradável e volta à sua leitura.

Agora, suponha que você esteja saindo para alguma viagem de negócios. Quando abre a porta, descobre que está chovendo. Não há um interruptor para que você possa desligar a chuva, nem uma tela de opções na qual você possa selecionar “tempo secoâ€. Você dá meia-volta, pega uma capa e um guarda-chuva.

É fácil dividir o mundo em que vivemos entre esses dois tipos de fenômenos – as coisas como a temperatura de sua casa, que são resultados da intenção e da atividade humana, e coisas que, como a chuva lá fora, não são resultados da intenção ou da atividade humana.

Porém, há uma terceira categoria de experiências – os fenômenos que são produtos da ação humana, mas não são planejados pelos seres humanos.

A linguagem é um exemplo. Ninguém planeja ou controla a língua inglesa. Há algumas pessoas, que se autodenominam especialistas, que tentam e conseguem influenciar a forma através da qual o inglês evolui. Mas elas não possuem mais poder do que o governo francês, em sua tentativa de impedir que os franceses chamem o sábado e o domingo de “Le weekendâ€, ao invés de “fin de semaine†– a forma de se referir ao fim de semana aprovada pelo governo.

Mas quem inventou o verbo “to google†em inglês? Ou os substantivos “ciberespaço†ou “blogâ€? E, mais importante que isso, quem decidiu que essas palavras poderiam ser usadas em uma conversa comum, sem maiores explicações? Ninguém. Como não cabe a ninguém a função fiscalizatória, podemos esperar que a língua seja caótica e aleatória. Só que as palavras não caem do céu como chuva. Não é um fenômeno aleatório a escolha de quais palavras sobreviverão e quais palavras morrerão, quais palavras encantarão nossas mentes e quais palavras acabarão sendo ignoradas. Os seres humanos e suas escolhas fazem dessas palavras (e não de outras) parte da língua porque elas lhes são úteis. No entanto, não cabe a nenhuma pessoa o papel de árbitro. Ou, de certa forma, cabe a todos nós. Mas não no sentido comum que utilizamos a palavra “nósâ€, no sentido de uma decisão coletiva. Não há decisão coletiva, apenas o resultado de um número suficiente de indivíduos utilizando algumas palavras que se espalham de boca em boca. A língua emerge da complexa interação entre aqueles que a falam, lêem e escrevem.

Ironicamente, nós não possuímos um vocabulário para descrever essa forma peculiar de influência grupal. Não há voto, nem se delega poder algum a especialistas ou a um comitê. Aqueles que falam inglês “escolhem†quais palavras sobrevivem ou morrem, mas não da forma pela qual, geralmente, usamos a palavra “escolherâ€, que implicaria numa decisão consciente. A consciência grupal não existe.

O tempo gasto no trânsito das grandes cidades é outro exemplo. Por que levamos tanto tempo para nos deslocarmos na hora do rush? A culpa é de quem? De ninguém. Mas esse não é um fenômeno aleatório ou natural. O trânsito é resultado da atividade humana, mas não é resultado do planejamento humano. O tempo que levamos para ir de um lugar para outro emerge de uma interação complexa entre as decisões feitas por aqueles que dirigem. Existe alguma previsibilidade, apesar de ninguém desejar que aquilo aconteça daquela forma. O trânsito é mais lento na hora do rush do que no meio do dia. O trânsito é mais lento nas cidades grandes, em comparação com as cidades menores.

Isso não significa que não haja formas de se interferir no trânsito ou nesses fenômenos emergentes. O congestionamento do trânsito não é como a chuva. Entretanto, as “soluções†mais óbvias, as soluções similares a um ajuste no termostato, não funcionam da forma que as pessoas prevêem. O alargamento das estradas e o aumento das opções de transporte público não são suficientes para reduzir o trânsito na hora do rush por um período de tempo considerável. Essas “soluções†tratam os resultados de um processo emergente como se fossem a temperatura do termostato. Assim, inevitavelmente, fracassam.

Nós não temos problemas para nos convencermos de que nenhum indivíduo é o responsável pelo tempo que se leva para nos deslocarmos de um lado para outro, durante a hora do rush, em uma grande cidade americana. Ninguém argumentaria que só porque eu dirijo um carro, e que levei meia hora a mais em minha viagem durante a hora do rush, que teria sido minha intenção fazer com que a viagem demorasse tanto. Mesmo que eu dirigisse o carro, que eu estivesse ao volante, todos nós compreendemos que não era minha intenção perder meia hora a mais em minha viagem. Nós entendemos que aquela meia hora foi culpa das escolhas individuais de todos os outros motoristas. Também entendemos que seria um absurdo sugerir que “nósâ€, todos os motoristas em conjunto, temos a intenção coletiva de fazer com que dirigir durante a hora do rush demore mais do que dirigir fora da hora do rush. Essa não é a intenção de individuo algum. E também não é resultado de uma “intenção coletivaâ€, um conceito sem nenhum significado.

Da mesma forma, quem se muda de St. Louis para Washington DC, como eu fiz há dois anos, logo percebe que uma casa em Washington DC é mais cara do que uma casa parecida em St. Louis. Quando eu comprei a minha casa em Washington, eu não fiquei com raiva do vendedor por ele me cobrar um preço tão alto. Eu não o culpei pela discrepância entre os preços de sua casa e uma casa parecida em St. Louis. Eu não expressei minha indignação por ele me cobrar quase dez vezes mais o valor que ele pagara pela casa quando ela era nova, em 1969. A maioria das pessoas compreende que o preço de uma casa não é necessariamente baseado em nenhum sentido real pelo vendedor, por qualquer outra pessoa ou por qualquer vontade coletiva. Ninguém teve a intenção que o preço dos imóveis em Washington DC dobrasse nos últimos cinco anos, como aconteceu.

A economia é o estudo desses fenômenos emergentes, particularmente quando preços, monetários ou não monetários, estão envolvidos. Nós chamamos esses fenômenos de “mercadosâ€. É um termo infeliz, mas sobre ele, é claro, eu não tenho controle algum. É um termo que vem sendo utilizado há um século ou mais, e é provável que perdure. Digo que é infeliz, porque na cabeça das pessoas, o termo “mercado†evoca, ou o mercado de ações de Nova York, ou um mercado agrícola, altamente organizado, com interações centralizadas entre os compradores e vendedores. A maioria daquilo que estudamos nas ciências econômicas e que chamamos de mercado são interações descentralizadas e não-organizadas entre compradores e vendedores.

Ainda assim, essas interações descentralizadas e não-organizadas resultam em preços (sejam eles monetários, como no caso das casas, ou não-monetários, como no caso do trânsito) que seguem uma ordem, apesar de não serem organizados por nenhum indivíduo ou mesmo por um grupo. Essa ordem, essa previsibilidade, perpassa nossas vidas de uma forma que raramente apreciamos.

Pegando apenas um importante exemplo, a ordem dos preços e a resultante ausência de escassez permitem a alta dispersão do conhecimento, por meio da especialização. Essa especialização sustenta nosso padrão de vida. O nível de especialização emerge junto com os preços, mas são os preços que tornam isso tudo possível. Uma companhia de lápis nunca se preocupa com a escassez de grafite, de cedros ou de yellow lacquer. A especialização permite à fábrica de lápis terceirizar a produção desses materiais e evita a acumulação de conhecimento necessária para o domínio de todos os processos envolvidos na fabricação de um lápis. A emergência dos preços permite a existência de um mundo onde ninguém saiba fazer um lápis. Esse mundo é confortável porque é um mundo onde os lápis são baratos, abundantes e estão sempre disponíveis.

A compreensão do fenômeno emergente que os economistas chamam de mercado é a essência da forma econômica de se pensar. Em contraste, o cérebro humano parece mais familiarizado ao que pode ser chamado de forma planejada de pensar, na qual a ação humana e o planejamento humano trabalham juntos. Se eu estou insatisfeito com o tamanho da minha cozinha, faço um plano e o sigo. Caso o meu plano seja esse bem sucedido, terei como resultado uma cozinha maior. Alguém que se sente e espere por uma cozinha nova, sem planejar ou agir, ficará desapontado. Ou, se por acaso eu note que as folhas estão caindo das árvores, não espero que elas se juntem e se limpem do chão. Eu preciso planejar varrê-las e então efetivamente varrê-las. Mudar o meu termostato para alterar a temperatura dentro da minha casa é outro exemplo disso.

Porém, a forma planejada de se pensar não funciona como um fenômeno emergente. Tentar mudar os resultados emergentes é, naturalmente, mais complexo do que construir uma ponte, expandir sua cozinha ou mesmo colocar um homem na lua. Compreender os desafios envolvidos é começar a responder a uma antiga questão, que pergunta por que podemos colocar um homem na lua, mas não podemos eliminar a pobreza. Colocar um homem na lua é um problema de planejamento. Esse problema é vencido com a aplicação suficiente de recursos e argumentos. Eliminar a pobreza é um problema econômico (e com econômico, eu não quero dizer que seja financeiro ou relacionado ao dinheiro), um desafio que envolve resultados emergentes. Em um cenário como esse, apenas dinheiro – na quantidade que uma abordagem não econômica pode sugerir, uma que ignore o impacto dos incentivos e dos mercados – dificilmente resolverá o problema.

Thomas Sowell gosta de dizer que a realidade não é opcional. Mas nós gostaríamos que ela fosse. Nós queremos modificar resultados sem sofrer conseqüências, com a facilidade de um ajuste no termostato na parede de nossa casa. Nós queremos que os salários subam e que o preço da gasolina caia. Queremos culpar o Wal-Mart pelo fato de seus empregados ganharem menos que a média nacional. Queremos culpar a China (ou o México, ou o Japão ou a Ãndia) pelo nosso déficit comercial. Nós queremos culpar - ou elogiar - o ocupante da Casa Branca pelos novos empregos possuírem salários baixos - ou mais altos. Essa visão de mundo que foge da realidade e que ignora a complexidade inerente ao mundo real é comum ao jornalismo e é um terreno fértil para conseqüências impremeditadas.

Considere o empregado médio do Wal-Mart, que ganha menos que a média e não tem o benefício do seguro saúde. Se o vendedor não escolhe o preço da casa, por que as pessoas culpam o Wal-Mart por pagar baixos salários ou oferecer benefícios insuficientes? Parece óbvio que o Wal-Mart escolhe seus salários, mas essa conclusão é tão ingênua quanto a crença de que o vendedor da casa escolhe seu preço.

A minha renda, por exemplo, é mais alta que a média de um empregado do Wal-Mart. Isso pode levar você a acreditar que a George Mason, meus empregadores, são mais misericordiosos, enquanto o ganancioso Wal-Mart só pensa em seus lucros.

Porém, a razão verdadeira pela qual ganho mais que um empregado médio do Wal-Mart não tem nada a ver com a misericórdia da Universidade George Mason comparada à ganância do Wal-Mart. Mas tem tudo a ver com minhas alternativas fora da George Mason, comparadas às alternativas de um funcionário médio do Wal-Mart - da mesma forma que o preço da minha casa depende dos preços das outras casas de qualidade similar. Se quisermos que todos os Wal-Marts do mundo paguem salários mais altos, seus funcionários pouco capacitados devem se capacitar melhor, obter mais educação e possuir alternativas com salários mais altos.

Quando expus esse argumento a um aluno, ele reagiu perguntando por que o Wal-Mart teria o direito de explorar trabalhadores pouco capacitados, que possuem alternativas tão limitadas.

Seria tentador responder a essa pergunta com uma pergunta similar – que direito tem um vendedor de casas em Washington DC de explorar um possível comprador, cobrando um preço maior do que aqueles que as pessoas pagam em St. Louis. Porém, essa resposta ignoraria dois pontos importantes. O primeiro é que o Wal-Mart não está explorando as pessoas ao empregá-las. Na verdade, ocorre o oposto. Ao criar um modelo de negócio que permite a trabalhadores pouco qualificados servirem consumidores ansiosos por produtos baratos, o Wal-Mart aumenta as alternativas disponíveis aos trabalhadores pouco qualificados e coloca seus salários acima daqueles que receberiam em um mundo sem Wal-Mart.

O segundo ponto é que ver o Wal-Mart como a causa dos baixos salários pode levar a políticas destrutivas, como proibir o Wal-Mart de abrir uma loja em sua cidade. Quando o Wal-Mart abre uma nova loja, os trabalhadores fazem fila para ter uma chance de trabalhar lá. Como isso poderia contribuir para reduzir suas oportunidades?

Infelizmente, algumas pessoas bem intencionadas, às vezes, se juntam aos concorrentes interesseiros, para impedir que o Wal-Mart e outros empregadores se expandam. É uma tragédia quando a falta de compreensão econômica empurra uma nação para a beira de um caos econômico.

Enquanto escrevo essas palavras, Nova Orleans está em estado de caos. Várias refinarias de petróleo ficaram fora de uso em virtude do Furacão Katrina. O preço da gasolina disparou. Os políticos estão ameaçando os fornecedores com uma ação legal por cobrarem “preços extorsivosâ€, aumentando os preços em tempos de crise. Os políticos, a começar pelo presidente Bush, estão pedindo aos motoristas para dirigirem menos ou “apenas quando necessárioâ€, como se essa frase significasse alguma coisa. Esses políticos, evidentemente, acreditam que suplicar e dar lições aos cidadãos pode desempenhar o mesmo papel dos preços, criando e sustentando uma ordem, uma ordem na qual nunca preciso pensar duas vezes, ou mesmo uma vez, sobre se haverá gasolina disponível para minhas férias, para eu ir para o trabalho ou para, em uma emergência, ir ao hospital.

Mas a realidade não é opcional. Você não pode ter menos gasolina no mercado e preços baixos ao mesmo tempo. Não há botões que permitam controlar os preços da gasolina, na parede da Casa Branca. O resultado dessas ameaças são facilmente previsíveis – os fornecedores já estão racionando. Os motoristas estão preocupados em relação à escassez e, diante das ameaças de punição àqueles que supostamente os “extorquemâ€, os consumidores têm razão para se preocuparem. Em conseqüência disso, estão sendo formadas filas em algumas cidades e os postos estão fechando mais cedo, todos os dias, por falta de gasolina - o mesmo resultado que vimos quando o controle de preços explícito, ao invés do implícito, foi posto em prática nos anos 1970.

Friedrich A. Hayek, em A Arrogância Fatal, escreveu que “A curiosa tarefa da economia é demonstrar aos homens como que eles sabem verdadeiramente pouco a respeito do que podem realmente planejarâ€. Infelizmente, quando políticos tentam abaixar os preços para preservar a ordem, eles apenas agravam o problema. Faríamos bem, nos lembrando da natureza emergente dos preços, especialmente em tempos de crise.


Original em EconLib.org.

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