De onde vêm os preços

por Russell Roberts

Meus três filhos, com idades entre sete e doze anos, sofrem de um distúrbio que já foi descrito pelo economista John Baden como ferronite - a paixão por tudo que seja feito de metal. Eles são fascinados por carros, caminhões, escavadeiras, tratores... enfim, você já consegue ter uma idéia. Outro dia, meu filho do meio sugeriu que meu próximo carro fosse um conversível. Eles são muito caros, respondeu seu irmão e mencionou que um conversível de um modelo em particular custava US$ 10.000 a mais que sua versão comum. Mas por que eles são mais caros, seu irmão perguntou?

É uma boa pergunta. Por que os conversíveis são mais caros do que os não conversíveis? Por que um scotch de 21 anos é mais caro do que um scotch de 10 anos? Por que os pimentões vermelhos são mais caros que os pimentões verdes? Por que os empregados do Wal-Mart ganham menos do que um trabalhador médio nos Estados Unidos? Por que a gasolina é mais cara no verão do que no inverno? Por que a gasolina é mais cara na Europa do que nos Estados Unidos? Por que as rosas são mais caras no dia 12 de junho? Por que a cerveja não é mais cara no domingo do Super Bowl? Por que as casas nos subúrbios de Washington, DC são mais caras que as casas nos subúrbios de Richmond, Virgínia?

As respostas a essas perguntas acabam sendo um pouco complicadas do que parecem. Mas ignore as respostas, por enquanto. Apenas perceba que você pode perguntar. Há certa previsibilidade nos preços. Há uma ordem. Isso não precisava acontecer assim. Os preços poderiam existir em uma desordem aleatória, altos num dia, baixos no outro. Em certos dias, ingressos de cinema custariam mais do que camisas convencionais de oxford, laranjas custariam mais do que um copo de leite. Mas qual seria a origem dessa ordem? De onde vêm os preços?

À primeira vista, a resposta parece óbvia. O vendedor estabelece o preço. Mas se você já tiver tentado alguma vez vender qualquer objeto, saberá que as coisas não acontecem exatamente dessa forma. Se você quer vender sua casa, claro, você é livre para escrever o número que desejar na tabela. Afinal de contas, cada casa é única. Sendo assim, você só precisaria encontrar alguém que ame sua casa, alguém que ame o terraço que você construiu, a forma que você reformou a cozinha ou o jardim - ou as centenas de outras coisas que fazem uma casa ser especial. De acordo com essa mentalidade, você pode pedir um preço alto por sua casa, já que você precisa apenas que alguém aceite pagar esse preço.

Porém, você descobrirá sem demora que, se cobrar um preço muito alto por sua casa, você não a venderá, mesmo que aconteça de alguém que ame sua cozinha pintada de roxo entrar por acaso em sua casa. Essa pessoa que ama sua casa, que está disposta a pagar 500 mil, ainda assim, não a comprará caso exista uma casa que seja quase tão boa quanto a sua por 300 mil. Enquanto o valor extra de sua casa - na visão do potencial comprador - for menor que 200 mil, em comparação com a outra casa, você terá problemas. Sua casa não será vendida. As pessoas não pagam exatamente o quanto estão propensas a pagar, a não ser que não haja alternativas. E quando há a possibilidade de escolha, as pessoas possuem alternativas. A competição protege o comprador, mas também protege o vendedor. Você pode estar inclinado a vender a sua casa por 100 mil, mas não precisa vendê-la por esse preço, caso haja casas similares à sua sendo vendidas por 300 mil.

Os vendedores e os corretores imobiliários compreendem que uma casa está competindo com outras casas, mesmo aquelas que não sejam tão boas quanto a sua ou mesmo aquelas que são muito melhores. Assim, os vendedores e corretores buscam o preço das “comparáveis”: casas na mesma vizinhança, com o mesmo número de quartos, com terrenos de tamanho semelhante, com aproximadamente a mesma área construída, com aproximadamente o mesmo charme - um atributo subjetivo, mas real.

Mas se o preço de sua casa é determinado pelo preço das casas comparáveis, então o que determinaria o preço dessas casas comparáveis? O processo parece circular. Parece um castelo de cartas! O que faz com que o mercado de imóveis permaneça de pé?

Uma resposta seria que, para um bem em particular, de uma qualidade particular – digamos, uma casa de quatro quartos em um subúrbio arborizado de Washington, em um distrito com boas escolas, em uma rua quieta com um terreno espaçoso – o preço se adapta para equiparar a quantidade de pessoas que desejam comprá-las com a quantidade de pessoas que desejam vendê-las.

Os preços se adaptam para equiparar o quanto as pessoas desejam comprar um bem ao quanto as pessoas desejam vender esse bem.

Caso as pessoas queiram comprar mais do que queriam anteriormente, os preços sobem. Se as pessoas desejam vender mais do que desejavam anteriormente, os preços caem.

Oferta e demanda. Os compradores competem entre si e os vendedores também competem entre si.

Os preços que observamos emergem dessa competição.

A resposta simples da oferta e da demanda é uma resposta estranha, já que presume que você pode falar sobre um bem com uma qualidade particular. No mundo real, todo bem possui uma mistura única de atributos. Mesmo quando dois bens são idênticos fisicamente, quase sempre, os acompanham níveis diferentes de serviço.

É uma resposta estranha por presumir que você pode falar sobre um único preço, “o” preço de uma camisa comum, 100% algodão, ou de um confortável sedan de quatro portas, que percorre aproximadamente 12km por litro, ou daquela casa de quatro quartos no subúrbio. No mundo real, existem preços múltiplos para o mesmo bem. Existem as barganhas. Existem as liquidações. Tanto os vendedores quanto os compradores, aparentemente, cometem erros, vendendo bens por muito pouco ou pagando demais por eles.

É uma resposta estranha porque o desejo das pessoas e suas situações, sua renda e suas alternativas, estão mudando constantemente, e, dessa forma, a quantidade que as pessoas querem comprar e vender nunca pode ser medida instantaneamente. Mesmo que você possa falar sobre “o” preço, ele está mudando constantemente.

É uma resposta estranha, porque parece necessitar de muita informação. Caso contrário, como você poderia saber como estabelecer um preço, caso você seja o vendedor, ou como decidir pagar ou não o preço que o vendedor está pedindo, caso você seja o comprador?

A estranheza da oferta e da demanda leva alguns a concluir que só se aplicam a casos especiais, de um produto homogêneo, onde exista um número de vendedores quase infinito e onde existam informações perfeitas a respeito da qualidade do bem, das alternativas e de seus preços. Segundo essa visão, a oferta e a demanda não poderiam ser aplicadas ao trigo. Talvez.

A visão alternativa é que a oferta e a demanda devem ser irreais. Caso contrário, não haveria uma forma de se compreender o grande número de transações que estão acontecendo constantemente. Um retrato realista do que acontece no mercado imobiliário de Washington DC teria de narrar a singularidade de cada transação. Isso não seria apenas impossível, mas seria também não informativo. E qual seria a relação entre todas essas transações?

A oferta e a demanda é uma forma de se enxergar a relação que elimina quase tudo, exceto o fato de que o que as pessoas desejam pagar ou o que elas devem pagar depende das alternativas. Pela oferta e demanda encontramos uma forma de organizar nosso pensamento sobre essa coisa peculiar que os economistas chamam de mercado e competição. Vamos colocar isso em ação sem usar gráficos, e ver o que enxergamos.

As Duas lâminas da tesoura

Uma das virtudes mais importantes da oferta e da demanda é que elas lhe forçam a lembrar o que Alfred Marshall chamou de as duas lâminas da tesoura. Com poucas exceções, tanto compradores, quanto vendedores desempenham um papel na determinação dos preços. Por incrível que pareça, isso é fácil de ser esquecido. Quando meu filho me perguntou por que os conversíveis são tão caros, o irmão dele explicou que as pessoas gostam muito deles - o lado da demanda na equação. Mas essa pode não ser toda a história ou mesmo a maior parte dela. Com certeza, existem muitas pessoas que vivem em climas frios e chuvosos, ou mesmo em climas quentes demais, e que não gostariam tanto assim de dirigir um conversível. Então, por que eles são tão caros? Porque são mais caros de se fabricar, por conta do mecanismo que permite ao conversível recolher o teto. Os conversíveis só podem existir se seus preços forem mais altos que os não-conversíveis. Se as pessoas gostassem se carros que não possuíssem qualquer tipo de teto, eles seriam mais baratos e não mais caros do que os carros com teto.

Uma lógica similar se aplica aos pimentões vermelhos e verdes. Por que os pimentões vermelhos sempre são mais caros do que os verdes? Por que deveria haver qualquer relação entre os dois preços? Os pimentões verdes são utilizados, geralmente, em cozinhas industriais, por seu forte sabor. Eles não deveriam, então, ser mais caros? Acontece que um pimentão vermelho é um pimentão verde maduro. Um vendedor sempre prefere receber o dinheiro hoje, a receber o dinheiro amanhã, porque o dinheiro recebido hoje pode ser investido enquanto se lucra com os juros nesse meio tempo. Assim, se os pimentões verdes e vermelhos fossem vendidos ao mesmo preço, nenhum vendedor iria fornecer pimentões vermelhos. Dessa forma, os pimentões vermelhos devem ser vendidos por mais. Eles só existem no mercado porque algumas pessoas os preferem ao invés dos verdes. Mas para estarem disponíveis, para os vendedores fornecê-los, eles terão de ser vendidos por um preço maior.

O Ajuste dos Preços

Os preços se ajustam. Eles não são fixos. A oferta e a demanda nos ajudam a lembrar disso.

Considere os impostos sobre a folha de pagamento. Eles são estruturados nos Estados Unidos de forma a serem distribuídos, igualmente, entre o empregado e o empregador. O que aconteceria se todos os impostos fossem pagos pelo empregador? Isso, aparentemente, beneficiaria os empregados. Mas essa hipótese supõe que os salários não mudariam quando o encargo legislativo dos impostos mudasse. Porém, os salários são o preço do trabalho. E o preço do trabalho se adapta de forma a equiparar a quantidade de trabalho que os trabalhadores desejam vender com a quantidade que os empregadores desejam comprar.

Todo imposto possui um impacto sobre compradores e vendedores, mas esse impacto não é descrito pela legislação. Um imposto sobre os compradores de trabalho causará a queda dos salários. Então os empregados pagam parte dos impostos, mesmo se a legislação decretar que tudo deverá ser pago pelos empregadores. Um imposto sobre os vendedores de veículos aumentará o preço dos veículos. Os compradores de carros pagam parte do imposto na forma de preços maiores, mesmo que a legislação coloque todo o imposto sobre o vendedor.

Se a legislação colocasse todo o imposto sobre a folha de pagamento a cargo dos empregadores, o custo maior para os empregadores reduziria a quantidade de trabalho que desejam empregar. E isso abaixa os salários. Na verdade, os salários devem cair na mesma intensidade em que sobem impostos sobre os empregadores. Da mesma forma, se o imposto fosse colocado completamente a cargo dos trabalhadores, a oferta de trabalho cairia e os salários cresceriam para compensar o aumento no imposto.

Similarmente, o aumento dos impostos sobre os ricos não tem o efeito pretendido de reduzir o vão entre ricos e pobres. A cobrança de impostos sobre os ricos leva a um aumento de salários entre trabalhadores altamente qualificados, compensando um pouco, ou todo, o aumento da carga fiscal. Benefícios compulsórios para trabalhadores de baixos salários nem sempre atingem o objetivo da maior igualdade, porque esses benefícios compulsórios encorajam mais trabalhadores a trabalhar, mas desencorajam empregadores a contratá-los. Assim, os salários caem, equilibrando um pouco, ou completamente, o aumento do bem-estar que os legisladores e seus partidários pudessem ter pensado.

A emergência de um modo diferente de se ver as coisas

Finalmente, a oferta e a demanda nos ajudam a ver as coisas de uma forma totalmente diferente. É bizarro que militantes dêem crédito ou culpem o presidente pelo nível médio dos salários ou pela desigualdade no país. Se os salários estão subindo, o presidente irá se vangloriar por todos os bons empregos que a economia está criando. Se os salários estão caindo, então os críticos do presidente culpam o presidente. Mas o nível dos salários nos Estados Unidos não está sob o controle do presidente. É um fenômeno emergente que surge das escolhas feitas pelas pessoas acerca de quanta educação possuir, quantas horas irão trabalhar e a mistura da satisfação monetária e não monetária que as pessoas escolhem em trabalhos variados.

O presidente não controla os salários de um país mais do que controla o peso médio dos cidadãos. Ele pode influenciá-los através de várias políticas que afetam os incentivos que dispõem os trabalhadores e empregadores. Mas sua mão não paira sobre o botão que ajusta os salários, bem como não está sobre o botão que controla o peso das pessoas. Como mostram os exemplos acima, muitas políticas que um presidente ou um legislador pode propor para melhorar algo são, freqüentemente, compensadas pelas forças do mercado.

Disponível por um preço

Um das idéias mais simples que vem da oferta e da demanda é a da disponibilidade de bens no mercado. Quando as pessoas querem uma maior quantidade de algo, a parte mais entusiasmada dos consumidores raramente esgota a oferta. Os preços se ajustam para equiparar o quanto as pessoas desejam comprar a quantas pessoas desejam vender. Então, se as pessoas subitamente desejam uma maior quantidade de algo, esse produto não desaparecerá simplesmente. O preço aumentaria, induzindo um aumento da disponibilidade do produto. Como Henry George apontou:

”Eis uma diferença entre o animal e o homem. Tanto o abutre quanto o homem comem galinhas. Assim, quanto mais abutres, menos galinhas. Por outro lado, quanto mais homens existirem, mais galinhas existirão. Tanto a foca quanto o homem comem salmões, porém, quando uma foca come um salmão, há um salmão a menos, e se o número de focas crescer além de certo ponto, a quantidade de salmão deve diminuir. Por outro lado, ao colocar as ovas de salmão sob condições favoráveis, o homem pode, dessa forma, aumentar o número de salmões em razão maior do que aquela que pescamos, assim, não importa o quanto a quantidade de homens possa vir a aumentar, esse aumento não ultrapassará a oferta de salmão”. [Progresso e Pobreza, Livro II, Capítulo 3, par. II.III.5.]

Porque os preços possuem a capacidade de se ajustar, as prateleiras raramente estão vazias em uma economia de mercado. Enquanto você desejar pagar por algo, você o terá. Às vezes, você terá de pagar um pouco mais. Às vezes, um pouco menos, já que as circunstâncias mudam. Mas você poderá encontrar o que precisa. Isso não faz a vida ser mais simples apenas para aqueles entre nós que gostam de salmão, isso também significa que você pode se especializar e confiar nos outros para a maioria das coisas que você deseja, sabendo que o mercado fará com que elas estejam disponíveis.

A advertência

Nem todos os preços são determinados no ambiente que os livros chamam de mercados perfeitamente competitivos. A oferta e a demanda são ferramentas pobres para a previsão precisa dos níveis exatos dos preços. Qualquer transação individual pode se desviar do preço exato por causa de erros ou emoções. Em muitos mercados, um grande comprador, ou vendedor, pode afetar o preço de formas importantes. Mas a constatação de que o mercado não é um exemplo de competição perfeita não significa que a oferta e a demanda não possam capturar o suficiente da competição que permanece. Para tomarmos um exemplo extremo, o mercado de gasolina nos Estados Unidos é lotado tanto de regulações quanto da magnitude do poder de mercado, que existe em várias partes da cadeia de fornecimento. Mas, ainda assim, existe uma competição por todo aquele mercado, mesmo que essa competição não corresponda às definições dos livros.

Negociar e trocar

Adam Smith falou sobre a tendência do homem à negociação e à troca. As pessoas estão sempre comprando e vendendo coisas. Sempre procurando fazer negócio. Sempre procurando por um bom negócio. Sempre considerando as alternativas. A busca por um bom negócio, tanto para os compradores, quanto para os vendedores, sendo consideradas as alternativas, seria o que os economistas chamam de competição. O resultado disso é que as transações no mercado não são independentes umas das outras.

De onde vêm os preços? Os preços que observamos no mundo à nossa volta emergem da interação entre vendedores, compradores e de suas alternativas. Como nós podemos apreender o estranho fato de que nenhuma transação aconteça no vácuo? Como podemos apreender a ordem que emerge a partir dessas transações?

A análise da oferta e da procura é uma maneira simples e poderosa de descrever as formas pelas quais as transações pelo tempo e espaço não são independentes umas das outras. É uma forma poderosa de organizarmos nosso pensamento a respeito da complexidade que emerge a partir da tendência à negociação e à troca, uma complexidade que é resultado da ação humana, mas não de um desígnio humano.

Original publicado em EconLib.org .

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