Um refugiado em minha casa
por Diogo Costa
Abriguei um refugiado nepalês na minha casa por algumas semanas. Há vários meses, Adarsh (vamos chamá-lo assim), de vinte e poucos anos, vinha publicando artigos que criticavam os socialistas nepaleses. Seu textos não geravam muita reação, exceto alguns telefonemas mal-educados. Mas a situação piorou quando o rapaz traduziu e publicou o livro de um eloqüente liberal francês do século XIX que criticava abertamente os socialistas de seu tempo. Com o livro, Adarsh pretendia disseminar os ideais de tolerância, liberdade individual e governo limitado.
As críticas libertárias ofenderam as crenças maoístas do Partido Comunista do Nepal. Uma noite, Adarsh foi cercado por membros da juventude do partido, que, em meio a xingamentos, ameaçaram matá-lo se continuasse a publicar suas idéias. "Eles diziam ser os verdadeiros defensores da liberdade", lembra Adarsh, "mas que tipo de liberdade não tolera pontos de vista diferentes?"
A ameaça mostrou-se verdadeira dias depois, com a publicação de outro artigo seu por um jornal de circulação nacional. Adarsh começou a perceber que estava sendo seguido. Conseguia identificar os mesmos jovens que o haviam abordado. Conta que, na última noite que passou em casa, só conseguiu escapar porque alcançou sua moto a tempo. Depois disso, Adarsh teve que se hospedar em diferentes casas até conseguir comprar sua passagem para o exterior.
O Nepal é um país espremido por dois gigantes, a Índia a sudoeste e a China a nordeste. A manutenção de sua independência deve-se sobretudo à sua posição naturalmente estratégica, no meio do Himalaia. Mas, se as cordilheiras conseguem impedir a invasão de exércitos, de pouco adiantam para conter a invasão de ideologias. Em 1996, a insurgência maoísta no país iniciou a "guerra do povo". Desde então, mais de 15 mil nepaleses foram assassinados pelos guerrilheiros comunistas, um número impressionante para um país de 28 milhões de habitantes.
Aqueles que ousam se opor aos maoístas são às vezes torturados e executados em público para servir de exemplo. Durante essa guerra civil, mais de 100 mil nepaleses tiveram de buscar asilo. As pessoas fogem para outras partes do país, para a Índia, para os Estados Unidos. É melhor fazer parte da estatística dos exilados.
A situação precária do Nepal tem provocado alguma mobilização internacional. Grupos ativistas de direitos humanos estão presentes no país, mas há dúvidas quanto à sua atuação. Adarsh acredita que "esses grupos são eficientes na denúncia das violações dos direitos humanos pelo governo, mas pouco dizem a respeito das violações cometidas por grupos de extrema esquerda. Eles às vezes estão mais preocupados em defender compromissos ideológicos do que a vida e a liberdade das pessoas".
Ao falar das perspectivas para o futuro, Adarsh mostra uma ponta de otimismo. Sua maior esperança está na democracia. Ele acredita que eleições livres e abertas significariam uma derrota política e moral para o partido maoísta, que hoje conta com 83 membros no parlamento. No entanto, as eleições que ocorreriam em novembro foram adiadas por tempo indeterminado.
Enquanto esteve comigo, Adarsh traduziu outros textos para serem publicados na internet. Ele pretende voltar para o país assim que houver estabilidade política. "Tenho uma luta pela frente", diz o jovem que não acredita que o comunismo foi derrubado junto com o império soviético. "Sem um Estado modelo, o socialismo está difuso em diversos movimentos e organizações, e disfarçado por diferentes discursos".
A batalha intelectual de Adarsh é parecida com aquela que o liberal que ele traduziu para o nepalês enfrentava há 150 anos. O autor não atacava o socialismo para preservar uma estrutura social conveniente, mas porque acreditava na liberdade de as pessoas governarem a própria vida. "O que contesto nos socialistas não é o direito de inventarem arranjos sociais, de divulgá-los, de propô-los e de experimentá-los consigo mesmos. O que discuto é o direito de nos imporem tudo isso por meio da lei, ou seja, da força".
Adarsh quer voltar para construir no Nepal uma sociedade onde não se use de força contra quem quer escrever, falar, trabalhar, comprar e vender. Uma sociedade onde escolhas não sejam crimes, e onde as pessoas não sejam perseguidas por defenderem a tolerância. São ideais que merecem o amparo de toda a humanidade.
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Comentários
Muito bom Diogo, continue
Muito bom Diogo, continue nessa luta. Estamos juntos nessa. Leio OrdemLivre.org TODOS os dias. E já estou começando a investir na política, com amigos também liberais, federalista e conservadores.
att,
Renan Flausino
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