A ilha deserta: O poder do comércio
por Russell Roberts
Parte I. A Aparentemente Simples História da Vantagem Comparativa
Todos nós possuímos uma boa compreensão intuitiva sobre o poder do comércio. Em seu nível mais simples, se você possui algo que eu quero, e eu possuo algo que você quer, fazemos uma troca, e nós dois levamos vantagem.
Então, se eu sei tricotar e você não sabe, e se você cultiva milho e eu não, obviamente fará sentido para mim, trocar um dos meus casacos por um pouco de seu milho. Você e eu poderemos discutir o “preço” – quantas espigas de milho valem um dos meus casacos. O que importa é que, feito o negócio, você estará mais aquecido e eu poderei finalmente matar minha fome.
O comércio parece simples.
Há quase duzentos anos, David Ricardo descobriu algo que não era tão simples a respeito do comércio, algo que veio a ser chamado de vantagem comparativa. Essa é uma história que nos levará, juntos, à exploração dos mistérios do comércio.
A Ilha do Tesouro
Era uma vez, Pete e Pamela Palmer, de Nova York, NY, que navegavam sozinhos pelos mares do sul em sua lua de mel. Certo dia, amedrontados pelo céu, que enegrecera subitamente, os Palmers tentavam conduzir sua pequena embarcação de volta para casa, mas já era tarde demais. Eles se encontravam em meio a uma terrível tempestade tropical e acabaram sendo arrastados para longe da marina do resort, onde estavam hospedados. O veleiro virou e o casal chegou com dificuldades a uma ilha, que tinham conseguido avistar em meio às ondas agitadas e a chuva.
Os Palmers exploraram a ilha. A maior parte dela era rodeada por grandes penhascos. Somente a praia, por onde haviam chegado, permitia um acesso fácil ao oceano. No centro da ilha havia uma fonte de água pura. Eles não encontraram sinal algum de habitação humana.
Os Palmers dormiam próximos à praia, assim, poderiam ter o dia inteiro para caçar peixes com uma lança afiada. Eles encontraram cascas de coco quebradas para buscar água fresca na fonte do centro da ilha. Eles passavam seus dias pescando e buscando água na fonte, esperando serem resgatados. Porém, nenhuma ajuda apareceu.
A situação não era muito promissora. Pete era um design gráfico de uma famosa agência de publicidade na cidade de Nova York. Pam era a responsável pela tecnologia da informação na mesma firma. Nenhum deles era muito preparado para sobreviver em uma ilha.
A viagem de ida e volta ao centro da ilha, onde estava a fonte de água fresca, lhes tomava todo o dia. Nem Pete, nem Pam, eram capazes de carregar mais do que duas cascas de coco com água para o abrigo que tinham feito a partir de folhas de palmeiras. E se Pete ou Pam ficasse pescando, um deles, em um dia inteiro de pescaria, conseguiria pescar apenas dois dos esquivos peixes que se lançavam às águas rasas.
A pouca caça freqüentemente lhes deixava com fome. Se os dois Palmers pescassem, poderiam consumir o dobro do número de peixes, mas quando tentaram essa tática, a falta de água lhes trouxe desidratação e tontura, o que fez com que sua pescaria fracassasse. Tudo que poderiam fazer era tentar sobreviver até que fossem resgatados.
Certa noite, houve uma tempestade. A chuva caía torrencialmente. Um flash de luz iluminou a praia e o oceano. Seria uma pessoa, aquilo que lutava contra a água? Eram duas pessoas! Outro casal havia sido vítima de um naufrágio.
Os Palmers ajudaram os dois jovens a sair da água. Fred e Felicia Fisher, de San Diego, Califórnia, também em lua de mel, desmoronaram aos pés dos Palmers, exaustos por seu martírio.
Na manhã seguinte, a tempestade tinha passado e os Palmers mostraram aos Fishers o poço de água, os cantis improvisados com cascas de coco e as varas afiadas que usavam para pescar.
Antes do fim da semana, já era claro que os Fishers estavam mais preparados para viver em uma ilha do que os Palmers. Os Fishers eram mais altos e mais fortes. Os Palmers notaram que tanto Fred quanto Felicia poderiam voltar do meio da ilha carregando três cascas de coco de cada vez, ao invés das duas que qualquer um dos Palmer conseguia carregar sem desperdício. E eles também pareciam ser melhores pescadores.
Infelizmente, algo mais estava claro para os Palmers. Os Fishers não queriam nada com eles. Qualquer tentativa de amizade ou cooperação era rapidamente rejeitada. Então, os Palmers continuavam a trabalhar, esperando pelo resgate e fazendo o melhor que podiam.
Passaram-se semanas e meses. Certa noite, os Fishers assavam um peixe recheado com ervas, que plantavam no herbário que conseguiram iniciar por possuírem uma casca extra de coco cheia d’água.
Uma brisa trouxe o aroma delicioso até os Palmers. Pete não gostou nada disso.
“É só um peixe”, disse Pam. “Eu acho que nós estamos perdendo peso,” Pete respondeu. “Eu estou muito magro?”
“Não.” mentiu Pam. Ele realmente estava mais magro. Ela sabia que estava perdendo peso também. Suas roupas estavam mais largas do que estavam quando eles chegaram. Era um fato.
“Nós temos que conseguir mais comida,” disse Pete. “Mais proteína. Eu tenho pensado sobre isso nos últimos dias. Parece que temos três opções e nenhuma delas é muito cativante.”
Pete descreveu as três opções para sua esposa:
1. Saque – atacar os Fishers e roubar alguns de seus peixes.
2. Caridade – implorar aos Fishers por alguns peixes.
3. Investimento – deixar de consumir hoje para consumirmos amanhã – imaginar uma forma de fazer uma rede ou uma vara melhor.
Eles concordavam que o saque nunca funcionaria. Os Fishers eram maiores e mais fortes. A caridade estava fora de questão. Os Fishers não pareciam muito benevolentes. O investimento não era viável. No momento em que encontrassem uma forma de fazer uma rede ou uma lança melhor, já estariam mortos de fome. Então, o que poderiam fazer?
“Engraçado, você ter mencionado ‘saque,’” disse Pam. É uma palavra tão fora de moda. Eu tive um professor de economia que até falava bastante sobre saque. Ele dizia que até o nascimento do capitalismo, o saque era a principal caminho para se progredir. Você golpeava seu vizinho na cabeça e levava suas coisas. Isso é algo bem interessante sobre o saque. Aparentemente, o saque apenas rearranja o bolo econômico.”
“Você está certa,” disse Pete, feliz por esquecer seus problemas por um momento e pensar um pouco sobre o impacto do saque. “O roubo significa mais para mim e menos para o meu vizinho. A quantidade total não muda.”
“Isso parece correto, porém, meu professor dizia que o roubo, na verdade, faz o tamanho do bolo caso seja medido corretamente, ser menor.”
“O que você quer dizer com ‘medido corretamente’, perguntou Pete.
“Se seu vizinho pode golpear sua cabeça, você constrói uma cerca, você tranca suas portas, você compra uma arma. Todas essas coisas fazem parte do bolo econômico, mas elas são o tipo de atividade econômica da qual você não extrai nenhum prazer. São coisas que você faz para manter a parte do bolo que realmente lhe importa. Então, o bolo verdadeiro, a parte que lhe faz feliz ou lhe proporciona satisfação é, na verdade, menor. Além disso, se você acha que seu vizinho pode lhe atacar, você não se importará em fazer seu bolo crescer. É como aquela rede de pescar que você mencionou. Mesmo que conseguíssemos fazer uma rede antes de morrermos de fome, os Fishers iriam roubá-la de nós. Então, por que fazê-la? O roubo diminui o bolo e o mantém diminuído.”
“Ótimo. Então agora você sabe por que estou deprimido. Nós precisamos de um milagre. Alguém tem que nos encontrar logo e, considerando o tempo que já estamos aqui, as chances de isso acontecer não são muito boas.”
“Espere um pouco,” disse Pam, perdida em seus pensamentos.
“O quê?”
“Espere.” Pam permaneceu calada por um momento.
“Tem que haver uma quarta opção.”
“Uma quarta opção? O que você quer dizer?”
“Saquear, pedir, tecer uma rede de pescar. Essas são as três opções. Mas há uma quarta. Eu aprendi isso nas minhas aulas de economia.”
“Ah, ótimo,” disse Pete. “Deixe-me adivinhar. Já sei! Vamos fingir que temos mais peixes!” Pete balançou sua cabeça. Ele tinha tido aulas de economia na faculdade. Um monte de teorias e hipóteses tolas que tinham pouco a ver com a realidade. Os economistas não eram nada realistas.
“Você está quase lá,” disse Pam. Ela pegou uma vara e começou a fazer marcas na areia. Ela observou as marcas, então as apagou, começando de novo, fazendo um novo plano.
Pete, também olhava com atenção. As marcas pareciam ser peixes e alguns círculos. O que elas significavam? Com certeza, algo que Pam entendia. Finalmente, ela fez um sinal. “Isso deve funcionar,” ela disse a si mesma.
“Que tipo de aula de economia foi essa? Economia egípcia? Isso parece hieróglifos.”
“Não, era uma aula de princípios da economia. Quando você mencionou o saque, isso me lembrou da coisa mais legal que aprendi naquela aula.”
“O quê? Ignorar todas as partes desagradáveis da realidade?”
“Não. Vantagem comparativa. A grande contribuição de David Ricardo à teoria econômica.”
“Eu já ouvi falar disso, Pam. Mas isso não tem a ver com comércio?”
“Tem. Nós vamos fazer comércio com os Fishers e isso vai salvar as nossas vidas.”
Ela fez mais algumas marcas na areia e mostrou a Pete o que ela tinha em mente. Havia muitas frações e relações para seu gosto, mas ele entendeu a idéia. “Talvez ela esteja certa”, pensou.
Na manhã seguinte, Pam e Pete gastaram metade do dia na viagem para a fonte de água, cada um encheu duas cascas de coco e as carregaram de volta para casa. Chegaram à praia, onde pescavam e dormiam, ao pôr do sol, muito tarde para qualquer um deles poder pescar. Pete não conseguia deixar de pensar que estavam cometendo suicídio ao deixarem de pescar. Especialmente no momento em que precisavam de mais proteína e não menos. Porém, Pete confiava em sua esposa.
Eles guardaram duas cascas cheias d’água perto de onde dormiam e levaram duas para onde os Fishers aproveitavam em seu pedaço de praia, observando o pôr do sol.
“Olá”, disse Pam. “Será que vocês estariam interessados em um pouco de água extra?”
“Com certeza”, disse Felicia Fisher. Ela pensou em como seria bom para eles ter um pouco mais de água. Ela poderia plantar mais algumas ervas. Poderia tomar banho sem precisar caminhar até a fonte e voltar tarde.
“Peraí, qual é a jogada?”, perguntou seu marido.
“Eu gostaria de fazer uma troca. Duas cascas com água, por quatro peixes.”
“Quatro peixes!” Fred Fisher estava furioso. Ele se levantou. “Quatro peixes! Nós pegamos seis peixes por dia. Se nós lhe dermos quarto, então…”
“Vocês pescam seis peixes por dia? Isso é maravilhoso. Isso significa…”
“Se nós fizermos esse acordo,” Fred Fisher interrompeu, “nós vamos ficar com dois peixes por dia. E eu ainda tenho fome depois de comer três peixes em um dia. Então, caiam fora.”
Depois de terem se distanciado um pouco, Pam teve uma idéia.
“Vamos dar essa água de presente para os Fishers.”
“Você está louca?”
“Não, acho que não.” E, mais uma vez, Pam explicou o que ela estava pensando. Enquanto os Fishers aproveitavam o pôr do sol, os Palmers deixaram a água na entrada da cabana deles. No dia seguinte, fizeram a mesma coisa. E no seguinte também, porém, na terceira vez, já estava escuro. Eles tiveram que andar mais devagar do que de costume – eles estavam fracos de fome.
Porém, no terceiro dia, enquanto deixavam a água para os Fishers, encontraram Felicia Fisher.
“Aqui está,” ela disse, estendendo seus braços. Ela entregou à Pam quatro peixes, embrulhados em folhas, para mantê-los frescos. “Aproveitem. Vocês foram mais inteligentes que nós.”
Os Fishers continuaram a fazer a troca diariamente, aceitando duas águas por quatro peixes. Isso acabou se tornando um bom negócio para as duas famílias. A oportunidade da troca mudou a forma pela qual os Fishers e os Palmers passavam seus dias.
Após o início das trocas, os dois Fishers iam pescar e pegavam 12 peixes. Após darem quatro aos Palmers, em troca de duas águas, eles ainda ficavam com oito peixes, dois a mais do que costumavam ter quando eram auto-suficientes.
Eles tinham um coco de água a menos, mas poderiam sobreviver com dois cocos de águas por dia. Suas ervas morreram. Porém, ter oito peixes simples todos os dias era melhor do que seis um pouco mais gostosos.
Os dois Palmers saíam para buscar água todos os dias. Após darem duas águas para os Fishers, eles conseguiam quatro peixes, dois a mais do que tinham quando eram auto-suficientes.
A Vantagem Comparativa
A lição da história é que os Fishers possuem uma vantagem comparativa na pesca. Embora sejam melhores que os Palmers tanto na coleta da água quanto na pesca, os Fishers possuem maior vantagem comparativa na pesca. Eles são relativamente melhores pescando do que são buscando água, em comparação com os Palmers.
Note que há dois sentidos de comparação da frase anterior – nós estamos comparando a pesca com a coleta da água, e os Fishers com os Palmers. A vantagem comparativa não tem significado algum em um mundo onde exista apenas um bem ou em uma economia onde só exista uma família.
Porém, a complicada natureza da “vantagem comparativa” também nos traz confusão, quando pessoas dizem coisas como “a lição da vantagem comparativa é fazer o que você faz de melhor” ou “a lição da vantagem comparativa é fazer o que você faz ‘relativamente bem’”. O que exatamente significam essas afirmações? Como se aplicam de uma forma geral ao comércio internacional, em um mundo com tantas nações e tantos bens e serviços?
A forma mais fácil de compreender a lição da vantagem comparativa é ver que há duas formas pelas quais os Palmers podem conseguir os peixes, a forma direta e a forma indireta. A forma direta é pescar. A forma indireta é ir buscar água e trocá-la por peixe. Qual é a melhor? Depende de qual forma é a mais barata. Se os Palmers pescam, eles devem sacrificar quatro águas em favor de quatro peixes. Se os Palmers comercializam com os Fishers, só lhes custariam duas águas, os quatro peixes. A forma indireta é mais barata para os Palmers.
Para os Fishers, a lógica é oposta. Mesmo sendo melhores que os Palmers na coleta de água, é mais barato para os Fishers obter água a partir da pesca, trocando-a por seus peixes. E é mais barato para os Fishers obterem peixes pescando, de forma direta. Não haveria uma forma pela qual os Fishers obtivessem água diretamente e ainda pudessem fazer algum comércio com os Palmers, que resultasse em vantagem às duas famílias.
Um visitante, chegando à ilha para resgatar as duas famílias, veria uma família que era boa na pesca e outra que era boa na coleta da água. A situação se pareceria com aquela que eu contei no começo desse ensaio – se você é bom no plantio do milho e eu sou bom no tricô, nós poderíamos trocar casacos por milhos. Então, os Fishers trocavam alguns de seus peixes por um pouco da água dos Palmers. Porém, o visitante estaria, claramente, negligenciando o fenômeno que estava acontecendo na realidade. O que o visitante vê mascara o que está realmente acontecendo.
Mesmo um visitante que descobrisse a história da ilha poderia se enganar sobre o poder da especialização. Nós geralmente pensamos nos ganhos da especialização como se viessem da melhora no desempenho de uma tarefa a partir de sua repetição constante. Porém, ninguém na ilha melhorou seus trabalhos.
Então, de onde vieram os peixes extras? Mesmo no mais simples dos mundos, nesse mundo da Ilha Deserta, onde duas famílias trocam entre si dois bens, as coisas não são simples. E quais são as lições da vantagem comparativa no mundo real, no mundo onde vivemos, onde há milhões de nós trocando milhões de bens e serviços através de fronteiras internacionais, um mundo onde empregos são destruídos e criados, ao invés de serem apenas realocados, como são na Ilha Deserta, um mundo onde as regras do comércio são estabelecidas pelos mercados, ao invés de serem definidas em uma negociação entre duas partes em apuros? Seria a simples lição ricardiana da vantagem comparativa alguma coisa além de um bom exemplo retirado de livros que gera questões complicadas em provas?
Eu vou tentar e responder essas perguntas no próximo ensaio.
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Comentários
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Excelente.
Romualdo
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