Apontamentos sobre política



por José Bonifácio de Andrada e Silva

“Poderão acusar-me de que galhofava com Pedro – porém, se o conhecerem a fundo, como eu o conheço, verão que era assim preciso, para lhe ganhar o coração e podê-lo encaminhar ao bem e aos negócios públicos. Por mais sábio e honrado que seja um homem, se ele não souber interessar as paixões e as frivolidades dos grandes, nada poderá alcançar deles para os fins de utilidade pública. É verdade que, apesar de todas as minhas boas manhas, nunca pude conseguir que se quisesse séria e constantemente o bem – alma dura e volátil, nunca fez bem por amor da virtude.

Os brasileiros querem ter liberdade; mas liberdade individual, e não as que tinham nas repúblicas antigas, que era a pública ou política. Não estão em estado de fazerem sacrifícios contínuos pessoais, para figurarem nas assembléias e na administração: assim temo muito que o nosso edifício social não acabe em pouco tempo, logo que afrouxe o entusiasmo momentâneo que o gerou.

Fui deportado, creio que só por medo; mas que puerilidade de haver-se medo de um individuo, em um vasto Estado, onde a influência individual se perde em um montão de influências individuais, de riqueza, parentela, vaidades territoriais, etc. Ninguém tem direito,diz um sábio escritor de arrancar o cidadão de sua pátria, o proprietário de seus bens, ao negociante de seu comércio, ao esposo de sua esposa, o pai de seus filhos, ao escritor das suas meditações laboriosas. Todo desterro é um atentado político; embora sejam os motivos coonestados com a salvação pública, a qual só repousa no respeito da lei, e na observância das fórmulas judiciárias, que são as garantias legais do cidadão!

Como se pretende escravizar o Brasil com aparências liberais, mais transparentes que o vidro? Todo projeto que ataca a opinião pública não pode ter consistência duradoura. O Brasil quer ser livre; e tem o exemplo em todos os recentes Estados que o rodeiam. Esse é e deve ser o voto nacional. Tudo o mais são puerilidades e inconseqüentes sandices do orgulho cego, e do estúpido corcundismo. Fujam de nós os Ápios embuçados no capote dos Gracos: os homens avisados os conhecem, e todo o Brasil em curto tempo também os desmascarará. Que ministros chamou Pedro? Non tali auxilio, nec defensoribus citis Tempus eget.(...)

Em que se fundam os absolutistas do Brasil para quererem perjuras? Na opinião geral, não, porque os brasileiros são americanos; na reação das classes privilegiadas, não, porque as não há, senão de ricos e pobres. A nobreza é enfatuação passageira; o clero quer gozar do que tem, e ninguém lhe disputa. O Império constitucional era o mais análogo aos seus costumes, e com a liberdade que este firmava e garantia todos ficavam contentes, sem que fosse preciso recorrer com amargos sacrifícios ao ideal republicano, que a experiência de seus vizinhos lhes apresentava anárquico e violento. Assim os doidos absolutistas se desenganem, pois se fizerem a contra-revolução esta não se firmará, mas sim começarão novas reações, e o republicanismo triunfará.

Que outro meio me restava para mostrar que não aprovava o sistema novo que se ia introduzindo no Estado, senão dar a minha demissão? Este é o único meio constitucional e legítimo de exprimir respeitosa desaprovação das novas medidas; é uma advertência sem tumulto que se faz a um governo que sai do verdadeiro caminho. Os homens de bem não servem à pátria associando-se a um mau sistema; antes a servem roubando a este sistema a sua preponderância e autoridade. Uma fraqueza e condescendência arrasta outra, e por fim se desonram e arruínam a pátria com o seu exemplo e administração, ainda quando tenham as melhores intenções.

Os corcundas que perderam pela revolução a antiga reputação e influência crêem que a recobrarão pela contra-revolução – enganam-se, acabou-se-lhes o seu tempo.

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