A ilha deserta: O poder do comércio parte II. Como o comércio transforma o nosso padrão de vida

por Russell Roberts

Superficialmente, o comércio parece simples. Você possui algo que eu quero, eu possuo algo que você quer, nós fazemos uma troca e ambos levamos vantagem. Ainda assim, o poder mais profundo do comércio continua escondido. O lado invisível do comércio é o seu impacto sobre como utilizamos nosso tempo e nossos salários. A possibilidade de fazer trocas com outros, seja com nossos vizinhos no outro lado da rua ou com nossos vizinhos do outro lado da fronteira nos dá a oportunidade de contarmos com outras pessoas para o fornecimento de alguns ou da maioria dos bens e serviços que desfrutamos. Em troca, essa confiança mútua possibilita, até para os mais pobres entre nós, um padrão de vida que seria inimaginável sob um regime de auto-suficiência. Mas como é que o comércio transforma nosso padrão de vida?

Para começar a responder essa pergunta, eu contei, na primeira parte desse artigo, a história dos Fishers e dos Palmers, dois casais recém-casados que acabam em uma ilha deserta após acidentes com seus barcos, procurando desesperadamente comida e água. Os Palmers mal conseguem obter água fresca e peixes suficientes para sobreviver. Os Fishers são melhores em ambas as tarefas. Mas embora os Palmers sejam inferiores nos dois trabalhos quando comparados aos Fishers, eles ainda tinha algo a oferecer – o seu tempo. Ao coletarem água para os Fishers, sobrava para os Fishers mais tempo para pescar. E ao pescarem para os Palmers, os Fishers criavam mais tempo para os Palmers coletarem água.

No exemplo que usei, os Fishers possuem uma vantagem comparativa na pesca. Mesmo que coletem água melhor do que os Palmers, coletar água significaria não pescar. É melhor para os Fishers produzirem água pelo que eu chamo de forma indireta – pescando e trocando o peixe por água. Similarmente, os Palmers possuem uma vantagem comparativa na coleta de água. Embora sejam capazes de pescar, o custo da pesca é alto – pescar significa abrir mão do tempo utilizado para a coleta da água. É mais vantajosa para eles a obtenção de peixes através da coleta da água e de sua troca por peixes.

O resultado é um padrão de vida melhor para ambas as famílias. Mas como isso acontece?
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O Poder da Especialização

A especialização é a resposta. Quando pensamos nos benefícios da especialização, pensamos no aprendizado pela prática, na produtividade extra que acontece quando se faz a mesma coisa repetidamente. Esse efeito da especialização pode ser muito poderoso. Se você cultivar apenas cedros, você aprenderá muito sobre como os cedros crescem e morrem. Você aprenderá a responder a aumentos temporários e permanentes no preço do cedro. Você se tornará um usuário mais eficiente de terra, equipamentos e mão-de-obra. Dessa maneira, pode ser produtivo ter alguém que seja especialista no cultivo de cedros, ao invés de termos, por exemplo, o fabricante de lápis se especializando não apenas na montagem dos lápis, mas no cultivo dos cedros necessários para produzir a madeira dos lápis.

Mas o aprendizado pela prática não é a origem do aumento da produtividade dos Fishers e dos Palmers. Na verdade, ninguém se tornou mais produtivo. A origem do aumento da produtividade foi simplesmente a melhor distribuição das pessoas em suas várias tarefas. Seria mais fácil dizer que as pessoas foram distribuídas com base no que faziam de melhor, porém, essa afirmação não significa muita coisa. Afinal de contas, os Fishers eram os melhores coletores de água e eles abriram mão de coletá-la pessoalmente.

As pessoas se alocaram em tarefas que possibilitavam uma maior produtividade, e essa maior produtividade leva em conta a importância de um excesso de proteína em relação à redução da água. As trocas permitiram as duas famílias utilizarem o único recurso verdadeiramente escasso na ilha – o tempo das famílias – com o máximo de produtividade.

Na primeira parte dessa história, eu retratei os Fishers como sendo frios, cruéis e pouco amigáveis. Eles faziam trocas com os Palmers estritamente por interesse próprio. O que é mais interessante a respeito da divisão de tarefas ocorrida após o inicio das trocas é que seria essa a divisão com a qual os Palmers e os Fishers concordariam caso fossem membros de uma única família. Todavia, a mão invisível do auto-interesse induziu as duas famílias a criarem o mesmo nível de produção que criariam em uma situação em que realmente se importassem uns com os outros.

O comércio é, fundamentalmente, cooperação. Suas capacidades me permitem potencializar minhas capacidades, me especializando, satisfazendo a mim e a você. Note que não há nada constante a respeito da vantagem comparativa. Se os Fishers conseguissem escapar da ilha, uma nova família chegasse e ela também fosse melhor que os Palmers em ambas as atividades, mas em uma proporção diferente, os Palmers poderiam possuir uma vantagem comparativa na pesca, mesmo que nada tenha mudado em relação às suas habilidades. A lição é que o melhor uso do seu tempo em um mundo de trocas depende das habilidades dos outros. Nossas diferenças criam o potencial para a especialização e a criação de riqueza.

O comércio baseado em nossas diferenças é uma das fontes de especialização. A outra vem da idéia de Adam Smith, segundo a qual a divisão do trabalho é limitada pela extensão do mercado. A especialização smithiana vem do que podemos chamar de economias de escala. Quando há famílias suficientes coletando água ou famílias suficientes pescando, alguém poderá sobreviver produzindo cantis ou redes de pescar. E quando o mercado de cantis e redes de pescar crescer o suficiente, esses produtos poderão ser produzidos por trabalhadores, através de uma linha de montagem ou de um processo de produção, ao invés de artesãos solitários. Ambas as formas de especialização, o comércio baseado em nossas diferenças e as economias de escala baseadas na expansão do mercado, aumentam nossas oportunidades para além do que poderiam crescer sob a auto-suficiência.

A auto-suficiência é o caminho para a pobreza. O comércio cria riquezas por me permitir utilizar as suas habilidades em conjunto com as minhas.

A história de como o comércio aumenta as oportunidades não tem nada a ver especificamente com o comércio internacional – o comércio através das fronteiras criadas por homens. Não há nada de significativo a respeito da nacionalidade ou do local de nascimento ou dos sotaques ou da língua das pessoas que fazem as trocas naquela história.
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A Especialização na Economia Moderna

Qual é a lição da vantagem comparativa, da especialização e da história dos Palmers e dos Fishers para as nossas vidas?

A lição da vantagem comparativa é que, se por um lado, sempre vale à pena fazermos bem o que fazemos, nem sempre vale a pena fazer tudo que fazemos bem. Isso mesmo. Nem sempre vale a pena fazer tudo que fazemos bem. Um CEO, mesmo que seja um grande cozinheiro, ainda pede comida para viagem, que não é tão boa quanto a que o CEO poderia fazer. O custo de cozinhar não é apenas a conta do supermercado – é também o tempo retirado da administração da companhia.

Vejamos o caso de Jane Galt, o pseudônimo de uma jornalista bem sucedida que tem um blog sobre economia e política. Evidentemente, ela ama cozinhar. Recentemente, Galt escreveu sobre os melhores utensílios para cozinhas. Suas descrições me fizeram querer comprar todos – ela escreve muito bem e sua paixão por coisas legais é contagiosa. Um visitante do site comentou, talvez ironicamente, que a não contratação de Jane para ser redatora de um catálogo de utensílios para cozinhas era uma prova de que os mercados não funcionam bem. Porém, obviamente, a verdade é o oposto. Jane continua a ser jornalista justamente porque os mercados funcionam bem – mesmo que ela fosse uma boa escritora de catálogos, ela é ainda melhor como jornalista. Para Jane, sua transformação em escritora de catálogos seria custosa, mesmo que ela fosse muito boa nisso. Eu presumo que os fabricantes de utensílios para cozinha não podem pagá-la o suficiente para afastá-la de seu trabalho como jornalista.

A mesma lição se aplica a um país. Só porque os Estados Unidos poderiam fazer televisores fabulosos, não significa que deveríamos ter uma indústria para produzi-los. O custo de se produzir televisores é se produzir menos outro produto. Pode ser melhor produzir aquele outro produto e trocá-lo com estrangeiros por televisores. Permitir que pessoas de fora dos Estados Unidos nos vendam televisores e carros e relógios e aço e sapato, libera recursos para que possamos fazer mais produtos que valorizamos.

Ou vejamos o caso Bill Belichick, o técnico do New England Patriots, que se graduou em economia. Provavelmente, ele poderia ter sido um bom economista. Mas ele também é um bom técnico de futebol. A explicação mais simples seria a de que ele é melhor treinador de futebol do que economista. Porém, essa não é uma afirmação significativa. O que poderia “melhor” possivelmente significar no sentido diário da palavra? Se Belichick tivesse vivido nos anos 1930, ele poderia ter escolhido a economia como a sua profissão. Mas a produtividade de um técnico de futebol em 2006 é bem maior do que era em 1930. Assim, ele se tornou treinador. O uso mais produtivo do tempo de alguém depende das habilidades que os outros podem prover. Mas isso também depende do valor dessas habilidades. Como o futebol é muito popular hoje, em comparação a 1930, se tornar um economista era um caminho muito mais caro para Belichick.

Esses exemplos do mundo real nos ajudam a compreender o significado do comércio no mundo real, onde há milhões de pessoas, milhões de produtos e milhões de formas de gastarmos nosso tempo trabalhando no mercado. Em quais atividades eu possuo uma vantagem comparativa? Como eu poderia possivelmente fazer os cálculos da minha produtividade em relação à sua e a de todas as outras pessoas? Qual é a minha vantagem comparativa?

A existência de preços e salários torna possível uma resposta a essas perguntas impossíveis. Os preços e salários emergem a medida que fazemos trocas uns com os outros. Eles são um subproduto do comércio. Mas preços e salários são, por sua vez, o que faz o comércio ser tão poderoso em uma economia com milhões de pessoas desempenhando milhões de tarefas. Os preços e salários nos ajudam a decidir o que produzir por meio do comércio – o caminho indireto – e o que produzirmos nós mesmos – o caminho direto. Suponha que o peixe custe R$5,00 por quilo e que eu consiga pescar três quilos por dia. Agora, pensemos em meu salário dando aulas. Se eu posso ganhar mais de R$15,00 por dia dando aulas, eu escolherei lecionar e visitar o mercado de peixes no fim do dia. É o que acontece com a maioria das coisas que consumimos. Nós a produzimos pelo caminho indireto, comprando-as com o dinheiro que ganhamos trabalhando na atividade mais produtiva que o mercado encontra para nosso tempo.

Mas o dinheiro não é a única coisa que importa. Eu posso ainda dar aula, mesmo que eu ganhe menos de R$15 por dia, simplesmente porque eu prefiro lecionar em comparação à pescar. Eu também poderia pescar, mesmo que fosse “ineficiente” porque adoro pescar. Os preços e salários nos permitem escolher como gastar nosso tempo da forma mais produtiva possível, onde “mais produtiva” inclui as satisfações não-monetárias que recebemos por um trabalho, juntamente com o dinheiro. Sem preços e salários nós não teríamos meios possíveis para imaginar maneiras melhores de utilizarmos nosso tempo, em que deveríamos nos especializar e o que deveríamos deixar os outros fazerem por nós através do comércio.

Sem preços e salários, como Bill Belichick poderia saber que o era um bom hobby em 1930 havia se transformado em um trabalho de 80 horas por semana em 2006?

A história simples dos Palmers e dos Fishers captura muitas lições essenciais do comércio:

• O comércio cria riquezas. A auto-suficiência é o caminho para a pobreza.
• A especialização que vemos no mundo à nossa volta é resultado do comércio. Nós executaríamos tarefas bem diferentes e seríamos muito mais pobres se limitássemos o comercio interno ou externo.
• O recurso verdadeiramente escasso em nossas vidas é o tempo, e o comércio nos permite alavancarmos nosso tempo e produtividade de maneiras extraordinárias, através da cooperação com os outros.
• Nem tudo que fazemos bem como indivíduos ou como nação vale a pena ser feito.
• Para sabermos se vale a pena fazermos algo que fazemos bem, dependemos das habilidades e dos desejos daqueles que vivem ao nosso redor. O que é sensato e produtivo em uma época e local pode não ser sensato e produtivo em outra época e local.
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Enfrentando a Mudança Econômica

Qual é o elemento mais importante que se perdeu na história simples dos Fishers e dos Palmers? Nessa história simples, todo mundo ganha a partir do comércio o tempo todo. No mundo real, os aspectos distributivos são a fonte da maior parte da preocupação que alguns possuem em relação à globalização e à expansão do comércio. Porém, mesmo aqui, acredito que a história simples dos Fishers e dos Palmers tem algo a nos ensinar.

Vamos voltar à ilha, com os Fishers e os Palmers. Suponha que as duas famílias se acomodem na nova vida do comércio, onde os Palmers passam seus dias se especializando na coleta de água e os Fishers passam os seus dias pescando. Eles estão sobrevivendo e decidiram permanecer na ilha e criar suas famílias ali. Um dia, acontece algo que beneficiará uma família e prejudicará outra. Quais dos seguintes enredos você toleraria e quais você tentaria deter, caso você fosse o governante da ilha:

• Certo dia, um pescador sedento aparece na ilha. Ele tem dúzias de peixes em seu barco. Ele está ansioso para trocar muitos deles com os Palmers, por uma casca de coco cheia d’água, para conter sua sede em seu caminho para casa. Ele promete retornar no dia seguinte e, dia após dia, fazer a mesma troca. Os Fishers ficam desanimados. A demanda por suas habilidades está menor do que anteriormente.
• Certo dia, uma nova família chega à ilha após outro naufrágio. Essa família é exatamente duas vezes melhor do que os Fishers, pescando e coletando água. Os Fishers ficam desanimados. A demanda por suas habilidades está menor do que anteriormente.
• Certo dia, os Palmers descobrem uma nova enseada na ilha, onde pescar é muito mais fácil. Você só precisa estender a mão e pegar o peixe. Os Fishers ficam desanimados. A demanda por suas habilidades está menor do que anteriormente.
• Certo dia, os Palmers encontram uma forma de tecer uma rede. A rede lhes permite pegar tantos peixes quanto queiram. Os Fishers ficam desanimados. A demanda por suas habilidades está menor do que anteriormente.

Se você fosse o governante dessa ilha, você interferia em alguma dessas mudanças que afetaram os Fishers? Você impediria a importação de peixes? Você impediria a entrada de imigrantes que soubessem pescar? Você cercaria a enseada? Destruiria a rede? Você pode até querer saber se a queda do bem-estar dos Fishers é temporária ou permanente. Mas haveria alguma lógica em se tratar os dois primeiros enredos, os que envolvem o comércio, de uma forma diferente em relação aos dois últimos cenários, que envolvem aumentos na produtividade da enseada ou da rede?

O nosso sistema político os trata de forma bem diferente. O congresso não irá ajudar a Chrysler, caso a Ford encontre uma forma de produzir carros melhores e mais baratos. Porém, o congresso irá ajudar a Chrysler, caso a Honda faça carros melhores e mais baratos. Existiria alguma diferença fundamental entre esses dois exemplos? Carros mais baratos, sejam eles da Ford ou da Honda, fazem dos Estados Unidos, no fim das contas, um país mais rico, mesmo que nem todo americano se beneficie logo de saída.

E mesmo os Fishers poderiam se beneficiar da mudança econômica. Essa mudança cria a oportunidade para os Fishers abandonarem a pesca e se dedicarem a outra atividade produtiva. Existem mais coisas na vida para além da pesca e da água. E os Fishers possuem outras habilidades para além da pesca. Eles escolheram a pesca porque, naquele momento, aquela era a atividade mais produtiva para eles. Mas eles também podem fazer outras coisas. Agora que há peixes baratos disponíveis, o melhor uso para o tempo dos Fisher será outro. E se os Fishers lutarem para se adaptarem às mudanças na ilha, seus filhos certamente irão herdar um leque de escolhas bem mais amplo.

Sem aumento na produtividade ou sem a oportunidade de comercializarem para além das duas famílias, os Palmers e os Fishers viverão sempre próximos à subsistência. Porém, se as famílias na ilha podem agora adquirir peixes com mais facilidade, então os Fishers e seus filhos podem dedicar seu tempo para fazer outras coisas que enriqueçam suas vidas e as vidas daqueles em torno deles. Os Palmers terão a capacidade de pagar por aquelas coisas, agora que os peixes são mais baratos.

Essa é a história da vida econômica no século XX. A inovação e a expansão do comércio reduzem o número de trabalhadores domésticos necessários para a produção do que queremos. Ainda assim, o número de empregos não cai. O número de empregos cresce constantemente, junto com a população e com o desejo de trabalhar. Enquanto a inovação e o comércio reduzem o número de pessoas trabalhando na agricultura ou na manufatura, ela libera o capital e a capacidade humana para fazerem outras coisas que não poderíamos ter caso vivêssemos em um mundo estático - os antibióticos e os iPods e os telefones celulares e as válvulas coronárias e as máquinas de ressonância magnética e as TVs de tela plana. Coisas banais e coisas gloriosas. Coisas que entretêm e coisas que aumentam nossa expectativa de vida. Nossas habilidades e as da próxima geração podem se focar na criação e na fabricação dessas coisas.

Nem tudo que fazemos bem vale a pena ser feito. E mesmo as coisas que valem à pena serem feitas, não necessariamente valerão a pena amanhã. A auto-suficiência é o caminho para a pobreza. A inovação e o comércio são os caminhos para a prosperidade.

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