O Estado pesa sobre todos
por Lucas Mafaldo
Algumas pessoas tentam justificar a alta carga tributária brasileira dizendo que isso não é um problema tão grave, já que são os ricos que pagam a maior parte da conta.
É verdade que os impostos pesam mais sobre quem tem mais dinheiro, mas isso está longe de ser uma coisa boa. Esta idéia não apenas está baseada em um princÃpio errado – o de que o governo deveria ser um tipo de Robin Hood, roubando dos ricos para dar aos pobres – como em seu pressuposto: a de que altos impostos sobre os ricos prejudicam apenas os ricos.
Como a discussão de princÃpios é sempre um pouco complicada, nesse artigo limitar-me-ei a discutir o pressuposto: pretendo demonstrar como, ao prejudicar os ricos, o governo prejudica toda a população por tabela.
Peço que o leitor me acompanhe em um exercÃcio empático: coloque-se mentalmente na pele de um empresário que acaba de saber de um novo e gigantesco aumento nos impostos. O empresário consulta os balanços da sua empresa e verifica que o aumento consumirá efetivamente todo o seu lucro do próximo ano. Ou seja: ele não receberá um centavo pelo dinheiro que está investindo.
Imagine-se no lugar desse empresário, caro leitor, e comece a analisar suas alternativas. A primeira e mais óbvia opção, evidentemente, é fechar a empresa. Afinal, para que investir seu dinheiro em algo que não lhe dará nada em troca?
Além de esforço e do tempo que gasta administrando o negócio, o empresário ainda está arriscando perder o patrimônio investido. Se ele não vai receber nada em troca do seu trabalho e do seu risco, porque não simplesmente fechar a empresa e gastar o próprio dinheiro?
É fácil ver como isso prejudica os ricos, mas quais os efeitos que isso trará para os não ricos?
Em primeiro lugar, isso prejudicará os consumidores, que terão uma opção a menos de prestador de serviço; um restaurante a menos, uma loja a menos, uma livraria a menos. Em segundo lugar, isso prejudicará enormemente os funcionários, que ficarão sem emprego e sem renda.
O efeito direto dos impostos sobre os ricos, portanto, é fechar empreendimentos existentes ou impedir o surgimento de novos negócios. Desse modo, o aumento dos impostos prejudica tanto os ricos como todos os trabalhadores e consumidores que se beneficiariam desses empreendimentos.
Mas talvez nosso empresário não queira desistir de sua empresa. Nesse caso, ele terá que descobrir modos de contornar os novos impostos do governo.
Uma primeira alternativa é economizar na matéria prima. Se ele possui um restaurante, pode comprar uma carne de pior qualidade; se tem uma loja de roupa, um tecido mais simples. Desse modo, ele pode baixar seus custos e manter sua lucratividade, mas o consumidor terá um produto de qualidade inferior pelo mesmo preço de antigamente. Ou seja, o aumento dos impostos predicará diretamente os consumidores.
Uma segunda alternativa seria baixar os custos administrativos: demitir alguns funcionários, cortar salários ou aumentar a carga de trabalho de cada membro da instituição. Nesse caso, o aumento dos impostos implicaria em perdas financeiras e em piores condições de trabalho para os funcionários da empresa.
Uma terceira alternativa seria manter os funcionários e a qualidade do produto, mas aumentar o preço final, o que também prejudicaria os consumidores, que teriam que pagar mais pelo mesmo produto.
Portanto, se o governo tentar prejudicar os ricos aumentando seus impostos, as conseqüências negativas dessa medida se espalharão por toda a população. Isso ocorre porque as relações econômicas não são relações de exploração e de luta de classes, mas sim, de cooperação. O empresário precisa do funcionário tanto quanto o funcionário precisa do empresário. Uma empresa só cresce por causa das pessoas que trabalham nela, do mesmo modo que um trabalhador só sobe de vida se a empresa em que trabalha continuar crescendo.
O inverso também é verdadeiro: se o governo cortar os impostos e deixar mais dinheiro nas mãos das empresas, os efeitos benéficos dessa medida se espalharão por toda a população. Com mais capital para investir, a empresa poderá contratar novos funcionários, abrir novas divisões, lançar novos produtos – contribuindo, portanto, para o crescimento de toda a sociedade.
Mesmo que o governo financie seus gastos com o dinheiro de um único grupo em particular, isso não muda um fato fundamental: cada centavo gasto pelo governo é retirado dos setores produtivos da sociedade e, portanto, é um centavo que deixou de ser investido no aperfeiçoamento de projetos que estavam sendo úteis ao povo.
Por isso, o único item essencial de uma reforma tributária é reduzir o custo total do governo. Por mais que se altere a distribuição dos impostos, isso não irá mudar o fato de que todo o dinheiro gasto pelo governo será retirado da economia produtiva. Não importa quem paga. O que importa é que o Estado pesa sobre todos – e o seu peso enorme está continuamente nos empurrando para trás.
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Comentários
O estudo do Ipea
Foi publicado um estudo do Ipea segundo o qual os pobres pagam mais imposto: http://www.ipea.gov.br/003/00301009.jsp?ttCD_CHAVE=4529 . É o tipo de informação que faltou no artigo.
O Estado pesando sobre a sociedade
Amigo, nem toda boa idéia necessita de números a apoiá-la, de outro modo, não existiria a Filosofia de Platão, Aristóteles e semelhantes, que falam sobre a Verdade sem utilizar nenhuma cifra.
A imagem do "empresário que não recebe dinheiro" tão boa quanto a da "superfÃcie sem atrito" ou do "corpo pontual", ou seja, aqui temos uma hipótese, que serve como base para o desenvolvimento de uma idéia. Ainda assim, se não existe o "empresário que não recebe dinheiro", existem aqueles que estão a cada dia mais sufocados com essa carga monstruosa e crescente de impostos.
Agora pergunto eu, por que o rico deve ser mais sacrificado em tributos do que quem não o é? Será que aquele que melhora de vida e acumula riquezas com isso deixa de ser cidadão? Se torna menos que outros? Sendo assim, qual é o incentivo a melhoria? Lembro que, ninguém enriquece sozinho, ou seja, se eu subo, levo muita gente comigo que, se não enriquece pelo menos agora - a mesma coisa que eu, com certeza tem uma melhoria de vida; sugiro "A Teoria dos Sentimentos Morais" de Adam Smith, complemento ao livro "A Riqueza das Nações".
Quanto a última coisa, sobre paÃses com carga tributária alta e uma boa economia, penso: a economia ficou boa após e com essa carga tributária pesada? Ou era boa antes e luta todos os dias para não afundar sob esse peso?
O peso da falta de dados
Você não provou que "os impostos pesam mais sobre quem tem mais dinheiro". Em um artigo sobre carga tributária, é preciso apresentar dados (não há nenhum número no artigo).
Sua descrição do empresário que não recebe um centavo pelo dinheiro investido é pura especulação, sem base em fatos. Há diversos fatores que podem contribuir para o sucesso ou o fracasso de uma empresa, e portanto não há razão para supor que só a carga tributária deve ser levada em conta.
Também não foi dada justificativa alguma para a comparação entre imposto e roubo. Você dá a entender que no Brasil o governo rouba dos ricos (que na verdade deveriam pagar mais do que pagam hoje) para dar aos pobres, como se os pobres não pagassem impostos e fossem os únicos beneficiados pelo Estado.
Há paÃses com carga tributária superior à do Brasil e que são bem mais desenvolvidos. Alta carga tributária, em vez de dificultar, pode ajudar no desenvolvimento de um paÃs, com a ampliação das oportunidades.
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