Uma apreciação da liberdade
por Pedro Sette Câmara
A liberdade decorre da sua natureza humana - não é uma concessão estatal, não é um privilégio concedido por burocratas, não é algo que deve ser regulado por gente que se julga iluminada. Isso é fácil de provar, desde que você aceite que o homem possui um intelecto. O intelecto é necessariamente livre, porque não é possÃvel negar a liberdade da atividade do intelecto sem que esse ato de negação seja um ato livre ou um ato de libertação do que quer que até aquele momento "aprisionasse" o intelecto. Por exemplo, não é possÃvel denunciar a consciência de classe ou o superego sem libertar-se deles.
Uma das coisas que mais diferem um liberal de um socialista ou mesmo de um conservador é, ainda que pareça óbvio, a sua afirmação da... liberdade. Ao falar em liberdade, quase automaticamente falamos em diferença. E diferença supõe contradição. A contradição faz crer que o "projeto de sociedade liberal" vá ruir. Mas aà é que está o salto lógico. Um projeto de sociedade liberal só exige que os cidadãos reconheçam que todos possuem alguns direitos básicos. A maior parte das coisas que você pode fazer fica por sua conta. É, isso mesmo. Por sua conta.
Alguns pensadores no século XIX reclamavam que isso levaria à "atomização". Mas as pessoas que repetem essa conversa hoje são as mesmas que reclamam do famoso "vazio deixado pelo fim das ideologias". Não só a extinção da crença nas utopias - a crença mais letal da História - seria maravilhosa se realmente acontecesse como não consigo ver o problema de eu e meu vizinho não termos o mesmo objetivo na vida. Qual o problema de querermos coisas diferentes, e até mesmo muito diferentes? Tenho preocupações literárias e sou católico. No meu prédio vivem pessoas artÃsticas e boêmias, um casal gay, um pastor protestante casado e alguns judeus. Não temos nenhum problema uns com os outros. Convivemos pacificamente. Somos "atomizados" em nossos apartamentos.
Uma pessoa religiosa pode até achar que a vida de uma comunidade cristã é mais perfeita e que deveria haver na sociedade ao menos uma certa fraternidade. Porém, uma pessoa religiosa inteligente também sabe que a fraternidade só pode ser espontânea e não forçada, e que os atos livres são mais perfeitos do que os atos realizados sob coação. Por razões diferentes, acho que o casal gay e o pastor não apreciariam minhas opiniões sobre o Papa Bento XVI, e acho que eu também não gostaria das opiniões deles. Mas é a prudência, a virtude que tem o maior direito sobre os assuntos humanos, que deve ordenar nossas regras de convivência. Não solicitarei a coerção estatal para "punir" aqueles que têm sérias divergências de opinião e conduta em relação a mim - e espero que eles façam o mesmo. Não precisamos concordar em tudo, só num ponto: respeitando o direito à vida e à propriedade, cada um é senhor de si. Por isso, é bom que existam comunidades cristãs enquanto entidades privadas. Mas impor seu modelo a toda a sociedade é imprudente.
Ressaltando a liberdade inerente à natureza humana e não alguma circunstância, o liberal defende um valor verdadeiramente universal. Um paÃs não é um valor universal: ele não existe metafisicamente no céu das idéias, marcando a alma daqueles que ainda vão nascer. Sem contar que normalmente a defesa do "paÃs" significa a defesa de meia dúzia de empresários que têm privilégios junto ao governo. A ordem pode ser um valor universal, mas é muito abstrata; dizer que alguma ordem é melhor do que a ordem espontânea é comparar algo que não existe com algo que existe. Por isso é burro - na verdade, é muito mais do que apenas burro - comparar um mercado real com um planejamento estatal ideal. O correto é comparar experiências. Os supermercados da Coréia do Norte com os dos EUA.
Um valor universal permite a multiplicação - e a apreciação! - das diferenças da mesma maneira que algo relativo só pode existir relativamente, isto é, em relação a algo não-relativo. A liberdade permanece: as opiniões mudam, os gostos mudam. A liberdade acaba: alguém está impondo sua opinião e seu gosto a todos.
Quando alguém diz que há liberdade demais, ou que "a sociedade não está pronta para essa liberdade", tomando para si o poder de escolher pelos outros, está fazendo algo pior do que negar "um" direito humano: está negando o próprio direito de ser plenamente humano, já que o que define o ser humano é ser o animal racional, ou intelectual, e o que define o intelecto é a liberdade. É difÃcil imaginar que algum status quo presente ou alguma sociedade futura valem mais do que a própria natureza humana.
Para terminar, vou contar um sonho que tenho. Gostaria de ver um esquerdista admitir publicamente: "dizemos que fazemos tudo pelo povo, mas temos asco das escolhas populares, achamos que são inferiores e mal-informadas, por isso vamos decidir tudo em nome deles; isso, nós, que estudamos e somos inteligentes, vamos decidir o que é bom e dar isso ao povo". Não é incomum ver conservadores adotando abertamente um discurso como esse. O que falta é ficar claro que os esquerdistas fazem a mesmÃssima coisa, apenas com a polaridade invertida. Os dois grupos na verdade crêem que a liberdade existe para que você pense como eles. Um liberal espera apenas que você saiba apreciar a liberdade dele tanto quanto você aprecia a sua.
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