Como estudantes liberais devem lidar com professores esquerdistas

por Diogo Costa

O establishment acadêmico do Brasil é de esquerda. Os alunos podem passar um curso universitário inteiro sem perceber que aquilo que lhes está sendo apresentado como consenso intelectual não passa de propaganda ideológica, o que dificulta a vida daqueles que percebem o que está acontecendo. Estudantes liberais tendem a se sentir isolados. Suas idéias são marginalizadas e ainda devem tratar como mestres os seus oponentes intelectuais. Aqui vão alguns pontos que podem ser úteis para a vida universitária de estudantes liberais:

Aprenda os fatos. Os libertários normalmente se apóiam em primeiros princípios, e é importante que nosso entendimento das ciências sociais não seja alicerçado em contingências e proposições vagas. Mas isso não substitui o conhecimento dos fatos sobre assuntos específicos. Um liberal radical pode responder a todas as questões políticas com um "não cabe ao governo fazer X", mas, se ele não entender como proceder com determinada reforma, ou como o mercado substituiria uma determinada função do governo, pode facilmente perder uma discussão e passar a impressão (às vezes correta) de que sua crença não passa de uma teimosia. Enriqueça suas explicações com exemplos da história de diferentes sociedades que ilustram a aplicação de seus princípios. Seus argumentos se tornarão mais convincentes e sua compreensão do liberalismo mais apurada.

Aproveite sua vantagem comparativa. Não tenha medo de usar as ferramentas intelectuais que o liberalismo pode oferecer. Em questões econômicas e políticas, os liberais conhecem hipóteses não consideradas pela maioria dos professores. É muito difícil produzir algo diferente quando se está preso dentro de uma mesma doutrina. Aproveite os insights liberais para destacar os seus trabalhos do resto da multidão. Uma idéia surrada como a “luta de classes” marxista pode ser desmontada e substituída pela sofisticação da análise dos grupos de interesse a partir da escola de Escolha Pública. Se você apresentar suas idéias de forma razoável e bem fundamentada, o liberalismo pode dar ao seu trabalho acadêmico um vigor que o professor não achará em outros alunos.

Trate os professores como objeto de estudo. O esquerdismo acadêmico é um fenômeno social. Estude-o como tal. Receba os discursos de esquerda com aquela "suspensão voluntária da descrença" (a willing suspension of disbelief proposta por Samuel Taylor Coleridge) com que lemos obras de ficção. Tente entender como seu professor chegou às suas convicções, quais são seus pontos mais fracos, qual a formulação mais consistente de seus argumentos. Separe os erros distintivos da vagueza incoerente. Conheça o outro lado tão bem a ponto de conseguir reproduzir o seu discurso melhor do que seus professores. Apenas conhecendo bem seus oponentes intelectuais você conseguirá agir com estratégia e certeza.

Aprenda a discutir. Vencer uma discussão não é simplesmente obter o convencimento absoluto e incondicional da outra parte. Se você for viver esperando que as pessoas se desmontem perante a força de seus argumentos, sua vida será repleta de frustrações. O que você pode fazer com relativo sucesso é trazer as pessoas um pouco mais perto de você, como fazer com que o comunista se torne um pouco cético ou com que o social-democrata ache que os liberais entendem alguma coisa do que falam. Quando se trata de professores, até essa modesta aproximação pode ser impossível, mas a discussão em sala de aula pode servir para atrair os demais alunos.

Aprenda a não discutir. Discussões intermináveis em salas de aula distanciam os outros alunos e alienam os professores. Ninguém tem o dever moral de consertar todos os erros intelectuais que encontra pela frente. Como os liberais normalmente têm um horizonte intelectual mais amplo do que a maioria das pessoas e dos professores, eles percebem uma maior quantidade de incoerências e inconsistências. Não ache que é sua missão responder a todas elas. Esses erros são tão corriqueiros que você teria que dedicar a sua vida inteira a simplesmente corrigi-los, enquanto poderia usar sua energia e capacidades com atividades mais importantes e até mais eficientes de promover a liberdade.

Ouça o que eles têm a ensinar. Os libertários tendem a desmerecer seus professores. Sentem-se superiores por conhecer argumentos e autores que eles não conhecem, por considerar soluções que eles não consideram e, principalmente, por ouvir em seu discurso uma repetição chata, manjada e falaciosa. Mas os erros intelectuais, ou até as falhas de caráter, não significam que os professores de esquerda nada têm a nos ensinar. Entenda do que eles falam. Isso não significa se esforçar para tentar ser convencido, mas para tentar saber o que eles sabem. Os professores são seus professores porque, em áreas específicas, eles sabem mais do que você. Há matérias em que os professores de esquerda têm muito pouco a oferecer. Um marxista não tem muito o que ensinar de economia assim como um curandeiro não tem muito a ensinar de medicina. Mas na maioria dos assuntos, a crença ideológica pode coexistir com o conhecimento verdadeiro. O estudante deve ouvir tudo o que seu professor fala, discernir o que é propaganda do que é conhecimento, e guardar o que for bom.

Comentários

Simplismente ... Ridículo...

Mesmo a maioria dos alunos das principais faculdades de Ciências Socias e cia.(usp, unicamp, ufrj, unesp e pucsp) serem da burgusia, ao se deparar por comparação à tudo isso, por exemplo, acabam virando comunistas...
Quase 100% dos professores da área são marxistas... Trabalham na linha marxista...
Porque será???
Mesmo depois de tantos tapas, a ideologia permanece viva, imbatível e instransponível...
Marxistas formando marxistas que pensam o socialismo !

Professores esquerdistas

As experiências que tive restaram frustrantes. Geralmente os professores quando entendem que estão sendo acuados, ou percebem que sua argumentação não atende aos pressupostos da primeira argumentação (só aceitam discordar em limites do próprios pressupostos colocados por eles mesmos)ou, ainda, que seus pressupostos são equivocados, atem-se a um ponto controverso e deslocam todo o corpo da discussão para a "picuínha" e dizem estar falando de coisas mais abrangentes.
Enfim, o princípio de tudo é a honestidade intelectual; se de esquerdista, se de conservador. Ausente a honestidade, impossível a discussão. O melhor é aquietar e discipular. É o que digo.
Abs
Cesar

O Liberalismo e eu...

Caros senhores:

Costumo avaliar a qualidade dos textos que eu leio através dos sentimentos e emoções que os mesmos despertam em mim.

Eu, quando jovem, trabalhei na USP e lá tive meus primeiros contactos com a militância política de Esquerda.

Uma garota, pela qual eu até arrastaria um bonde, tentou me convencer de que o PT e o Lula eram o que havia de melhor para a política brasileira.

Como eu não entendia bulhufas de política na época, já que eu era um bitolado em informática, eu apenas concordava com ela em tudo que ela falava mas nem sequer me admirava de seu conhecimento político que considerava supérfluo.

Minha dissenção com ela começou quando ela disse que se o Lula ganhasse haveria asfalto na favela e nos bairros ricos eles que se danassem e tapassem seus próprios buracos pois para isso tinham dinheiro.

Depois desse dia passei a evitar essa garota pois no passado já tinha ouvido esse tipo de conversa e meu senso de realidade limitado atribuía o mesmo a bandidos e pessoas da pior espécie.

Agora, pela primeira vez em minha vida, comecei a ler textos liberais, graças à Internet, e, por incrível que pareça, os mesmos falam da economia e da política da forma como eu sempre achei que deveria ser mas não tinha vocabulário para racionalizar tais expectativas.

Sinto-me de bem com a vida quando leio um texto liberal pois o mesmo descreve tudo aquilo que sempre senti que era certo e nem sabia que alguém mais achava tudo isso certo.

Por esse antagonismo ideológico com os demais eu adquiri certas características anti-sociais não porque eu discutia e sim, porque minhas convicções eram intuitivas e não racionalizadas, o que me fazia fugir de pessoas que acreditavam no contrário.

Espero que vocês continuem fazendo a devida propaganda das idéias liberais pois custou-me muito social e até mesmo psicologicamente viver num mundo que só falava uma língua e pior, contrária às minhas crenças e certezas subjetivas e instintivas.

Um grande abraço e parabéns pelo trabalho de vocês.

Comentário

Apesar de reconhecer que o establishment universitário no Brasil é de esquerda, e que isso é preocupante, não acho lá muito correto afirmar que os liberais têm um "horizonte intelectual" mais amplo que os marxistas. Na verdade, nem uns nem outros são, a priori, mais competentes que seus "oponentes" ideológicos - isso, é claro, depende de cada caso individualmente tratado. E, assim como certos marxistas são sectários, certos liberais também o são. É o que acontece, aliás, em todas as áreas da vida, e não somente das ciências humanas.
Além disso, há outras formas e correntes de compreensão da realidade interessantes aos universitários que não o marxismo ou o liberalismo. Formas ou correntes, inclusive, que não precisam se filiar à "esquerda" ou à "direita" para serem aceitas como válidas.

Algumas outras considerações

É comum vermos nos "debates" a oposição capitalismo x socialismo/comunismo. Se nós que gostamos do capitalismo e queremos melhorá-lo sempre (nunca jogá-lo fora) aceitamos este debate, caímos em uma armadilha preparada para não chegar a lugar algum que não a nossa desmoralização. Lutar no campo do inimigo é o pior combate.

O capitalismo é um SISTEMA ECONÔMICO e os outros são SISTEMAS POLÍTICOS (sabemos que na verdade são apenas SISTEMA DE PODER).

O socialismo como sistema econômico NÃO EXISTE. Nos países onde reina absoluto, a economia produz apenas o que vemos em Cuba por exemplo. Portanto, se partirmos destas obervações, eliminamos a necessidade de debater com pessoas mal intencionadas que nos propõe esta perda de tempo.

A necessidade que o socialista tem de "eliminar" o capitalismo ou pelo menos desacreditá-lo decorre de um fato: se não existe a produção de riqueza, os cidadãos dependem do Estado para até mesmo sobreviverem. Como acontece no Brasil desde sempre, é "bom" que o pobre continue pobre pois assim troca seu voto por uma cesta básica ou uma bolsa família. Se a estas pessoas fosse possível (se o Estado brasileiro permitisse) o acesso legítimo aos bens e produtos de sua necessidade/interesse, se ao trabalhador fosse permitido ganhos adequados, se ao empresário fosse permitido o crescimento, a riqueza se disseminaria e as pessoas não seriam tão suscetíveis às benesses governamentais. Não seria necessário bolsa família se neste país o Governo trabalhasse em todas as frentes para permitir o desenvolvimento do mesmo.

Sabemos que não é por maldade que a imensa maioria dos empresários paga o que paga aos seus empregados. Qualquer empreendedor sabe que se fosse possível pagar 5 vezes mais aos seus auxiliares a empresa andaria muito melhor e a vida destes seria muito mais digna. Mas... O Governo (o coronelismo de outrora) não quer isto.

Lembremos sempre de Lênin: acuse-os de fazer o que você mesmo está fazendo, acuse-os de ser o que você é. Quando acusam o capitalismo de criar miséria e desgraça, estão nos acusando de seus crimes. O capitalismo não quer ninguém passando por necessidade nem matar pessoas são estas pessoas que compram os produtos e solicitam os serviços. Alguém em são consciência quer matar seu cliente? Se um empresário pensa assim, então entrou em outro grupo: o dos criminosos. Para eles existem as leis. O que o capitalismo tem a ver com a loucura de uma pessoa que quer matar a outra? Onde o capitalismo prega isto? Já os sistemas políticos socialismo e comunismo...

Portanto, não percamos nosso tempo. Mate logo de cara a brincadeira e exponha o seu oponente difamador e sem escrúpulos como mentiroso e ignorante por opção, desqualificado para o debate que propôs, visto que o mesmo não pode existir. Com isto você aproveita para mostrar que sabe desmontar a argumentação dele psicótica que ele criou.

Cavaleiro do Templo
http://cavaleirodotemplo.blogspot.com

Excelente artigo Diogo!

Excelente artigo, Diogo!

A academia definitivamente se tornou o último esconderijo de dogmas autoritários e ultrapassados já enfaticamente reprovados pela História. Que os professores um dia enxerguem para além das paredes da universidade... enquanto isso, suas dicas são valiosas.

Quisera eu ter lido isso na

Quisera eu ter lido isso na época da faculdade...

Só achei provocação a parte "Como os liberais normalmente têm um horizonte intelectual mais amplo do que a maioria das pessoas e dos professores". :)

Abs.

-- JC

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