O problema do rent-seeking
por Michael Munger
A definição técnica de 'renda' é qualquer retorno de um investimento ou esforço que exceda a taxa de custo de oportunidade do retorno. Assim, Alex Rodriguez, do New York Yankees ganha uma grande 'renda', ou prêmio, pela escassez de um talento como o seu em um jogador de baseball. Ele poderia se sustentar como bancário, garçom ou como qualquer outra coisa. Mas é pouco provável que pudesse ganhar algo próximo dos 25 milhões de dólares que ganha por ano como jogador de baseball. Essas ‘rendas’ encorajam a competição. E, na maioria das situações econômicas, essa competição pelos lucros produz benefÃcios. Mas na polÃtica a competição por rendas é quase sempre destrutiva.
Quanto maior a renda, maiores os custos que as pessoas se dispõem a pagar para obtê-la. Quando o governo distribui o que aparenta ser dinheiro gratuito, as pessoas brigarão por uma parcela dele. Assim elas arcam com os custos que possam aumentar as chances de se obter o benefÃcio do dinheiro ‘gratuito’.
Robert Tollison, um dos mais importantes estudiosos da escolha pública e do governo nos Estados Unidos, define rent-seeking [busca por renda] dessa maneira: “rent seeking é o gasto de recursos finitos para se obter uma transferência criada artificialmente.†A competição por benesses governamentais – rent-seeking – é uma busca por uma agulha num palheiro, e não importa se a agulha é de ouro e aqueles que a procuram estão cheios de boas intenções.
Mas, supostamente, a competição não deveria ser algo bom? Acontece que a “competição†pelo rent-seeking é uma concorrência por um preço fixo, um problema de soma zero que funciona, na melhor das hipóteses, como uma transferência. A competição nos mercados não tem preços fixos e é largamente positiva. Na polÃtica, você tenta apenas movimentar dinheiro e conseguir algum crédito por isso. Nos mercados, você tenta criar valor e obter lucros.
A competição em outros lugares
No mercado há várias escolhas, várias pessoas escolhendo, preços caindo em relação ao custo de produção. Novos bens e serviços aparecem constantemente no mercado porque o interesse próprio dos produtores força-os a pensar em formas novas e melhores de satisfazer às necessidades dos consumidores.
Será que as polÃticas públicas podem funcionar da mesma maneira? Colocando isso de outra forma, será que a competição é sempre positiva? Será que o aumento da competição deve ser sempre a primeira solução que devemos cogitar para qualquer problema?
Nos mercados polÃticos, existe a boa competição e a má competição. A questão humana fundamental é incentivar as coisas boas e obstruir as más. Se o projeto da instituição não consegue transformar o confronto dos auto-interesses em algo que beneficie a comunidade, então a competição pode fazer coisas ruins acontecerem, até mesmo à s melhores pessoas.
Nem toda competição polÃtica é má. Madison, em Federalist #51, escreveu sua famosa argumentação segundo a qual um governo caracterizado pela separação dos poderes entre suas repartições seria mais estável e mais confiável do que os outros. A razão? A competição! “A ambição deverá existir para competir contra a ambição…†Porém, como veremos, nem toda competição polÃtica funciona dessa maneira.
A loteria Tullock
Nas minhas aulas, peço aos meus alunos para imaginarem um experimento que chamo de loteria Tullock, alusão a Gordon Tullock, um dos inventores do conceito de rent-seeking’.
A loteria funciona da seguinte forma: eu faço um leilão com 100 dólares para o estudante que der o maior lance. O truque é que o apostador deve colocar o dinheiro do seu lance em um envelope, e eu fico com o dinheiro de todos os lances, independente de quem vença.
Então, se você colocar US$ 30 no envelope e alguém der um lance de US$ 31, você perde o lance e o prêmio. Sempre que eu faço esse jogo com meus alunos, consigo US$ 50 ou mais, depois de entregar o dinheiro do prêmio. Na polÃtica, o segredo para se ganhar dinheiro é anunciar que você vai distribuÃ-lo.
Dê uma volta pela Rua K, na cidade de Washington. Ela é cheia de edifÃcios altos, com belos escritórios, cheios de homens e mulheres de excelente educação e muitas ambições, desejando ganhar muito dinheiro e conseguir grandes coisas. O que são aqueles escritórios e aquelas pessoas? Elas não são nada mais do que lances da versão polÃtica da loteria Tullock. O custo de se manter um escritório em DC com funcionários, energia e lobistas profissionais é a oferta aos polÃticos. Se outra pessoa dá um lance maior, a firma não será abastecida com o dinheiro dos impostos, não receberá proteção legal, ou não celebrará um contrato de concessão rodoviária, e também não receberá o que deu por esse lance de volta. O dinheiro se foi. Ele foi engolido pela má competição polÃtica.
Quem se beneficia desse sistema? Será que todas aquelas companhias e organizações em Washington são empreiteiras? Na realidade, não. Ao participar do jogo do rent-seeking, aquelas firmas apostam quase tudo que esperam ganhar. É verdade que algumas obtêm grandes contratos e cheques gordos, mas todos os jogadores estariam em uma situação melhor se pudessem evitar que o próprio jogo começasse.
Meus alunos me perguntam por que alguém participaria desse tipo de jogo. A resposta é que as regras do nosso sistema polÃtico criaram esse tipo destrutivo de competição polÃtica. Quando tamanha parcela do dinheiro do governo passa a estar disponÃvel a quem der o maior lance, tomar parte nessa loteria começa a parecer bem atraente. O congresso não consegue obstruir o aumento dos gastos em projetos eleitoreiros domésticos. A competição polÃtica enlouquecida aumentou os gastos em todas as categorias. E, à s vezes, você acaba dando um lance só para não correr o risco de ter seu dinheiro tomado por meio de regulamentações.
Em um sistema de mercado em pleno funcionamento, a competição recompensa o menor preço e a maior qualidade. Um funcionamento perfeito como esse requer um grande número de produtores ou um baixo custo de entrada e saÃda do mercado. Suponhamos que a Coca-Cola e a Pepsi, além de terem exclusividade nas prateleiras, também pedissem permissão para elaborar suas próprias regras, proibindo a venda de qualquer outra bebida. Como apontou Adam Smith, “alargar o mercado e estreitar a competição é sempre do interesse dos comerciantes...â€
No sistema de mercado, temos salvaguardas preparadas, mesmo que sejam imperfeitas. No mÃnimo, a Comissão Federal do Comércio não veria com bons olhos esse pedido, nem essa indústria.
O nosso sistema polÃtico afasta a boa competição, do tipo que traz novas idéias ou faz perguntas embaraçosas. Fomos levados a pensar que o sistema é competitivo, já que testemunhamos constantemente uma vigorosa competição para se ter acesso ao tesouro público. Essa má competição é um combate caro entre gladiadores, no qual o congresso detém várias notas fiscais. O resto dos gastos é simplesmente desperdiçado na construção de escritórios caros e no uso do tempo daqueles lobistas, que certamente poderiam estar fazendo algo mais produtivo.
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Comentários
rent seeking no Brasil...
Beleza de texto. Munger discorre sobre o caso americano com rigor. Agora no Brasil essa situação é calamitosa, pois todo mundo quer ser um rent seeking. Veja que o sistema financeiro está quase todo atrelado ao governo conseguindo bons resultados, mas que poderiam ser melhores se fossem lucros provenientes de investimentos mais construtivos e não financiando um Estado sacana que paga com nosso dinheiro benesses para polÃticos e burocratas – assim no topo da pirâmide social temos quase todos os atores como rent seeking da pior espécie.
Entre a classe média brasileira, durante esses tempos de governo Lula, a maioria dos jovens querem ser funcionários públicos. Ser funcionário do governo com suas benesses se tornou o grande sonho do jovem brasileiro, lamentavelmente. Assim, pelo meio da pirâmide social temos muitos rent seeking e jovens aspirantes a rent seeking – com o contingente de posições e cargos no governo aumentando em escala geométrica.
Na base da pirâmide social brasileira temos uma massa de 11 milhões de famÃlias que vivem as custas dos outros através das ditas transferências governamentais. Esses são os rent seeking das migalhas eles são os do andar de baixo. Recebendo esses recursos esses miseráveis aumentam ainda mais as chances de permanecer na pobreza vendendo sua liberdade para os polÃticos de plantão para o resto de suas vidas. Sem contar que essas “transferências†inviabilizam milhões de pequenos negócios exatamente entre os que mais precisam de liberdade para poderem prosperar.
Pretendo dizer com tudo isso que no Brasil boa parte da população vive as custas dos outros e tem uma maioria que quer, nem que seja com uma pequena parte, contribuir com a pilhagem pelo Estado do patrimônio alheio para financiar a miséria já que este tipo de conduta dificulta a promoção dos negócios.
Quem que ser empreendedor no Brasil? Uma perseguida minoria que está sendo esculhambada apesar de bancar os gastos de um Estado que produz mais miséria.
Já escrevi demais... desculpe, ando muito revoltado com o que acontece no Brasil e aqui na Amazônia onde vivo em Manaus.
Tudo de bom!
JB
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