Uma pergunta para Temporão

por Diogo Costa

Sempre que se quer saber os planos de um político pergunta-se no que ele acha que o governo deve gastar o dinheiro público. Mas há uma pergunta que jamais é feita: no que ele acha que o governo não deve gastar o dinheiro público. As duas questões são faces da mesma moeda. Os recursos gastos para construir uma escola não podem ser usados para construir um hospital. O dinheiro usado para aumentar a força policial poderia ter sido usado para reformar uma estrada. E por aí vai...

A pergunta nunca é feita porque ela exige uma honestidade que falta aos políticos e incomoda a população. A honestidade de admitir que vivemos num mundo onde os recursos são escassos. Essa é a infeliz verdade econômica, que a quantidade dos nossos objetivos supera infinitamente a quantidade dos meios para alcançá-los. Quem quiser propor qualquer política pública, deve começar se perguntando o que o governo deixará de fazer com o dinheiro público que se pretende gastar, ou, mais importante, o que a sociedade poderia ter feito com seu próprio dinheiro se não lhe tivesse sido tirado de seus bolsos por meio dos impostos.

Poucas vezes essa pergunta foi tão pertinente quanto agora que o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, anunciou que o Sistema Único de Saúde pagará por cirurgias de mudança de sexo. Faço aqui a pergunta não feita ao ministro Temporão: quais cirurgias o governo sacrificará para transformar pessoas em transexuais?

Sem essa resposta não se pode compreender o custo verdadeiro da cirurgia de mudança de sexo. Afinal, custo não é meramente o valor monetário a ser pago por um serviço, mas aquilo de que se abre mão para prestar esse serviço. E, quando discutimos a racionalização dos recursos públicos para a saúde, apavora lembrar que calculamos esse custo em vidas. O mesmo médico não pode realizar duas cirurgias ao mesmo tempo, o anestésico usado para uma cirurgia não pode ser usado para outra. Como a demanda por cirurgias é maior que a oferta dos recursos médicos, cada cirurgia de mudança de sexo corresponde a outra cirurgia não realizada, cirurgia que poderia ser vital.

Em uma situação de vida ou morte, abre-se mão de qualquer outro objetivo secundário. A pessoa que tem apenas uma garrafa de água preferirá deixar de se lavar a morrer de sede. Por mais que o ministro Temporão acredite ser importantíssimo que sejam feitas plásticas para adequar o corpo à identidade sexual de uma pessoa, ele há de reconhecer que nenhum Estado, muito menos o brasileiro, possui os recursos para fazer essas cirurgias sem negar a outros pacientes tratamentos que poderiam poupar- lhes a vida. Quando o dilema é entre modificar um órgão sexual ou salvar um órgão vital, a prioridade é clara. Por isso a resposta à pergunta não feita a Temporão é tão terrível: cada sonho transexual custará o pesadelo de um paciente entre a vida e a morte.

Originalmente publicado em Jornal do Commercio (07/04/08).

Comentários

Agradeço...

Agradeço a sua atenção em resposta ao meu comentario.
Quero aproveitar para esclarecer o que talvez ficou mal colocado no meu relato. Haja visto que não pretendi dizer que o Sr emitiu opinião sobre o diagnostico, mas sim, e isso julgo muito importante, friso a necessidade do rigor SIM no dignostico.
Poderiamos levar mais adiante a discussão do que seria VITAL...
Vital, algo de extrema importancia a manutenção da VIDA.
A cirurgia um ato simples e única forma de cura deste transtorno.
Trazendo ao nosso tema,... identificação, inserção de individuos capacitados a ocupar um espaço ativo na sociedade. Inclusive a possibilidade de poder tomar para si o que a natureza nos privou "a maternidade", o que muitas mulheres biologicas negligenciam enchendo os orfanatos...
Desmestificando a complexidade de tal cirurgia, ainda quero informar que um bom cirurgião plastico é capaz de realiza-la em torno de 3 hrs, com riscos bem menores que uma lipo-aspiração, e custos tb.
Um abraço
Luiza Melinho

Cirurgia para "gays"??? - opinião do Sr. Diogo Costa

Impressionante a materia com a opinão bastante particular (diga-se de passagem) do Sr Diogo Costa! Materia em que retrata de forma bastante clara o pais em que vivemos, onde orgãos de imprensa deveriam obdecer a sua função de esclarecimento da população, mas muito bem ao contrario serve como veiculação de opinões proprias... MAIS UM TIJOLO COLOCADO PARA EDIFICAR O MURO DA IGNORÂNCIA.
- Sugiro que o Sr. antes de emitir sua opinião a respeito de assuntos (que pela sua agressividade acredita que não lhe diz respeito) pesquise mais sobre o que vai escrever. Pode começar com o Tópico GAYS NÃO OPERAM. E mais!... Asseguro-lhe que o apoio do SUS a uma problematica (bastante delicada no dignostico) seria bem menos custosa do que os montantes desviados por aqueles que estão no poder, que são usados para que mesmo????
Que tal seria se deixasse para os medicos emitirem seus diagnosticos, indicativas ou não para a SRS, e simplesmente fizesse o "seu" trabalho uma verdadeira edificação. Pois acredito que o sr. tem ou talvez terá um filho e anomalias e pequenos desvios acontecem.Eu sou Luiza Melinho, ex portadora da sindrome de Harry benjamim (Neuro- disforia de Genero) CID (Codigo internacional de doenças - caso o sr não saiba) F 64.0, a quase 3 anos redesignada sexualmente, documentos legalizados,(reconhecida com o sexo feminino). Trabalho, nunca me prostitui, pago imposto, tenho conta e banco(contribui e muito na CPMF, do qual não vi retorno!) com salário bem acima da media da realidade do povo brasileiro. E COMO CIDADÃ EXIJO RESPEITO! Como ex portadora da sindrome apoio a decisão tomada por alguem "inteligente", somente aponto para a REAL dificuldade que é o DIGNOSTICO Definitivo desta Sindrome.

Resposta

Prezada Sra. Luiza Melinho,

Obrigado pelo comentário. Não foi minha intenção julgar os motivos e as necessidades de pessoas em busca de cirurgia sexual - muito menos oferecer um critério para diagnóstico. Talvez você possa me indicar uma passagem no artigo que demonstre essa interpretação.

Reconheço que a homossexualidade não é requisito para alguém desejar uma operação transexual. Por isso removi a palavra "gay" da versão final desse artigo.

Também concordo com a Sra. que os recursos usados para a cirurgia poderiam ser desperdiçados com usos mais dispensáveis. Reforço, no entanto, o ponto principal do artigo, que o custo do uso de um recurso público deve ser medido pelas possibilidades não utilizadas. Portanto, os recursos médicos utilizados em uma cirurgia de mudança de sexo estão deixando de ser utilizados para outros fins, incluindo cirurgias vitais.

Para terminar, lembro ainda que não pretendi usar um tom agressivo. Mas, como essa é uma característica que a Sra. me parece apta a detectar, peço desculpas se meu artigo assim sugere.

Abraços,
Diogo.

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