
Biografia: Ludwig van Beethoven
08 de Agosto de 2008 - por Jim Powell
por Jim Powell
Ludwig van Beethoven inspirou o mundo com seu espírito libertário. “Suas emoções, quando atingiam o auge, eram quase divinas,” declarou o crítico H. L. Mencken. “Ele deu uma grandeza alpina à música.”
Independente e corajoso, Beethoven se libertou das formas convencionais para que sua música pudesse descer às profundezas do desespero, expressar lutas heróicas e atingir ápices incríveis de alegria. Robert Haven Schauffler, estudioso da obra de Beethoven, declarou: “Para onde quer que seu espírito o movesse, ele tirava sangue de pedra. E ele fazia rubis a partir do sangue, platina a partir dos resíduos das pedras e ainda organizava esses produtos miraculosamente...”
Beethoven tirou as orquestras dos salões aristocráticos e as levou para salas de concerto lotadas. Depois de 1815, ele compôs mais para editores do que para patrocinadores. Ele tinha orgulho por ter sido pioneiro no mercado comercial, em que os compositores poderiam se sustentar a partir dos direitos de seus trabalhos. “O que eu sou”, ele escreveu, “eu devo apenas a mim.”
Beethoven era abertamente republicano em um continente de reis. Ficou indignado depois que Napoleão, que por muito tempo afirmou carregar os princípios republicanos da Revolução Francesa, se coroou imperador. Beethoven admirava a Inglaterra por sua Câmara dos Comuns, e gostava de acompanhar os debates parlamentares estampados nos jornais em alemão. “O resumo de sua obra é a liberdade,” observou o crítico Paul Bekker, “a liberdade artística, a liberdade política, a liberdade artística do indivíduo, sua liberdade de escolha, de credo e a liberdade individual em todos os aspectos da vida.”
Sem dúvida, Beethoven era atormentado por seus demônios. Ele enfrentou uma criação dura, além de problemas crônicos de saúde – especialmente a surdez– e sua vida pessoal era uma bagunça. Ele dava tão pouca importância à sua aparência que certa vez foi confundido com um mendigo e preso. Seus apartamentos – ele se mudou dezenas de vezes –tinham restos de comida e roupas sujas espalhadas. Sua escrita era praticamente ilegível. Ele não conseguia controlar suas finanças. Desejando a felicidade familiar, cortejou inúmeras mulheres, mas foi rejeitado por todas. Beethoven nunca se casou.
Para a maioria das pessoas, era impossível conviver com ele. Beethoven era desconfiado e, com freqüência, acusava seus amigos de traição. Poucos lhe restaram no fim de sua vida. Ele tinha um temperamento volátil. Quando um garçom lhe trazia o prato errado e não se desculpava o suficiente, Beethoven jogava o prato em sua cabeça. Ele era tão antipático com a orquestra durante os ensaios que os músicos só continuavam se ele deixasse a sala. Perdido em seus pensamentos, às vezes parecia um selvagem. Certa vez, ele correu por um campo balançando seus braços, assustando dois bois que correram morro abaixo, arrastando um pobre agricultor.
Ainda assim, seus fracassos pessoais são diminuídos por sua música. Ele expressou um amor pela liberdade de um jeito que milhões puderam compreender. Ele deu ao mundo as afirmações mais gloriosas de amor à vida humana.
Seus contemporâneos comentavam sobre sua intensidade extraordinária: “Tudo em sua aparência é forte, grande parte dela é rude, como seu rosto de ossos marcados, com a testa alta e larga, com seu nariz curto e angular, com seu cabelo arrepiado, dividido em duas mechas grossas. Mas ele foi abençoado com uma boca delicada e olhos eloqüentes, que refletem a cada momento as suas idéias e sentimentos”, escreveu o Dr. Christian Muller, em 1820.
O pequeno gênio
Ludwig van Beethoven nasceu em 16 de dezembro de 1770 em Bonn. Descendia de holandeses flamengos e por isso seu nome é “van” ao invés do alemão “von”. Foi o filho mais velho a sobreviver de Maria Magdalena, uma empregada doméstica. Quatro de seus seis irmãos morreram durante a infância. Seu pai, Johann Beethoven, era tenor no coro de Maximilian Friedrich, eleitor [aquele que podia votar na eleição do imperador do Sacro Imperador Romano] de Colônia.
Desde cedo, Beethoven mostrou talento musical. Esperando enriquecer, o seu pai o pressionava severamente. Ele começou a ter aulas de piano com quatro anos de idade e devotava a maior parte de seu dia ao piano. Geralmente praticava até a meia noite, melhorando suas técnicas e tentando novas variações. Aos oito anos, ele fez uma apresentação em público impressionante. Seis anos depois, ele tocava espineta, viola e órgão na orquestra do eleitor. O eleitor, um príncipe esclarecido que promovia a liberdade intelectual, pagou as despesas de uma visita de Beethoven a Viena, então a capital musical da Europa.
Lá, provavelmente em abril de 1787, Beethoven, então com 16 anos, conheceu o maior gênio musical da época, Wolfgang Amadeus Mozart, com 31 anos. Depois de ouvir a facilidade do jovem com o improviso, Mozart declarou: “prestem atenção nele; algum dia ele dará ao mundo algo de que todos vão falar.” Beethoven parece ter tido algumas aulas com Mozart, mas suas visitas foram suspensas quando ambos tiveram más notícias em relação às suas famílias. O pai de Mozart, Leopold, morreu em 28 de maio de 1787. A mãe de Beethoven sofria de tuberculose e ele voltou para casa para vê-la morrer, em 17 de julho de 1787. Ele escreveu, “ela era uma mãe tão amorosa. Era minha melhor amiga!”
Embora sua educação formal tenha se encerrado aos 11 anos de idade, ele cursou algumas matérias na Universidade de Bonn, com destaque para aulas de literatura, ética e direito, dadas pelo republicano anticlerical Eulogius Schneider. Beethoven amava passear pela Zehrgarten, uma taverna e livraria onde os intelectuais radicais se encontravam. Como tantos artistas alemães e intelectuais daquele período, Beethoven acreditava apaixonadamente na liberdade individual.
Johann Beethoven passou muito tempo em tavernas e, por volta de 1789, Ludwig passou a sustentar a casa, sendo responsável pela criação de seus dois irmãos mais velhos. Ele começou dando aulas de piano para uma família rica. Um admirador aristocrata, o Conde Ferdinand Von Waldstein, às vezes lhe enviava dinheiro.
No ano seguinte, Franz Joseph Haydn, um compositor e interprete influente, de 58 anos, fez uma escala em Bonn, em seu caminho de volta à Viena. Beethoven tocou para ele uma cantata que tinha composto e Haydn lhe fez elogios suficientes para que o príncipe-eleitor Maximilian Friedrich fornecesse os fundos para que Beethoven pudesse estudar com Haydn em Viena. Ele chegou em 10 de novembro de 1792, e nunca se arrependeu. A música existia, principalmente, como música de câmara, executada em apresentações privadas para aristocratas – o que fazia com que famílias empregassem músicos. E já que os mecenas ofereciam algum dinheiro, belas roupas e outros confortos, esperavam ouvir músicas da moda. Os mecenas pagavam por apresentação, ao invés de por composição, mas Beethoven estava determinado a viver como compositor.
Ele ficou inquieto com as fórmulas musicais de Haydn e insistia em fazer sua própria trajetória. Teve aulas de violino com Ignaz Schuppanzigh. Procurou Antonio Salieri, diretor da Ópera de Viena, para ter aulas de composição para vozes. Aprendeu contraponto com Johann Georg Albrechtsberger, o mais famoso professor de composição de Viena e autor de um livro respeitado internacionalmente sobre o assunto.
O Conde Waldstein ajudou a apresentar Beethoven para os mecenas musicais de Viena e, nos anos 1790, ele foi o pianista mais popular da cidade, graças a seu estilo marcante. Destacava-se na improvisação. Ferdinand Ries, que estudou tanto com Haydn quanto com Beethoven, lembrava: “Nenhum artista que eu já tenha ouvido chegou perto das alturas que Beethoven alcançava com sua maneira de tocar. A riqueza das idéias que afloravam nele, os caprichos aos quais se rendia, a variedade de tratamentos, de dificuldades, eram inesgotáveis.” Beethoven fez apresentações de sucesso em Praga, Berlim e Viena.
A Revolução Francesa – antes do Terror – inspirara músicos a se distanciar do entretenimento leve e a procurar temas mais sérios. Beethoven começou a impregnar suas composições com um propósito moral maior. Entre os seus esforços mais notáveis está a “Primeira sinfonia” (1800), “Concerto para piano em dó menor no. 3” (1800) e a “Sonata para piano em dó sustenido (Sonata ao luar)” (1801).
E como era, para ele, compor? “A partir do foco do entusiasmo”, ele disse a uma amiga, “devo libertar a melodia em todas as direções; persigo-a e capturo-a apaixonadamente; vejo-a voando longe e desaparecendo em uma massa de movimentos variados; depois,apodero-me dela novamente, com uma paixão renovada e dela não consigo me separar; sou impulsionado por modulações aceleradas a multiplicá-las e, enfim, conquisto-as: e eis, uma sinfonia!”
Ele era extraordinariamente engenhoso. “Seria difícil pensarmos em um compositor, mesmo de quarta categoria, observava H. L. Mencken, “que trabalhasse com um material temático demérito intrínseco menor. Ele tomava melodias de qualquer procedência; ele as inventava a partir de pedaços de canções rurais; quando não encontrava inspiração alguma, contentava-se com uma simples frase, com algumas notas banais. Ele via todas essas coisas simplesmente como matérias primas; seu interesse estava concentrado no uso que faria delas. E, ao usá-las, ele empregava os espantosos poderes de sua genialidade sem par.”
Mais tarde, por volta do ano 1800, Beethoven estava claramente deixando para trás Haydn e Mozart, e alguns críticos se opuseram. Um crítico do AllgemeineMusikalischeZeitung escreveu: “Herr Von Beethoven segue seus próprios passos, mas como são bizarros e singulares!...um amontoado de dificuldades sobre dificuldades até que se perde totalmente a paciência e o prazer.”
Enquanto isso, Beethoven se alegrava com os ideais republicanos da Revolução Francesa e se chocava com os excessos de violência e a severidade da reação contra eles. O Imperador Austro-Húngaro aprisionou ativistas republicanos. “Os soldados estão fortemente armados,” Beethoven alertava um amigo. “Você não pode falar muito alto aqui, senão a polícia o hospedará essa noite.”
O primeiro grande trabalho de Beethoven, a “Terceira sinfonia” (a Eroica), de 1803, parece ter sido inspirada pelas lutas contra a tirania. Ele utilizou novas combinações de instrumentos e harmonias que não tinham sido ouvidas anteriormente. Tenha ou não tenha, como diz a lenda, dedicado essa sinfonia a Napoleão, Beethoven sofreu com um profundo desgosto quando Napoleão traiu os princípios republicanos e se tornou imperador.
Em 1805, Beethoven experimentou a tirania em primeira mão, quando Napoleão despejou a fúria de seu Grande Exército pelo continente europeu. Em 13 de novembro, 15000 soldados franceses entraram em Viena, ocupando casas, saqueando alimentos e qualquer outro bem de valor que pudessem levar. Napoleão exigiu que os vienenses pagassem dois milhões de francos em impostos e cobrissem os custos de manutenção de inúmeros soldados franceses na cidade. Beethoven sofreu com a inflação, com a falta de alimentos e com o governo militar, como todas as outras pessoas.
Beethoven estava ainda mais perturbado por conta de sua saúde debilitada. Desde 1799 sofria de problemas estomacais crônicos e diarréia. Então, apareceram os fatídicos sinais de seus problemas de audição. “Os meus ouvidos zunem o tempo todo, dia e noite,” escreveu. “Posso dizer, verdadeiramente, que a minha vida é infeliz. Há dois anos, tenho evitado quase todas as reuniões sociais porque não posso dizer para as pessoas que estou surdo... Num teatro, se eu estiver um pouco distante, não consigo ouvir as notas mais altas dos instrumentos ou dos cantores...” Em 1812, ele conseguia ouvir as pessoas apenas quando gritavam. Quatro anos depois, ele sofreria com o silêncio.
A perda da audição deixava claro que o futuro de Beethoven teria de ser como compositor e não como interprete. Entre 1803 e 1812, compôs uma obra prima atrás da outra. Além daEroica, Beethoven compôs em 1808 a Quinta Sinfonia, que, conforme apontou o crítico musical Irving Kolodin, é a obra orquestral mais executada do mundo. Durante esse período, Beethoven também produziu seu Quinto Concerto para Piano (1809). Os historiadores Will e Ariel Durant comentaram: “De todos os seus trabalhos, esse é o mais amável, o mais permanentemente belo, aquele do qual nunca cansamos; não importa com que freqüência o ouçamos, nós somos levados para além do que as palavras podem expressar por sua brilhante vivacidade, sua alegre criatividade e suas fontes inexauríveis de sentimento e prazer.” Beethoven criou muito mais nessa época, inclusive seu Concerto para piano no. 4 em sol maior (1806), o Concerto para violino (1806), a Sonata para piano appassionataem Fá menor (1806), A Sinfonia no. 6 em fá maior, a pastoral, (1808), a Sinfonia no. 7 em Lá maior (1812) e a Sinfonia no. 8 em Fá maior (1812).
Beethoven geralmente trabalhava e retrabalhava suas idéias até ficar satisfeito. A sua criação mais difícil foi a ópera Fidelio. Em 1803, ele foi contratado para escrever uma ópera para ser apresentada no Teatro an der Wien, em Viena. Ao invés de compor uma ópera divertida e leve, sobre as travessuras sexuais dos aristocratas, escolheu um tema sério – a liberdade das pessoas comuns. Dedicou-se a um libreto escrito por Josef Sonnleithner, baseado em Leonore, oul’amour conjugal, uma história de J. N. Bouilly, baseada em fatos reais acontecidos durante o Terror da Revolução Francesa. Para proteger os ainda vivos, a história se passava discretamente na Espanha.
Nela, Florestan era aprisionado por falar a verdade a respeito de Pizarro, um tirano corrupto, que decide que Florestan será executado. No entanto, a esposa de Florestan, Leonore, consegue se tornar assistente na prisão, evita a execução de seu marido e ajuda a desmascarar Pizarro.
Beethoven carecia de experiência dramática e, embora sua música fosse muito inspiradora, a ópera era uma confusão. A primeira exibição, em 20 de novembro de 1805, não foi bem recebida. Vários meses depois, Beethoven se encontrou com seu principal mecenas, o Príncipe Karl Lichnowsky, que o convenceu a fazer alguns cortes. Beethoven, por sua vez, reescreveu a abertura, produzindo a Abertura de Leonore no. 2, e depois a ainda mais ambiciosa Abertura de Leonore no.3, que iniciou a apresentação seguinte, em 29 de março de 1806. Mas a ópera ainda estava longe de ser satisfatória.
Em 1814, três artistas vienenses sugeriram apresentarFideliopara arrecadas fundos para Beethoven. Isso o estimulou a tentar novamente resolver os problemas da obra. Ele tinha mais experiência e uma nova perspectiva. Empregou um colaborador, Georg Friedrich Treitschke, escritor vienense que melhorou significativamente a história e os diálogos. Beethoven reescreveu grande parte da obra – uma única ária de Florestan passou por18 revisões. A nova Fidelio entrou em cartaz em 18 de julho de 1814, e dessa vez foi um sucesso.
O compositor francês Hector Berlioz declarou: “Essa música incendeia você por dentro. Sinto-me como se tivesse engolido quinze copos de brandy.” O crítico musical Kolodin atribuiu parte desse apelo à “resposta inflamada de Beethoven ao sofrimento humano, a sua repulsa à injustiça, a sua cativante crença de que o status é um acidente de nascimento e que a superioridade é uma condição da pessoa que a demonstra.”
O trabalho mais famoso de Beethoven, a Nona Sinfonia em Ré menor, marcou seu retorno ao estilo heróico após a exploração de temas mais íntimos. Inspirou em idéias de mais de 30 anos antes. As linhas musicais no coro, por exemplo, apareceram originalmente na Cantata de Joseph, de 1790. Ele queria escrever uma música para o poema “Andie Freude” (Ode à alegria), de Friedrich Schiller, desde que o lera, logo após sua publicação em 1785. Em 1812, parou de escrever a Sétima e a Oitava sinfonias para anotar algumas idéias para o movimento do coral de uma sinfonia em ré menor.
Em 1822, Beethoven foi contratado pela Sociedade Filarmônica de Londres para escrever uma sinfonia. Começou a trabalhar em Ré menor. Quase na mesma época, começou um esboço da sinfonie allemande em ré menor, com um coro final, provavelmente com a “Ode à alegria” de Schiller. Os projetos passaram a convergir em algum ponto. Durante a primeira metade de 1823, Beethoven trabalhou duro no primeiro movimento, baseado em uma melodia que ele tinha esboçado seis anos antes. Então, dedicou-se ao segundo e terceiro movimentos simultaneamente. Por volta de agosto, terminou o segundo movimento. Depois de várias revisões, no meio de outubroo lento terceiro movimento ficava pronto.
Enquanto isso, talvez em julho, ele compôs o esboço de uma melodia identificada como “finale instromentale”. Os estudiosos não sabem quando ele a separou – mais tarde, ele adaptou a melodia para o final de seu Quarteto em lá menor Op. 132 – mas ele decidiu que o quarto movimento atingiria o clímax do coro com a “Odeà Alegria” de Schiller. Editou o poema, cortando linhas, o que o fez parecer uma música de bêbados. Mas o resultado foi uma afirmação da vida, mais simples e mais poderosa. Integrar o coral à sinfonia mostrou-se o mais duro desafio de Beethoven. Quando ele, finalmente, descobriu como fazê-lo, gritou para seu assistente Anton Schindler: “Vamos cantar a música do imortal Schiller.” Todo o esboço estava pronto no final do ano e a partitura foi escrita em fevereiro de 1824.
A primeira apresentação foi marcada para 7 de maio de 1824, no Kamthnerhor Theater, um programa duplo com sua nova Missa solemnis. Por volta de 12:30, Beethoven ergueu a sua batuta. O violinista Joseph Bohm recordava que o compositor “ficou de pé em frente à plataforma do maestro e se jogava para frente e para trás como um louco. Em um momento, ele se erguia à sua altura máxima, em outro ele agachava até o chão, ele movia seus braços e pernas como se quisesse tocar todos os instrumentos e cantar todas partes dos coros.” A apresentação foi interrompida várias vezes pelos aplausos. Mais tarde, Beethoven estava preocupado com a partitura e a mezzo soprano Caroline Unger puxou sua manga, indicando que ele deveria se virar para agradecer aos aplausos.
“A Nona sinfonia”, escreveu Irving Kolodin, “possui um uma marca, uma aura, uma identidade, sem igual em toda a literatura orquestral. Ela permanece maior, mais alta em direção ao infinito do que qualquer outra obra.”
Como observou o historiador Paul Johnson, “Existia uma nova fé e Beethoven era o seu profeta. Não foi por acidente que, aproximadamente na mesma época, as novas casas de espetáculo recebiam fachadas parecidas com as dos templos, exaltando assim o status moral e cultural da sinfonia e da música de câmara.”
Em dezembro de 1826, Beethoven começou a sofrer com uma tosse forte. Logo, apareceram dores em seus rins e intestinos. Seus pés incharam. Em 26 de março de 1827, entrou em coma. Caía uma tempestade violenta e, por um momento, Beethoven abriu seus olhos, levantou sua mão direita, cerrou seu punho desafiadoramente contra o céu e perdeu a consciência para sempre.
Três dias mais tarde, estimadamente 20.000 pessoas lotaram as suas, enquanto oito músicos carregavam seu caixão até a igreja dos minoritas, e, mais tarde, quatro cavalos o levaram para o cemitério em Wahring. Até mesmo a poderosa Casa Real de Habsburgo honrou esse homem que criara tantas afirmações inspiradoras da vida humana. Seu túmulo foi marcado com uma pirâmide com uma única e explosiva palavra: “Beethoven”.
Mais de um século e meio mais tarde, depois de incansáveis alemães se rebelarem contra a tirania comunista e derrubarem o Muro de Berlim, o maestro Leonard Bernstein reuniu músicos da Alemanha Oriental e Ocidental para uma apresentação da Nona sinfonia de Beethoven. Mudou a palavra Freude (“alegria”) por Freiheit (“liberdade”) no coro, porque o trabalho de Beethoven ressoava com o espírito da liberdade, e já passava da hora de se explicitar esse fato. Conforme declarou Bernstein: “Se não agora, quando?” Desde Berlim, no Natal de 1989, o clímax do “Hino à Liberdade” foi ouvido em todo o mundo. Uma alegre celebração da liberdade acontece onde quer que as pessoas escutem Beethoven.