O socialismo fazendo escola

por Diogo costa

A matéria de capa da revista Veja dessa semana (20/08/2008) confirma algo que os leitores de OrdemLivre.org já devem ter experimentado pessoalmente, mas que surpreende a maioria das famílias brasileiras: nossas escolas estão mais próximas de serem quartéis de doutrinação do que templos de sabedoria.

A pesquisa CNT/Sensus divulgada na revista revela que para os estudantes brasileiros Che Guevara serve de exemplo magistral. Nenhum dos entrevistados o identificou como uma influência negativa. Pelo contrário, o legado do guerrilheiro argentino é visto como positivo por 86% dos estudantes entrevistados. E isso não é um problema de aprendizado. É um problema de ensino. Afinal, 78% dos professores acreditam que “formar cidadãos” deve ser a prioridade das escolas, contra apenas 8% que consideram sua principal missão “ensinar as matérias”. Para a maioria dos professores, o engajamento político é mais importante do que a educação para a compreensão da realidade.

Notem que rejeitar o capitalismo não precisa levar necessariamente à rejeição da educação. Um professor anticapitalista poderia ter respondido que seu objetivo é ensinar as coisas como elas são, desde que ele acredite que as coisas são como Marx, Lukács ou Adorno disseram que elas são. Da mesma forma que um liberal pode dizer que as coisas funcionam de acordo com o que ensinam as obras de Smith, Constant ou Hayek. O problema é que socialistas não se vêem como educadores, mas como agentes de transformação social.

E isso mostra uma diferença crucial entre a sociedade livre e o socialismo. Enquanto experimentos socialistas são legítimos em uma sociedade liberal, é impossível realizar experimentos liberais em uma sociedade socialista. Porque uma sociedade deixa de ser liberal se a lei proíbe a formação de comunidades alternativas, e uma sociedade deixa de ser socialista se a lei permite a prática de atividades econômicas consensuais. Da mesma forma, ativistas em sala de aula (de qualquer estirpe política) precisam contestar a diversidade que um verdadeiro educador valorizaria.

Para um professor que deseja educar, uma pergunta desafiadora vinda de um aluno é algo positivo. Mostra um intelecto curioso, estimulado pela matéria. Para o que quer transformar, as perguntas que fogem de sua ortodoxia devem ser combatidas. São sinais de resistência à transformação. O material de trabalho de um engenheiro social precisa ser passível de moldagem. Se, para um professor honesto, as críticas funcionam como um mecanismo de verificação de seus próprios argumentos e crenças, podendo invalidá-los ou confirmá-los, para o agente transformador, os críticos são inimigos do futuro socialista. Não se deve examinar o que dizem, mas como combatê-los. O objeto da educação deixa de ser a verdade a ser comunicada, e passa a ser a ideologia a ser praticada.

Uma reforma da educação brasileira passa, como a matéria indica, por um maior envolvimento dos pais com a educação dos filhos. Mas há também um fator inerente às diretrizes políticas da educação. Logo no início da matéria, um trecho exemplifica o que quero dizer:

Em boa parte dos lares brasileiros, uma conversa em família flui com muito mais vigor e participação quando se decide a assinatura de novos canais a cabo, o destino das próximas férias ou a hora de trocar de carro do que quando se discute sobre o que exatamente o Júnior está aprendendo na escola.

Não se pode culpar exclusivamente as famílias brasileiras por essa negligência. É um problema em parte institucional da educação pública. Nós investimos nosso tempo para discutir sobre o carro, as férias ou a assinatura da TV a cabo porque sabemos que a nossa decisão nos afetará diretamente. Nesses casos, somos responsáveis pelos efeitos das nossas escolhas, e isso nos torna mais conscientes delas. Com o currículo escolar é diferente. Mesmo que os pais dediquem seu tempo para analisar minuciosamente o currículo dos filhos, a decisão sobre o conteúdo dos currículos não cabe diretamente aos pais. Cabe ao Ministério da Educação. A opinião dos pais sobre o que as escolas devem ensinar é praticamente desprezível.

Os pais têm algum poder, no entanto, sobrea eficácia do ensino, e isso muda de acordo com a escola. Por isso vemos as famílias gastarem tempo e dinheiro para escolher a melhor escola para seus filhos. A eficiência dos professores varia de escola para escola, enquanto o conteúdo a ser ensinado é praticamente o mesmo por todo o país. As famílias só terão incentivos para se dedicar a entender o que os filhos estão aprendendo quando a decisão sobre o conteúdo curricular couber exclusivamente a cada escola e não ao Ministério da Educação. Quando o pai socialista puder colocar o filho na escola socialista e o pai liberal na escola liberal, o conteúdo do ensino poderá ocupar as conversas dos lares brasileiros. A pluralidade e a descentralização do ensino sempre contribuem para a busca pela verdade.

Comentários

Escolas

Uma das questóes é que o círculo já se fechou - os professores e pais dos alunos do segundo grau e do ensino médio atuais sáo produtos do mesmo processo "educativo" criticado na matéria referida.
O resultado é que quando numa reunião de pais e professores se critica a abordagem de tópicos tão diversos como mudança climática,sistemas políticos e a realidade cubana por exemplo,via de regra a discussão não progride porque ninguem ali sabe mais do que você fala.
O consenso já se formou há tempos,impedindo desta forma que surjam, motivadas pelo descontentamento,pressões dos responsáveis exigindo alterações curriculares significativas.

É horrível quando um

É horrível quando um professor dá injeções de comunismo em sala de aula e se sente dono da verdade. Inúmeras verdades são manipuladas e transformam-se em mentiras. A opnião de um liberal é classificada como errada ou suprimida do debate. Tais professores querem a todo custo transformar os alunos em militantes da esquerda. Essa lavagem cerebral que afeta muitos jovens prejudica o ensino no Brasil e nos atrasa ainda mais!

Eu tenho 17 anos e faço o

Eu tenho 17 anos e faço o ensino médio em uma escola particular de grande prestígio aqui na região. É impossível ter uma conversa com os professores das humanas. Em uma tese sobre política, eu escrevi que "o estado deveria ser financiado voluntariamente". Riscaram esta parte da minha resposta, e na correção escreveram que "a burgueia não tem interesse em financiar o estado".
Em uma aula de História, o professor já disse que "Fidel é um salvador". Eu respondi dizendo que o trabalho dele é "ensinar história se baseando em documentos e/ou fatos históricos, e que Fidel ser ou não um salvador é opinião". Ele me respondeu que "Fidel ser salvador é fato, e não opinião."

Isso pra listar apenas dois exemplos que me vieram à cabeça neste momento.

Eu tinha grande interesse em cursar uma faculdade de humanas, como Economia e História, mas não quero passar mais tempo discutindo inutilmente com "professores". Vou fazer Engenharia.

Concordo com quase tudo o

Concordo com quase tudo o que foi dito por Diogo Costa nesse ótimo artigo. Realmente, como demonstrado pela revista Veja, temos no nosso país uma educação doutrinária de cunho esquerdizante.

Apenas discordo do ator quando ele fala que:

Quando o pai socialista puder colocar o filho na escola socialista e o pai liberal na escola liberal, o conteúdo do ensino poderá ocupar as conversas dos lares brasileiros.

Nessa hora evoco o grande biólogo e um dos maiores líderes do movimento ateu, Richard Dawkins. Para ele, o maior crime que se pode fazer é doutrinar uma criança na crença de seus pais. Afinal, isso seria muito mais restringir a liberdade da criança do que lhe garantir um ensino teoricamente neutro. Acreditar em uma coisa porque essa lhe foi imposta de forma dogmática é talvez o maior crime que alguém posso cometer contra a liberdade; contra a liberdade intelectual.

Concordo

Concordo muito com o artigo do diogo, tenho 26 anos e vivencio isso diariamente, estou no 1° semestre de graduação em Marketing e cursei também ADM em instituições particulares. O conteúdo ministrado em aula é pura doutrinação ideológica (Marxista) e anti-americanismo dos mais baixos possíveis, não defendo os EUA, porém alguns professores chegam ao ridículo de dizer que "os EUA são o país onde mais existe perseguição a Ateus..."
Agora em relação ao comentário anterior, amigo sinto muito, se os próprios pais não puderem ensinar quais os valores aos filhos, então estamos realmente perdidos. O maior crime é deixar que os seus filhos sejam doutrinados fora de casa, cabe a família educar e enisnar os reais valores para a criança.
[]´s

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