
Defendendo o que não existe
06 de Outubro de 2008 - por Pedro Sette Câmarapor Pedro Sette Câmara
No seu finado blog, Adriano Correia pegava uma questão interessante, na qual eu venho pensando mais do que de costume, a partir de uma bola levantada no 5 Dias: resumindo, tanto liberais quanto comunistas apelariam para o argumento de que “o meu sistema nunca existiu” na hora de defender sua preferência e criticar a realidade. E os dois lados têm razão, mas de modos diferentes.
É claro que o comunismo como imaginado por Marx nunca existiu mesmo. Lembro de uma coisa que Olavo de Carvalho disse em uma de suas aulas num tempo remoto e distante: “não precisamos ter medo do comunismo, porque ele nunca vai existir; o problema é o que as pessoas fazem quando tentam instaurá-lo”.
Um liberalismo puro-sangue também nunca existiu. Por mais que nos voltemos para os EUA, a Revolução Americana manteve a escravidão, e o fim dela representou também o fim do federalismo como imaginado por aqueles senhores de escravos que eram os founding fathers. Agora, então, com o bailout...
Porém, há uma diferença importante. O liberalismo não se propõe como utopia e admite gradações na realidade. Prova disso é que todos os liberais que conheço respeitam a idéia de um índice de liberdade econômica. Nunca vi um socialista ou comunista que falasse em índice de países comunistas e usasse um critério tangível como o nível de intervenção estatal. Ou seja: quando um liberal fala que o lugar x ou y é mais ou menos liberal, ele está sendo bastante literal. O mesmo não se pode dizer de um comunista. Qual deles aceitaria dizer que tal lugar é mais ou menos comunista? Existe um índice de comunismo aceito entre os marxistas? Alguém já pensou em fazer isso?
Um liberal pode falar em “comunismo” querendo dizer apenas “muita intervenção estatal, mas muita mesmo”. O liberal define a política nesses termos. Existe um direito natural à liberdade, no sentido de não ser coagido, e à propriedade. A função do Estado é garantir esse direito, e não usurpá-lo em nome de um “objetivo maior”, até porque isso sempre soa muito bonito no papel e na prática é apenas retórica a serviço da exploração. E é claro que ao usar o termo “comunista” nesse sentido o liberal está negando a teoria marxista do processo histórico e da luta de classes. Para o liberal, tudo isso é uma fantasia inventada para justificar um elitismo sem precedentes e um governo cujo poder faria corar Napoleão.
Essa mesma filosofia da história é que provavelmente leva o marxista, ou socialista, ou comunista, a não celebrar o bailout. As principais divergências entre os socialistas dizem respeito ao modo como as etapas históricas se sucedem. Um liberal pode admitir que hoje podemos corremos o risco de perder ou ganhar liberdades, e que amanhã a situação da liberdade será igualmente periclitante, continuando a depender da boa vontade dos homens e mulheres, mas um marxista puro-sangue não poderia dar-se ao luxo de uma visão tão simples. Ele a julgaria simplista, e isso na melhor das hipóteses...
Mas a partir dessa divergência entendemos que as palavras “o liberalismo nunca existiu”, ditas por um liberal, têm um sentido muito diverso das palavras “o socialismo nunca existiu” ditas por um socialista. Primeiro porque, para o marxista puro-sangue, o socialismo é inevitável, enquanto que para o liberal o liberalismo depende antes de tudo de ser desejado pelas pessoas (é por isso que organizações como o OrdemLivre.org estão aqui: para tornar o liberalismo mais desejável). Segundo, como o liberalismo é antes um conjunto de princípios e valores que um “sistema”, podemos avaliar qualquer política pública em particular e dizer se ela é mais ou menos liberal. Com o bailout, os EUA ficam mais intervencionistas. Mas os direitos de propriedade ainda são mais claros e mais importantes lá do que em boa parte do mundo. Por isso é que os EUA podem ser, sob aspectos diferentes, prova do fracasso do intervencionismo e do sucesso do liberalismo.
Outro ponto importante é o seguinte: o liberal defende a existência de um governo liberal sem esperar que toda a sociedade seja liberal. É claro que, em última instância, uma sociedade precisa compartilhar certos valores, mas ainda assim o liberal não é ingênuo a ponto de achar que um dia existirá uma sociedade sem conflitos. Sabendo que estes só podem ser administrados, mas nunca eliminados, o liberal defende o sistema mais apto a lidar com as diferenças. Não é preciso eliminar os reacionários – basta que eles não matem nem roubem, e já existem leis para esses crimes.
É claro que o liberalismo pode ser representado por um sistema – saber como é esse sistema é que é talvez seja a grande divergência. Se socialistas discordam quanto a meios, liberais discordam quanto a fins, e fins bem pontuais. Devemos proteger direitos autorais? Legalizar o aborto? (Eu diria “não” nos dois casos, mas ainda preciso pensar mais sobre o primeiro.) Mas mesmo que nem todos os fins almejados pelos liberais sejam atendidos, isso não os impede de graduar as sociedades e admitir que o liberalismo existe sob algum aspecto. Se um socialista admitisse que um grau maior de intervencionismo significa a proximidade do socialismo, estaria formulando sua posição em termos liberais.
O que não seria nada mau.
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