
As eleições que os Estados Unidos venceram
06 de Novembro de 2008 - por Bruno GarschagenPor Bruno Garschagen
Barack Obama vendeu o peixe e os americanos compraram. Era um candidato à presidência do mais poderoso país do mundo. Agora, presidente eleito. Não há problema, é do jogo, que ele e seus apoiadores repitam slogans de campanha durante a campanha. Uma vez decidida a eleição é o momento de abandonar frases de efeito, como o de que “a América vai mudar”. Porque a frase não é só uma frase: é uma declaração de princípios. A parte substantiva dessa declaração é extremamente perigosa por ignorar estrategicamente o fato de que Obama representa uma parte do povo americano que o elegeu e uma parte do mundo que o apoiou. Como representante de uma parte não pode, no papel de comandante do governo, se arvorar no direito de impor uma idéia de nação, de moral, de costumes, de futuro, sobre um país inteiro (ou ao mundo), assim interferindo nos diferentes modos de vida contrários, alheios ou indiferentes ao projeto.
Conferir a um candidato ou a um político eleito poderes que ele nem deveria pensar que existem, ou, que, se pensasse, deveria recusar-se peremptoriamente a exercê-los, é de alguma forma legitimar qualquer viés ou disposição discricionária para um eventual abuso do poder limitado e temporário que lhe foi confiado.
Os descontentes canalizam seus ressentimentos num irrefreável desejo de mudança, muitas vezes necessárias, como é o caso emblemático da presidência de G.W. Bush. Mas uma troca de presidente, com as devidas correções de rumos políticos e econômicos, não equivale à defesa do desejo de revolução permanente dos costumes. Porque nisso subjaz a temível e temerária idéia de que um chefe político pode e deve operar tal revolução. E, quanto maior for o apoio capitalizado por esse governante, maior a legitimidade virtual invocada para, na base do martelo, massacrar a dissensão. O argumento quantitativo se sobrepõe ao qualitativo. Em vez de debate, Ultimate Fighting.
Barack Obama primeiro canalizou para a política suas próprias expectativas, esperanças e desejos de mudança. Depois, virou o canal de absorção e difusão dos sentimentos que captou. O amadurecimento pessoal e profissional fundiu os elementos, que passaram a fazer parte do patrimônio individual. Por causa mesmo dessa assimilação mais ou menos filtrada das disposições emocionais é plausível considerar como parte desse capital uma tendência para considerar-se portador de uma forma específica de superioridade. Essa certeza dos que o apóiam é potencializada pela crença dele próprio sobre ser um indivíduo “eleito”.
Insisto no ponto da responsabilização dos indivíduos por suas escolhas, algo que considero mais importante do que as promessas de perfeição feitas por um político. As pessoas agem e reagem aos discursos do candidato segundo a intimidade de comunicação que esse candidato consegue estabelecer com o público. Obama fez promessas realizáveis e irrealizáveis. Para além disso, houve as promessas que não foram feitas por ele. Houve mesmo uma projeção de expectativas, que Obama conseguiu alimentar e potencializar. É o caso de as palavras de um homem que se modificam nas entranhas dos vivos, para usar uma forma corrompida do verso de W. H. Auden (“The words of a dead man are modified in the guts of the living”, In Memory of W. B. Yeats).
O belo discurso da vitória é importante para tentar definir, a partir de agora, o significado político e moral da palavra “mudança” – se a mudança de agora pode ser entendida apenas como uma correção no rumo do barco, para usar uma imagem de Oakeshott, ou como uma remodelagem da cultura americana. Lendo o discurso proferido em Grant Park, Chicago, no já histórico 4 de novembro de 2008, a segunda hipótese me parece estar apenas na cabeça dos apoiadores e simpatizantes de Obama, principalmente na dos estrangeiros, ávidos por alguém que refunde os Estados Unidos:
“Lembremos que foi um homem deste estado que primeiro carregou a bandeira do Partido Republicano à Casa Branca, um partido fundado sobre valores de autoconfiança, liberdade individual e unidade nacional.
“Esses são valores que todos compartilhamos. E enquanto o Partido Democrata obteve uma grande vitória nesta noite, isso ocorre com uma medida de humildade e de determinação para curar as fissuras que têm impedido nosso progresso.
“Como [o ex-presidente Abraham] Lincoln [1861-1865] afirmou para uma nação muito mais dividida que a nossa, nós não somos inimigos, e sim amigos. A paixão pode ter se acirrado, mas não pode romper nossos laços de afeição. E àqueles americanos cujo apoio eu ainda terei que merecer, eu talvez não tenha ganho seu voto hoje, mas eu ouço suas vozes. E eu preciso de sua ajuda. Eu serei seu presidente também.
“(...) nesta noite nós provamos uma vez mais que a verdadeira força da nossa nação vem não da bravura das nossas armas ou o tamanho da nossa riqueza mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança.
“Esse é o verdadeiro talento da América: a América pode mudar. Nossa união pode ser melhorada. O que já alcançamos nos dá esperança em relação ao que podemos e ao que devemos alcançar amanhã”.
União e reforço dos valores e ideais americanos alicerçaram o discurso. É a confirmação de que a eleição de ontem mostrou a grandiosidade, não de um candidato, mas da democracia americana celebrada efusivamente por esse mesmo homem que arrebatou o mundo e cuja eleição é a prova irrefutável das virtudes do país e de seu sistema.
O aspecto intrigante e cômico dessa história é a consagração do candidato numa escala mais ou menos equivalente à demonização do país sob a forma do antiamericanismo, como se Barack Obama não fosse beneficiário dessa mesma democracia liberal americana que tanto ódio, rancor e repulsa provocam em boa parte de seus entusiastas dentro e fora dos Estados Unidos.
O país, sem dúvidas, foi o grande vencedor dessas eleições.