Ordem Livre

 

Por Michael C. Moynihan

Seria razoável supor que poucos nerds amantes de punk rock – como os leitores de revistas como Maximum Rock n’ Roll e a recentemente extinta Punk Planet – já tenham ouvido falar da banda Porno Para Ricardo. Ao contrário da banda pós-punk galesa Manic Street Preachers, que tocou um set de músicas altamente politizadas para o ditador cubano Fidel Castro em 2001 (inclusive a grudenta balada ideológica “Baby Elian”), a Porno Para Ricardo não é bem-vinda em nenhum palco patrocinado pelo Estado em Havana. Vejam bem, Porno Para Ricardo é uma banda cubana, e seu vocalista, o resmungão e rabugento Gorki Aguila, de 39 anos, deseja mais a liberdade política do que a “assistência médica gratuita”. Essas questões não preocupam tanto bandas como o Manic Street Preachers e o Audioslave, outra banda pró-Castro que tocou recentemente em Havana. Ambas podem se dar ao luxo de ser radicais chiques. Ambas têm contratos com a Sony.

Sem dúvida perturba Aguila perceber que astros ricos do rock apóiam seus torturadores e bajulam seus carcereiros, mas será que ele inveja o sucesso que obtêm no capitalismo? Conforme disse recentemente em uma entrevista, “O comunismo é um fracasso. Um fracasso total. Por favor. Esquerdistas do mundo – melhorem o seu capitalismo! Não escolham o comunismo!” Por declarações como essa, por escrever músicas como “El coma andante” (“O coma andante”), e por ter posto em seu website (baseado nos Estados Unidos) uma foto da banda colocando o jornal Granma, pertencente ao Partido Comunista, em uma máquina de moer carne, Aguila foi preso, acusado de “periculosidade social”.

Quando membros da mídia internacional passaram a se interessar pelo caso, as autoridades cubanas demonstraram piedade e libertaram o vocalista. Os CDs da banda ainda estão proibidos, as músicas da Porno Para Ricardo não tocam nas rádios, mas Aguila está novamente “livre”.

Na semana passada, Yoani Sanchez, proprietária do famoso blog Generación Y e uma das “100 pessoas mais influentes de 2007”, de acordo com a revista Time, foi intimada a comparecer a uma delegacia de polícia, para ser informada que tinha “passado dos limites da tolerância” e que estava se associando com “elementos contra-revolucionários”. O blogueiro Claudio Cadelo também foi intimado, como também foram outras pessoas que escrevem de forma não tão secreta na internet, e que planejavam participar de uma conferência sobre jornalismo digital. Em resposta, algum ministro orwelliano fez ser aprovada uma lei proibindo “o uso de aplicativos que afetem a integridade ou a segurança do Estado”. Em outras palavras, parem de escrever ou irão para a prisão.

Então, cá estamos nós, dois anos depois da aposentadoria do arrogante tirano Fidel Castro, que se retirou para uma chácara mobiliada, protegida e bem abastecida, para produzir artigos revoltantes, incoerentes e indigeríveis, detalhando os seus “sucessos” revolucionários e zombando dos “fracassos” ianques. Previa-se – ou talvez apenas se esperava – que seu irmão Raúl, ideólogo austero e ex-chefe das forças armadas que hoje governa Cuba, fosse movimentar o país em direção à abertura, permitindo aos cidadãos cubanos médios possuírem aparelhos de DVD pelos quais não poderiam pagar, para ver filmes que lhes são inacessíveis. Porém, blogueiros e punks, jornalistas e bibliotecários, ainda são presos e ameaçados. É difícil chegar a números precisos em dinastias ditatoriais, mas as estimativas sugerem que ainda há mais de 250 prisioneiros políticos padecendo em prisões sujas e malcheirosas.

Apesar dessa falta de progresso, jornalistas e celebridades de destaque ainda conseguem executar piruetas deselegantes em torno da verdade, argumentando que a revolução cubana é algo que vale a pena ser celebrado. Na matéria de capa da revista The Nation de 25 de novembro, o ator Sean Penn detalha a sua peregrinação de Caracas a Havana, para se por aos pés – e servir de estenógrafo – de Hugo Chávez, o homem forte da Venezuela, e do co-ditador de Cuba Raúl Castro. Marc Cooper, editor contribuinte de The Nation e ex-tradutor de Salvador Allende, comentou em seu blog pessoal que a matéria “terrivelmente embaraçosa” certamente era candidata ao “Troféu Oliver Stone de textos ruins sobre Cuba”.

No entanto, nada disso surpreende. Anteriormente, Penn já tinha escrito sobre uma visita sua a Fidel e sobre como foi desarmado (como se fosse necessário) por “seu sorriso carinhoso”. Sobre Raúl, escreve empolgadamente que “seus olhos brilham e sua voz é forte”; ele “se move com a agilidade de um jovem”; ele é “caloroso, aberto, energético e tem uma inteligência aguçada”. Mais de dois anos depois de assumir as rédeas do poder, Penn diz que Raúl Castro “pode muito bem ser um grande homem”.

Penn descreve como foi forçado a voltar aos dois países depois de “digerir minhas primeiras visitas à Venezuela e Cuba e o tempo que passei com Chávez e Castro. Eu passei a ser cada vez mais intolerante em relação à propaganda”. Agora, é preciso ressaltar que a traiçoiera propaganda a que Penn se refere, que leva um homem normalmente razoável a se tornar umficar intolerante, não é da VTV, a rede de televisão estatal agressivamente chavista da Venezuela, nem os ridículos jornais estatais cubanos Granma e Juventud Rebelde.

Há muito que dizer sobre o sanguinário legado de Raúl Castro, sobre seu papel de destaque na destruição de uma nação rica financeira e culturalmente, mas apenas algumas anedotas são necessárias para contextualizar a entrevista bajuladora de Penn. Um ex-revolucionário recorda que nos dias que imediatamente seguintes após a ascensão dos comunistas ao poder, em 1959, Raúl e Che Guevara “competiam em assassinatos e maldades”, executando todos que fossem suspeitos de serem “agentes” de Batista ou “contra-revolucionários”. O escritor Norberto Fuentes,, outro ex-companheiro e amigo dos irmãos Castro, disse a Brian Latell, autor do livro ”After Fidel: Raúl Castro and the Future of Cuba’s Revolution” [Depois de Fidel: Raúl Castro e o futuro da revolução cubana], uma história “assustadora” do sangue frio de Raúl. Em 1966, Raúl inexplicavelmente exumou os corpos daqueles que mandara executar na cidade de Santiago, colocou-os em um “caixão” coletivo de concreto e depositou os corpos nos mares profundos em torno da ilha.

Mas nada disso parece incomodar Sean Penn. Na realidade, no que parece ser uma resposta preventiva a seus críticos, Penn pergunta a Castro sobre as “alegações de violações dos direitos humanos” em Cuba e escreve que Eloy Gutierrez Menoyo, dissidente da esquerda cubana, ex-companheiro de Castro, e que recentemente voltou à Havana, “reconhece” que os problemas com os direitos humanos em Cuba são resultado de “manipulações” anti-Castro dos cubanos de Miami. (Por acaso, Menoyo passou 20 duros anos nas prisões de Castro, onde foi torturado e, em resultado disso, é cego de um olho e surdo de um ouvido.)

Nem tudo é enganação da máfia de Miami, escreve Penn, porque “hoje existem cerca de 200 prisioneiros políticos em Cuba e aproximadamente 4% deles foram condenados por crimes de dissidência não violenta”. Então, existem apenas oito prisioneiros políticos na Cuba comunista que foram “condenados” por “dissidência não violenta”? (Se Penn pensa que a corte militar americana é má, ele pode tentar investigar como as “condenações” são obtidas pelos irmãos Castro.) De acordo com os Repórteres Sem Fronteiras, “Dezenove dos jornalistas presos na “Primavera Negra”, de março de 2003, continuam na cadeia, pagando penas de 14 a 27 anos em terríveis condições carcerárias. Com um total de 23 jornalistas detidos, Cuba é o segundo maior encarcerador de jornalistas do mundo, perdendo apenas para a China”. O relatório da Freedom House sobre Cuba, lançado em 2008, observa que “membros de grupos que existem à margem do Estado são rotulados de criminosos contra-revolucionários e estão sujeitos a repressão sistemática e prisão, além de espancamento nas cadeias, perda de trabalho, de oportunidades educacionais e de assistência médica; e intimidação por agentes de segurança uniformizados ou à paisana”.

Nada disso incomoda o cubano comum, escreve, pois funcionários anônimos do governo americano e “dissidentes famosos” reconhecem que “o Partido Comunista obteria 80% dos votos” se o país algum dia conseguisse realizar uma eleição. Então, por que não testarmos essa teoria e calarmos os críticos internacionais? Porque nem mesmo o governo acredita que teria o apoio da grande massa proletária do país. Como um estudante declarou recentemente ao New York Times, os jovens cubanos “não acreditam em um mundo em que a internet é proibida, e todo o seu mundo é Cuba, com o resto mantido do lado de fora”. Na realidade, até mesmo Eloy Gutierrez Menoyo, o dissidente de esquerda citado por Penn, disse há pouco tempo a um repórter, “fale com os jovens, e 90% deles lhe dirão que o sonho deles é abandonar o país”.

Mas não há necessidade de deixar o país, mesmo se isso fosse permitido, ele explica, porque o Castro, o Quase Infante, caminha vagarosamente em direção à liberdade e à abertura. Examine essa frase, na qual Penn argumenta, sem qualquer prova, que a presença de Raúl Castro no poder poderia provocar uma onda de reformas democráticas: “Em um relatório da ONG Council on Hemispheric Affairs, o porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, John Casey [sic] reconhece que Raúl poderia realizar uma “abertura maior e dar mais liberdade para o povo cubano”.

Essa citação censurada de Tom Casey vem, na verdade, de uma entrevista com a Associated Press, citada no website da ONG esquerdista Council on Hemisferic Affairs, o que diz alguma coisa sobre a capacidade de Penn como jornalista investigativo. Mas será que Casey realmente sugeriu que Raúl Castro poderia ser o líder de uma era de abertura e liberdade? Não exatamente:

“A mudança de guarda não é significativa em si ou por si”, disse o vice-porta-voz do Departamento de Estado aos repórteres, repetidamente se referindo a Raúl Castro como “ditador-light” ou “Fidel-light”. “Ela será significativa se nos levar, de fato, a uma maior abertura e liberdade para a população cubana e, em última análise, a uma transição democrática”, disse. Porém, ele advertiu que “a análise geral é que Raúl Castro é um “Fidel-light”. Simplesmente a continuação do regime de Castro, de sua ditadura”.

Não há e nem haverá liberdade em Cuba enquanto a família Castro estiver no comando do Estado. E as recentes prisões de dissidentes simplesmente reforçam o que todos, exceto os mais iludidos, já sabem há 50 anos. No entanto, aqueles que se chocam, horrorizados que as eleições americanas tenham sido fraudadas em 2000 e em 2004, que advertiram a respeito de um plano sinistro já pronto para 2008 – pense em Greg Palast, Robert Kennedy Jr., Gore Vidal – parecem não dar muita importância às intimidações sistemáticas e reconhecidas a eleitores na Venezuela ou, no caso de Cuba, à total ausência de eleições democráticas. Como celebridades cretinas como Sean Penn podem continuar insistindo que os cubanos devem continuar a ser ratos de laboratório para os experimentos sociais fracassados dos quais ele mesmo não precisa participar?

E embora pareça injusto bater em um jornalista ingênuo, solipsista e vaidoso como Sean Penn, vale a pena lembrar que a narrativa hollywoodiana da Cuba revolucionária – perpetuada por Oliver Stone, Danny Glover, Harry Belafonte, Benicio Del Toro, Steven Soderbergh, Naomi Campbell e Michael Moore, entre outros – teimosamente, como o próprio Fidel, se recusa a morrer.

Original em inglês.

Michael C. Moynihan é formado em história pela University of Massachusetts e trabalha como editor da Reason Magazine.

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