
Os políticos devem ser modelos... de quê?
19 de Janeiro de 2009 - por Pedro Sette Câmarapor Pedro Sette Câmara
Era um almoço na minha casa, durante a semana, e pessoas que eu admiro não hesitaram em lamentar “a falta de uma figura forte na política, para unir o país”. Todos ficaram um pouco atordoados quando protestei, dizendo que não esperava que os políticos fossem “figuras fortes”, mas que apenas cumprissem as leis. Não quero um rei, um soberano, um “grande líder” ou “grande timoneiro” ou “guia genial dos povos” cujo retrato estará por toda parte “unindo o país”; prefiro um político que se destaque pelo comedimento, pela prudência, pela honestidade. Não me parece que seja função dos políticos, incluindo o presidente, ser um grande modelo para todos os brasileiros, exceto nas virtudes que destaquei. Não sou ingênuo a ponto de crer que mesmo o mais liberal e razoável dos sistemas possa dispensar a simples bondade e probidade daqueles que o administram, mas também não sou ingênuo a ponto de não perceber que esse mesmo sistema terá ido para o brejo quando os políticos responsáveis se tornarem mais importantes do que ele mesmo.
É por isso que eu mesmo fiquei atordoado ao ler o artigo de Roberto da Matta afetando estar chocado com a falta de leitura do presidente Lula. Não apenas da Matta cita Lula fora de contexto, afirmando que Lula declarou à Piauí que a leitura mesma lhe dava azia, quando na verdade Lula disse isso só a respeito da imprensa, como ainda sugere que consta na job description do presidente da república ser um intelectual modelo e declarar seu amor pela leitura. Amor que na verdade é um fetichismo, porque nem mesmo da Matta, que afirma que “morreria sem livros”, certamente não se referia a qualquer espécie de livros. Creio mesmo que, excetuando a prosa de ficção e outras obras experimentais, que têm no formato do livro algo que determina a experiência desejada pelo autor, todos os conteúdos têm na escrita apenas um acidente de transmissão, e não sua própria essência. Quem concordaria comigo seria Sócrates, o filósofo grego, ao menos na versão que nos é apresentada por Platão. Sócrates não só não escreveu nada como condenou a escrita no diálogo Fedro, dizendo que ela levaria os homens a perder a memória. O impacto de Sócrates sobre a cultura ocidental já é suficiente para colocar a ideia de que “ler é importante” entre parênteses.
Diz da Matta que “Quando o presidente diz que não lê, ele envia uma poderosa mensagem à sociedade que o elegeu.” Mas essa mensagem só seria forte porque essa sociedade deposita sobre o presidente uma obrigação completamente injusta. E, na verdade, quem deposita essa obrigação não é a sociedade como um todo - basta olhar para os números de venda de livros no Brasil; uma editora já me disse que a venda média de um título de poesia fica em 500 exemplares (sim, quinhentos, não faltou nenhum zero) - , mas aqueles que, como Roberto da Matta, “leem” e confundem essa atividade quase sempre instrumental com sua finalidade, que é tomar conhecimento de certas coisas, pensar nelas. A maior parte das pessoas provavelmente não dá bola para o fato de o presidente ler ou não ler. Mas muita gente, em todas as classes, parece esperar que o presidente seja uma espécie de super macho alfa da nação, responsável pela nossa prosperidade, pelo consolo moral dos aflitos e desabrigados (você só quer o abraço do presidente depois de uma tragédia natural se acha que ele tem algum poder mágico), pela preservação dos valores, pela exaltação da “identidade nacional” (o que quer que isso seja) e agora até pela leitura ávida. Só falta agora um atleta olímpico brasileiro reclamar que não pode admitir um presidente que não corra na esteira todos os dias - no mínimo.
Bom seria se a república tivesse sido proclamada e esse espírito monarquista tivesse sido abolido. O presidente não deveria ser o benfeitor dos povos, nem deveria ser enxergado como um Grande Líder que Portanto Tem de Ser Melhor que Todo Mundo - o que bizarramente incluiria atos “magnânimos” realizados com o dinheiro alheio. Basta, como falei, que o presidente seja comedido, honesto, preocupado em manter as leis. Pouco importaria se ele fizesse isso e depois fosse ler a Metafísica de Aristóteles no original ou jogar sinuca.
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