
A eleição de El Salvador
16 de Março de 2009 - por Juan Carlos Hidalgopor Juan Carlos Hidalgo
Em 15 de março os salvadorenhos foram às urnas para uma eleição presidencial que pode resultar em um grande desvio no movimento em direção ao livre mercado e à democracia que caracterizou o país desde o fim da guerra civil em 1992. Um retrocesso como esse seria lamentável.
Desde o fim da guerra civil, El Salvador transformou sua economia implementando um amplo processo de liberalização que incluiu a privatização de empresas estatais, desregulamentação, liberalização financeira e comercial, privatização da previdência seguindo o modelo chileno, e a adoção do dólar americano como moeda oficial. Hoje, El Salvador está entre as 25 economias mais livres do mundo de acordo com índice Economic Freedom of the World do Fraser Institute.
Essas reformas deram ótimos frutos. Entre 1991 e 2007, a porcentagem de famílias pobres caiu de 60% para 34.6%. As em extrema pobreza, de 28.2% para 10.8% no mesmo período. Apenas uma década após a implementação das primeiras reformas, o número de matrículas na educação primária subiu quase 10 pontos percentuais, a mortalidade infantil caiu 40%, e a população sem acesso à água não-contaminada diminuiu pela metade.
Ainda assim os críticos questionam as reformas de mercado, apontando para os baixos níveis de renda de El Salvador, e para as taxas de rendimento medíocres. Alguns dizem que as melhoras nos indicadores sociais do país são resultado das centenas de milhões de dólares que os salvadorenhos recebem do exterior todo ano. No entanto, há muitas evidências de que os números oficiais subestimam a performance da economia, sobretudo porque o setor de serviços - uma área em que El Salvador é líder na região - está grosseiramente subvalorizado na estimativa do PIB do país. A economia é provavelmente 30% maior do que os números oficiais indicam, e o crescimento médio per capita desde 1992 tem sido de aproximadamente 5,2% ao ano, bem mais do que a estimativa oficial de 1,9%.
A ameaça a estas realizações está na FLMN, o antigo grupo de guerrilha marxista, que trocou a luta armada em 1992 pela política eleitoral e tornou-se o principal partido de oposição do país. Em vez de seguir um curso de centro-esquerda moderna semelhante ao do Concertación Nacional, do Chile, a FLMN decidiu manter seu programa radical de esquerda. Apesar de ter feito de Mauricio Funes, uma figura popular moderada, seu candidato à presidência, os altos oficiais da FLMN deixaram claras suas intenções de desfazer as reformas de mercado implementadas e emular a revolução socialista de Hugo Chávez na Venezuela.
Há muitas razões por que a FMLN teve a liderança em muitas pesquisas apesar do desenvolvimento dos últimos 15 anos. Primeiro, durante a presidência de Antonio Saca, o partido ARENA, da situação, perdeu a motivação reformista que caracterizou os governos anteriores a partir de 1989. Pior ainda, o candidato da ARENA, Rodrigo Ávila, adotou uma retórica populista contrária às reformas de mercado.
Mas talvez a principal fonte de descontentamento popular contra a ARENA tenha sido o clima de violência no país. Com uma taxa de homicídios de 60,7 por 100.000 pessoas em 2007, El Salvador é o país mais violento do mundo. A falta de segurança básica impõe custos enormes à economia salvadorenha e afugenta investidores. De acordo com um estudo feito pelo Conselho de Segurança Pública Nacional de El Savador, a violência custou ao país 2 bilhões de dólares em 2006 - quase 11% do PIB.
Outro fator que contribuiu para a popularidade da FMLN foi que um terço da população adulta de El Salvador tem menos de 30 anos. Estes eleitores não recordam, ou tem vagas recordações, de como era seu país há 15 anos. Não é coincidência que o apoio à FMLN seja particularmente grande entre os mais jovens. Como observou um de meus colegas salvadorenhos durante uma visita ao país no ano passado, “É verdade; os jovens hoje têm dificuldades para pagar seus celulares, combustível e faculdade. O que eles não lembram é que há 15 anos seus pais não tinham dinheiro para telefones nem carros, viviam em favelas e nem sonhavam em ir à faculdade.”
Esperemos que eles nunca tenham de descobrir por si próprios, e que venha um dia em que as eleições em El Salvador não signifiquem um risco tão grande.