
A minha tia velhinha de Taubaté
26 de Maio de 2009 - por Claudio ShikidaLiguei outro dia para a minha tia, uma velhinha que mora em Taubaté. Como se sabe, em Taubaté há muitas velhinhas. Em particular, minha tia tem se sentido muito solitária. Não é para menos. Uma grande amiga sua ficara famosa por muitos anos por conta de um famoso cronista que sempre usava uma personagem fictícia, uma tal de “velhinha de Taubaté”, em suas críticas aos políticos.
Entretanto, com o início da administração Lula da Silva, o tal escritor simplesmente cortou as conversas com a velhinha. Imagina o que minha tia e todas suas colegas idosas de Taubaté sentiram! Foi uma tristeza só. Se o Estatuto do Idoso punisse escritores por genocídio literário, talvez a Corte de Haia pudesse ter um papel neste caso. Mas ainda não estamos neste grau de desespero. O que é ótimo para o escritor (e para todos nós).
De qualquer forma, lá fui eu falar com minha tia. Liguei o telefone, rezei para a ANATEL e pensei no prazer da conversa com minha tia, líquido de impostos.
— Alô.
— Alô. Quem é?
— Sou eu, o Cláudio.
— Olá, Cláudio. Como vai?
— Tudo bem. E a senhora?
— Ah, muito triste. A idade chega, a gente quer desabafar, mas aquele meu escritor acabou com a Velhinha...
— Ele não fez por mal. Muitas ocupações, imagino, tanta coisa para fazer. Estes jornais exigem muito.
— Mas não custava. Quando eram aqueles outros safados ele sempre estava lá, querendo saber das fofocas...
— É a vida, tia. A senhora sabe, o sujeito tem que ganhar uns trocados todo mês. Não existe bolsa-cronista e pão, leite e afins precisam ser comprados. Se a senhora pensar que a carga tributária é elevada...
— Menino, eu sei. Eu sei! Eu até vi a tal manifestação das pessoas ontem, na TV. Como era mesmo? Dia da Liberd... Liber....
— Liberdade. Liberdade de impostos.
— Ai, palavra feia, lembra muito o neoliberalismo. É a mesma coisa? Aquele simpático escritor sempre torcia o narizinho dele para o neoliberalismo...
— Calma, tia. Deixa o escritor em paz. Ele nem fala mais da Velhinha aí da sua cidade... Deixa eu explicar. O dia da liberdade dos impostos é um protesto das pessoas. A cada dia que passa, todo mundo tá mais impaciente porque nunca se sabe quanto realmente se paga de impostos e, pior ainda, não vêem nada de bom saindo do governo.
— Mas “liberdade”? Meu sobrinho, isto é coisa de empresário...
— Não tia. A senhora, eu, o lavador de carros, o faxineiro, todos gostamos muito de liberdade.
— Mas não a de fazer comércio. Isto é coisa de explorador.
— Mas tia, a senhora não acha que sabe melhor do que ninguém o que fazer da sua vida, com o seu dinheiro?
— Claro!
— Pois defender a liberdade é defender este direito.
— Mas e os outros? Não é egoísmo?
— Claro que não tia. Defender a liberdade significa também defender que você mesma decida como ajudar os outros.
— Nossa... Eu nunca tinha pensado sob este ângulo. Sabe, tem um senhor aqui no bairro que sempre me ensinou que liberdade era um problema porque uma tal de dialética, que é o motor da história...
— Tia, não existe uma única forma de pensar na história. Historiadores passam anos discutindo sobre como a história evolui, se é que tal evolução existe...
— Humm... Agora percebi! O meu vizinho tem uma visão da história que ele acredita ser...
— ...a única verdadeira. Exatamente, tia. A senhora acha isso razoável?
— Olha, com todos estes anos, aprendi que a gente deve ser sempre cético. Nunca te disse isso?
— Claro, tia, claro.
— Cláudio, tá na hora do meu remédio. Depois conversamos mais. Quero saber mais sobre esta liberdade. Você bagunçou um pouco minhas crenças... A gente, sem querer, acaba criando preconceitos, né?
— Claro, tia. Sem problemas. Eu também tenho os meus e, de forma alguma, acho-me o dono da verdade... Ligo para senhora depois. Grande abraço, tia.
— Para você também, Cláudio. Tchau.
— Tchau.
Pergunto ao leitor: quer saber mais das minhas conversas com minha tia de Taubaté?