Ordem Livre

 

Vocês devem se lembrar da minha tia velhinha lá de Taubaté. Falamos dela outro dia. Pois não é que ela me ligou neste domingo, preocupada com a situação mundial?

— Oi, sobrinho, como vai?

— Tudo bem, tia. E a senhora?

— Ah, estou muito preocupada. Aquele escritor famoso continua sem citar a velhinha de Taubaté...

— Deixa ele em paz, tia. Se ele acha que não há o que criticar no governo atual, é uma escolha dele. Ele é livre para escolher.

— É, eu sei, se bem que liberdade de escolha, ele dizia...

— Tia, já expliquei para a senhora o significado de liberdade. Deixa de ranço!

— Eu sei, eu sei. Tudo bem. Mas, meu caro sobrinho, e esta maluquice do Irã?

— Como assim?

— Este povo nas ruas, confusão com a polícia. Eu sempre achei que este pessoal era diferente daqueles carniceiros de Israel.

— Tia, mas que absurdo. A senhora virou neonazista?

— Não, mas a imprensa sempre fala que os israelenses...

— Imprensa, tia, imprensa. Gente que, como eu e a senhora, tem interesses. Gente que se deixa levar pelos anúncios pagos do governo, que por sua vez tem uma relação política com o governo do Irã, hoje em dia, diferente do que já teve no passado. Gente que tem um ponto de vista nem sempre igual ao seu e, claro, gente que erra, como a gente.

— Quanto “gente”... Você está com um péssimo português. Não tem estudado não?

— Bem tia, he he he, o que importa é o ENEM. Eu passei, logo...

— Ah, vocês, jovens...

— Mas tia, vem cá. A senhora não ficou chateada com aquela história do Al Gore com o Bush?

— Fiquei.

— Pois é. No Irã, pelo que eles mesmos admitem, há irregularidades sérias em algumas zonas eleitorais. Tem lugar que tem mais voto do que eleitor inscrito.

— Que absurdo!

— A senhora não acha isto revoltante?

— Claro. Mas estes jovens estão muito exaltados! Para que brigar tanto?

— Tia, tia, a manifestação deles é pacífica.

— Pensando bem, o que importa é se o presidente faz. Se ele mente, se tem amigos no “mensalão”, isto não é tão importante.

— Tia, “mensalão” foi aqui.

— Ah, é. É mesmo.

— Mas, tia, não é bem assim. Não tem esta de “o que importa é se ele não mente”. Acho que a gente tem que ser realista, mas também acho que não podemos abrir mão de certa revolta contra algumas imoralidades.

— Como assim?

— Bem, é claro que o importante é criar regras e procedimentos que minimizem a corrupção, a sacanagem, a roubalheira. Este é o caminho. Mas não dá para não se revoltar contra tudo isto. É certo que revolta moral não resolve o problema, mas acho que nos ajuda a criar filhos melhores para o futuro.

— Hum, é mesmo, você tem razão. Mas, sabe, sua tia já está velha, cansada. Este país não muda nunca...

— É tia, mas, como disse alguém, o preço da liberdade é a eterna vigilância.

— Hum, lá vem você com esta história de “liberalismo”.

— Tia...

— Sim, eu sei. Já entendi que nem todo liberal come criancinha, como dizem alguns...

— Ah tia, outra coisa. Tem um pessoal liberal aí que acabou de fundar, dia 20 último, um partido liberal. Chama-se “Libertários”. Foi aqui em Minas Gerais.

— Mas será que eles não vão se perder na política, neste jogo sujo? Tenho visto tanta coisa...

— O risco, tia, existe. Mas eu torço para que isto não ocorra. Claro que aparecerão os populistas de sempre, mas talvez estes jovens...

— Jovens?

— É, jovens.

— Sei não. Esta meninada de hoje em dia...

— Tia....

— Tá bom, tá bom. Bem, o jornal vai começar e já vão falar do Irã de novo. Tenho que desligar. Um beijo para você.

— Tia, um grande beijo. E vê se volta a me ligar, heim? Ainda temos que falar mais sobre a liberdade...

— Ok. Até mais.

— Até.

Claudio Shikida é economista, professor do IBMEC-MG, e mantém o blog De Gustibus Non Est Disputandum.

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