
Os amigos equatorianos das FARC
29 de Junho de 2009 - por Mary Anastasia O'GradyDocumentos previamente não divulgados, frutos do ataque militar colombiano a um acampamento das FARC no Equador em 2008, chegaram às minhas mãos semana passada. Raúl Reyes, número dois das FARC, foi morto naquele ataque. Mas deixou computadores que detalhavam um relacionamento amável não apenas com o presidente venezuelano Hugo Chávez como também - como revelam esses documentos - com o governo do presidente equatoriano Rafael Correa.
Alguém deveria informar a Casa Branca. Em 12 de junho, o presidente Obama telefonou a Mr. Correa para, de acordo com um porta-voz, “congratulá-lo por sua recente reeleição”. Mr. Obama também queria “expressar seu desejo de aprofundar nossa relação bilateral e manter um diálogo contínuo que possa assegurar uma relação produtiva baseada em respeito mútuo”.
Mr. Correa é tudo menos respeitoso em relação aos interesses dos EUA na região. Ele se parece mais com Fidel Castro - ainda que com um PhD em economia pela University of Illinois. Em seu governo, a liberdade vem evaporando mais rápido do que se pode dizer “bolivariano”. Agora as cartas de Reyes trazem fortes indícios de que ele vem apoiando ativamente a guerrilha marxista das FARC, que consideram os EUA um grande inimigo.
Mr. Correa declarou publicamente que não é cúmplice das FARC. Mas Reyes disse o contrário. Numa carta de 5 de janeiro de 2007 a Manuel Marulanda, líder das FARC, ele escreveu a respeito de uma visita iminente de “um emissário de Rafael Correa”. O propósito da reunião era, entre outros, chegar a “acordos colaborativos bilaterais” em que “nossos guerrilheiros capturados em seus territórios fossem entregues a nós, para que nenhum deles parasse nas mãos das autoridades colombianas”.
Reyes disse que o emissário vinha para “fortalecer o comitê binacional - composto de camaradas do [Partido Comunista Clandestino Colombiano] e amigos equatorianos - que virá a denunciar as violações da soberania equatoriana pelas tropas [colombianas] e mostrar os efeitos nocivos da fumigação”. em outras palavras, o Equador queria ajudar as FARC em dois de seus objetivos mais importantes: estabelecer um abrigo seguro em sua fronteira e acabar com a fumigação dos campos de coca, uma das mais importantes fontes de renda do tráfico de drogas das FARC.
Em outra nota para Marulanda no dia 28 de janeiro de 2007, Reyes lamentava a morte de sua “amiga, a ministra”, referindo sem dúvida a ministra da defesa do Equador, Guadalupe Larriva, que tinha morrido em um acidente de helicóptero quatro dias antes. Mas, olhando pelo lado bom, disse, outro ministro, este “de finanças, também quer nos visitar no dia 9”.
Então, em 18 de janeiro de 2008, Reyes escreveu ao secretariado das FARC resumindo “uma visita de gustavo Larrea, ministro da segurança equatoriano, que trouxe saudações em nome do presidente Correa” para Marulanda. De acordo com Reyes, Mr. Larrea expressou “interesse, em nome do presidente, de tornar oficial a relação [do Equador] com a liderança das FARC”.
Reyes escreveu que Mr. Larrea disse estar pronto para remover comandantes de forças de segurança que fossem “hostis às comunidades” na área de fronteira, e que o Equador não faria nada para ajudar Alvaro Uribe, o presidente colombiano, no conflito interno da Colômbia. “Para [o Equador”, explicou Mr. Reyes, “as FARC são uma organização insurgente do povo com propostas sociais e políticas que [o Equador] compreende”.
Segundo Reyes, Mr. Larrea perguntou se as FARC teriam interesse em obter status de organização beligerante (isto é, legitimidade internacional). Ele também relatou que o Equador “processaria a Colômbia na corte internacional pelos danos causados pela fumigação” dos campos de coca e revogaria a licença da base militar americana em Manta (o Equador fez as duas coisas). O Equador “vê claramente que Uribe representa os interesses da Casa Branca, das multinacionais e dos oligarcas, e considera-o perigoso para a região”.
Mr. Larrea admitiu publicamente ter entrado em contato com Reyes. Mas ele diz que foi no interesse de obter a libertação de reféns das FARC. Com certeza esse era um dos objetivos. Reyes relatou que Mr. Larrea queria fazer uma “troca” de reféns por prisioneiros porque isso iria “dar força” à carreira política de Mr. Correa. Porém, as cartas de Reyes revelam muito mais do que um desejo de Mr. Correa de ser um herói humanitário. Elas pintam um retrato de um governo dedicado a enfraquecer seu vizinho: a Colômbia.
É possível que Reyes tenha confundido a realpolitik de Correa com uma boa vontade genuína para com as FARC. Mas o líder rebelde parecia certo de que seis países latinos têm simpatia pela causa marxista. Ele propôs que Marulanda escrevesse aos presidentes de Equador, Argentina, Bolívia, Nicarágua e Uruguai para buscar “apoio de diversos países amigos” que pudessem adiantar o processo de constranger a Colômbia a um acordo.
Mr. Uribe visitará a Casa Branca essa semana. Será interessante ver se Mr. Obama está tão preocupado com a relação bilateral com a Colômbia quanto está com o vizinho de porta não muito amigável de Mr. Uribe.