Ordem Livre

 

Enquanto acompanho o que ocorre em Honduras, uma frase não pára de voltar à mente. “Imitação e hostilidade não são mutuamente exclusivas”. Escritas por François Furet em seu Le passé d’une illusion, essas palavras se aplicariam facilmente a um enorme número de disputas políticas do nosso tempo. Mais especificamente, Furet se referia à relação entre os principais totalitarismos do século XX, o fascista e o socialista - cada um apresentado na primeira metade do século XX como a justa reação à ameaça do outro. Na oposição recíproca, a dialética amigo-inimigo idealizada por Schmitt carrega um regime com toda a energia política necessária para inchar o Estado com poder - e é na tiranização moderna do poder que Mussolini e Lenin, Hitler e Stálin, se encontram como gêmeos avessos, ou xipófagos espirituais que, apesar das cabeças retóricas diferentes, compartilham de um mesmo coração autoritário.

Mas se o par comunismo-fascismo representa o exemplo formidável da hostilidade imitadora, exemplos mesquinhos empilham-se nas notícias diariamente. A campanha anti-corrupção da esquerda latinoamericana, por exemplo, demonstrou por anos uma hostilidade indignada à corrupção de governos oponentes apenas para imitá-la quando chegasse ao poder. Em nenhuma campanha anticorrupção se ouvia reivindicações para se reduzir os poderes que permitem e incentivam a corrupção. Os movimentos de ética na política pretendiam substituir o comandante, mas não abolir o comando.

Assim que vi a notícia da extradição de Manuel Zolaya, presidente de Honduras, logo me perguntei se os eventos de Honduras seguiriam o modelo da hostilidade imitadora.

As atitudes do congresso e da Suprema Corte que antecederam ao golpe me pareceram corretas. Independente do intento, estavam obedecendo a constituição e promovendo o Estado de Direito. Zelaya insistia em usar poderes que não lhe eram conferidos pela constituição do país. Cabe ao congresso, e não ao presidente hondurenho, o poder para convocar uma assembléia constitucional. Zolaya preferiu ignorar a carta do seu país e realizar um referendo constitucional assim mesmo, seguindo os trajetos de Chávez, Correa e Morales. Seria mais um golpe populista na constituição. Um argumento de que retirar o presidente à força viola a democracia constitucional pode ser utilizado com mais força contra Zolaya, que resolveu passar com o executivo por cima dos outros dois poderes, violando as ordens do judiciário e do legislativo.

Ainda assim, é sempre assustador ver tanques de guerra deslizarem por cima de uma capital latinoamericana, mesmo que o ato tenha sido ordenado pelo poder judiciário. E os efeitos nefastos do militarismo logo se fizeram sentir. Sinais de TV e rádio foram cortados, ou tiveram seu conteúdo restrito pelas autoridades. Em nome de combater a ilegalidade, hondurenhos passaram a ser vítimas da repressão ilegal do exército.

Os líderes bolivarianos, com a coerência da pura conveniência, condenam as ações contra a imprensa apesar de os governos venezuelano e equatoriano reprimirem a imprensa em seus próprios países. Minha esperança é que o governo de Honduras preze mais pela legalidade do que pela agressividade. Um erro não justifica o outro, apenas confirma a não exclusividade entre imitação e hostilidade.

Diogo G. R. Costa é editor de OrdemLivre.org

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