As terrÃveis newsletters de Ron Paul
por David Boaz
Nos últimos meses, a maioria dos libertários alegrou-se com o sucesso inesperado de Ron Paul, cuja campanha presidencial propõe o fim da guerra no Iraque, a abolição do imposto de renda federal, o estabelecimento de uma moeda lastreada e a restauração da Constituição. Certamente, alguns de nós não gostamos de sua conversa sobre fechar fronteiras, nem de sua visão conspiratória de uma rodovia norte-sul. Porém, os principais temas de sua campanha, aqueles que geraram uma arrecadação de fundos multimilionária pela internet e a predominantemente jovem “Ron Paul Revolutionâ€, foram os assuntos libertários clássicos. Foi particularmente gratificante ver um candidato à presidência relacionar sua posição antiguerra à sua crença em um governo federal limitado.
Desta forma, é compreensÃvel que nos últimos meses várias pessoas tenham perguntado por que os membros do Cato Institute pareciam demonstrar uma falta de interesse ou de entusiasmo em relação à campanha de Paul. Bem, agora vocês sabem. Não havÃamos lido as newsletters que vieram a público recentemente e eu mesmo fui surpreendido por sua baixeza. Porém, sabÃamos quem eram as pessoas com quem Ron Paul andava, e temÃamos que elas pudessem associá-lo a idéias malignas, bem distantes dos princÃpios que nos norteiam.
Ron Paul diz que não escreveu as newsletters e eu acredito em sua palavra. Elas não parecem mesmo terem sido escritas por ele. Em nossos encontros esporádiocos e em suas aparições públicas, eu nunca o ouvi dizer nada que fosse racista ou homofóbico (ele pode ser hesitante e ficar desconfortável em relação a temas como a homossexualidade – como vários outros conservadores de 72 anos – mas nunca demonstrou ódio). Porém, ele recrutou pessoas que escreveram aquelas cartas, assinou seu nome em cada uma delas e arrecadou fundos para sua campanha usando exatamente a lista de endereços gerada pelas newsletters. Agora quer que acreditemos que coisas que “não representam o que acredito ou tenha algum dia acreditado†apareceram em sua newsletterspor anos e anos sem seu conhecimento. Supondo que Ron Paul realmente não tenha escrito aquelas cartas, algum auxiliar próximo o fez. Seus assessores conceberam, escreveram, editaram e enviaram aquelas palavras. Seus auxiliares mais próximos nesses anos todos sabem quem criou aquelas publicações. Se verdadeiramente admiram Ron Paul, se acreditam que ele está sendo injustamente vilipendiado por palavras que não escreveu, deveriam vir a público se responsabilizar por elas e explicar como ocultaram de Ron Paul por anos o que era publicadas mensalmente nas newslettersque tinham no tÃtulo o nome de Ron Paul.
Paul diz que não escreveu as cartas, que condena as expressões que aparecem nelas e que não soube por décadas do conteúdo que 100.000 pessoas recebiam todos os meses. É uma alegação curiosa para alguém que concorre à presidência: eu não sabia o que meus assessores mais próximos faziam usando a minha assinatura, então dêem-me a responsabilidade do governo federal.
Mas é claro que Ron Paul não está concorrendo à presidência. Ele não será presidente, não será o candidato republicano à presidência e nunca teve esperanças de ser. Ele está na disputa para propagar idéias – idéias de paz, governo constitucional e liberdade. Com um sucesso maior do que ele poderia sonhar, Paul se tornou o – digamos – “libertário†com maior visibilidade dos Estados Unidos. E agora ele e seus auxiliares enlamearam a nobre causa da liberdade e do governo limitado.
Os resmungos sobre os erros passados da New Republic ou sobre as preferências ideológicas do autor James Kirchick não vêm ao caso. Talvez Bob Woodward não gostasse dos Quakers; porém, a corrupção que descobriu no Governo Nixon era, ainda assim, um fato, e era isso o que importava. Os mais barulhentos defensores de Ron Paul denunciaram Kirchick como “um garoto espinhento†– dane-se o entusiasmo por todos os jovens que dormiam no chão para ajudar na campanha de Paul – e neoconservador. Porém, não negaram os fatos que ele relatou. Aquelas palavras apareceram em newsletters, com o nome dele. E, o que é digno de nota, não tentaram se defender das denúncias, nem mesmo citar as palavras que Kirchick usou em sua matéria. Mesmo aqueles que vociferam a favor de Paul e rosnam contra Kirchick – talvez os mesmos que escreveram os textos originalmente – não estão, aparentemente, com a menor disposição de citar o texto e defender as palavras que efetivamente apareceram com a assinatura de Ron Paul.
Essas palavras não são libertárias. Talvez reflitam idéias “paleoconservadorasâ€, embora não sejam exatamente a linguagem de Burke, nem mesmo de Kirk. Porém, o liberalismo é a filosofia do individualismo, da tolerância e da liberdade. Conforme Ayn Rand escreveu, “o racismo é a mais baixa, bruta e primitiva forma de coletivismo.†Fazer declarações violentas e preconceituosas sobre negros, homossexuais ou qualquer outro grupo é, realmente, uma bruta e primitiva forma de coletivismo.
Os libertários devem deixar claro que as pessoas que escreveram aquelas coisas não estão do nosso lado, não são parte de nosso movimento nem parte da tradição de John Locke, Adam Smith, John Stuart Mill, William Lloyd Garrison, Frederick Douglass, Ludwig Von Mises, F. A. Hayek, Ayn Rand, Milton Friedman e Robert Nozick. Essas pessoas deveriam sentir vergonha.
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