Ordem Livre

 

Não, leitor a despeito do título do artigo, eu não estou aqui para falar sobre supostas “mazelas” do capitalismo e da globalização financeira, ou sobre a “destrutiva” ganância dos investidores estrangeiros. Esse discurso eu deixo para políticos ligados ao presidente Lula da Silva. Não preciso aqui repetir que o capitalismo foi o sistema que mais contribuiu para o bem-estar da humanidade, que a globalização, como as marés, é uma força a ser explorada (e não a ser combatida), e que a ganância é uma constante universal que está para a economia assim como a gravidade está para a engenharia. Meu objetivo aqui é mostrar que o discurso do partido do presidente, bem como de outros partidos brasileiros que o apoiam, não encontra correspondência na prática da sua administração.

O fato que muitos, inclusive a imprensa, ignoram no Brasil é que investidores estrangeiros nunca ganharam tanto quanto durante a administração petista. O gráfico abaixo oferece evidência. As barras vermelhas representam taxas ex-post de retornos anuais de investimentos em dólares baseados na taxa básica Selic, ou seja, os investimentos incluem a remuneração da Selic e a variação cambial do Real no período que vai de 2003 a 2009, durante a administração Lula da Silva. As barras verdes, por sua vez, mostram as mesmas taxas em dólar no período que vai de 1996 a 2002, durante a administração FHC.

Considere, por exemplo, um investidor estrangeiro que tivesse convertido $100,00 em Reais aplicados em fundos Selic no último dia útil de 1995. Ao final de 2002, o investidor teria sido capaz de remeter de volta ao seu país o equivalente a $116.19, um ganho inferior ao que teria obtido caso os $100,00 tivessem sido investidos em fundos americanos que pagassem Fed Funds, a taxa básica da economia americana. Por outro lado, um investidor estrangeiro que tivesse convertido $100,00 em Reais aplicados em fundos Selic ao final de 2002 teria sido capaz de remeter de volta ao seu país exorbitante valor equivalente a $551,14, uma taxa de retorno total de 451,14%! Compare este valor com os pífios $119,06 que o investidor teria obtido se tivesse investido os mesmos $100,00 em fundos que pagassem taxas Fed Funds durante o mesmo período.

Notem que não quero com esta comparação isentar a administração anterior de responsabilidade por esta situação. As taxas de retorno ex-post do investidor estrangeiro durante o governo FHC, apesar de terem sido sistematicamente mais baixas que durante o governo Lula da Silva, também foram muito altas, particularmente quando ignorados os efeitos das depreciações cambiais de 1999 e 2002. É suficiente lembrar, por exemplo, que as taxas de retorno dos investimentos em dólares no Brasil são quase sempre muito superiores às taxas Fed Funds do banco central americano. Em suma, desde a estabilização econômica, o Brasil tem sido um país extremamente generoso quando se trata de premiar o investidor estrangeiro, generosidade que foi moderada somente pelos efeitos de depreciações resultantes de crises cambiais, e muito maior durante a administração petista.

Obviamente, os responsáveis por esta situação não são os investidores. Estes não fazem nada mais que colher os frutos fáceis da má administração monetária e fiscal brasileira. Os responsáveis por esse desastre econômico foram as sucessivas administrações federais, que se mostraram incapazes de promover mudanças suficientemente profundas no sistema financeiro nacional, no seu ordenamento jurídico, e na administração fiscal das várias esferas de governo capazes de alinhar a economia brasileira às de outras nações que se encontram em patamares similares de desenvolvimento econômico e social, veja, por exemplo, a discussão apresentada no meu artigo anterior. Esse ponto será explorado novamente em artigo futuro.

Fica assim provado que o título deste artigo é preciso: é difícil pensar num período durante o qual o investidor estrangeiro tenha sido tão bem remunerado quanto durante a administração Lula da Silva. Não é coincidência que o governo petista tenha se tornado a menina dos olhos dos investidores estrangeiros, e que o Brasil tenha virado capa de revistas de economia e finanças internacionais. Durante um período no qual a maior parte dos países ofereciam taxas de retorno medíocres aos investidores estrangeiros, nada como o refresco oferecido pelos ganhos fáceis e descomunais dos investimentos no Brasil.

E pensar que os políticos atualmente no poder são os mesmos que, durante minha juventude, urravam aos quatro ventos palavras de ordem contra “cirandas financeiras” e outros “privilégios” concedidos ao “capitalismo internacional”. Quanta ironia, portanto, que tenha sido o PT o partido responsável por uma das maiores festas financeiras da história do país.

Pedro Albuquerque é economista, Professor Associado da Euromed Management e autor do blog Incentives Matter.

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