por Russell Roberts
No fim do século XVIII, a Inglaterra começou a enviar presos à Austrália. O transporte era privado, mas financiado por dinheiro público. Muitos presos morriam no caminho por doenças causadas pela super lotação dos navios, pela má-nutrição e pela falta - ou mesmo ausência - de tratamento médico adequado. Entre 1790 e 1792, morreram 12% dos presos transportados, para horror de muitos ingleses e inglesas que acreditavam que o banimento para a Austrália não deveria equivaler à sentença de morte. Apenas em um dos navios, morreram 37 por cento.
Mas como os capitães poderiam ser convencidos a tomar mais cuidado com os prisioneiros?
Você poderia ministrar-lhes uma palestra a respeito da crueldade da morte, o que fizeram os clérigos de seus púlpitos. Você poderia aumentar os fundos designados pelo Estado aos capitães, tendo como base o número de passageiros que carregavam. Você poderia apelar aos capitães para que gastassem uma parte maior desses fundos para cuidar de seus passageiros. (Alguns capitães empreendedores guardavam comida e remédios destinados aos presos e para vendê-los após a chegada à Austrália). Você poderia apelar aos capitães para que gastassem o dinheiro com mais cuidado. Você poderia envergonhá-los por seu mau comportamento.
Mas a abordagem tentada foi diferente. O governo decidiu pagar aos capitães um bônus para cada condenado que chegasse vivo à Austrália.
Essa simples mudança funcionou como uma mágica. A mortalidade despencou a quase zero. Em 1793, nos primeiros três barcos que viajavam à Austrália sob o novo conjunto de incentivos, dos 322 transportados, apenas um condenado morreu - uma melhora surpreendente.
Eu não acredito que os capitães se tornaram mais misericordiosos. Continuavam tão malévolos e gananciosos quanto antes. Porém, sob as novas regras, possuíam um incentivo para agir como se fossem misericordiosos. A mudança nos incentivos aliou o interesse dos capitães ao interesse dos presos, que subitamente passaram a valer mais estando vivos do que mortos. Os capitães apenas reagiram aos incentivos.
Os incentivos são importantes. O exemplo famoso disso, nas ciências econômicas, é o conceito da curva da demanda – quando um produto fica mais caro, as pessoas compram menos unidades. Quando fica mais barato, as pessoas compram mais.
Alguns vêem esse princípio básico da economia como algo difícil de aceitar, quando baseados apenas no exame próprio. “Mesmo quando o preço do petróleo aumenta, eu ainda tenho que comprar gasolina,” diz o cético. Ou como dizem os mais extremistas: “Precisamos de gasolina, então as pessoas continuarão comprando mesmo quando ela se torna cada vez mais cara.”
Você ainda poderá comprar gasolina quando ela encarece. Porém, você buscará meios de comprar menos gasolina. Não necessariamente parar de comprar, apenas comprar menos.
Refletir sobre como as pessoas reagem aos incentivos de um preço mais alto, abre um mundo de possibilidades para além do choque de viver sem o produto. Quando a gasolina fica mais cara, algumas pessoas pegam carona, outras dirigem em uma velocidade menor e outras tentam executar vários afazeres em uma única viagem. Deixemos o preço da gasolina atingir um nível alto o bastante, combinado com a expectativa de permanecer alto por um longo período, e veremos algumas pessoas comprando carros que tenham um consumo menor, se mudando para um local mais próximo de seus trabalhos e adiando (ou cancelando) a encomenda daquele barco de pesca, que consome uns 800 reais para encher o tanque quando o preço da gasolina está alto.
Nem todo mundo fará todas essas coisas. Algumas pessoas farão algumas delas. Porém, o resultado final de um aumento no preço da gasolina é o desestímulo ao consumo.
E, à medida que algo se torna mais barato, nós queremos comprar mais desse produto, se as condições de outros fatores se mantiverem as mesmas.
As pessoas reagem a incentivos. Porém, a forma pela qual reagem pode ser bem criativa. A história conta que, durante um período de hiperinflação no Chile, a imposição por parte do governo de um preço máximo fez com que deixasse de ser lucrativo para os padeiros venderem pão – o preço máximo legal estava abaixo dos custos de produção.
Seguindo um prognóstico lógico, pensaríamos que o pão desapareceria das prateleiras. Mas esse prognóstico subestima a criatividade dos padeiros em reagir aos incentivos. A primeira reação deles foi diminuir o tamanho do pão, até que seu custo de produção ficasse abaixo do preço máximo obrigatório. O governo impôs então um peso mínimo para o pão. Os padeiros reagiram vendendo o pão cru, pois o peso da massa crua correspondia ao peso mínimo exigido. Com o aumento da inflação, deixou de ser lucrativa mesmo a venda de massa crua ao peso mínimo. Então, os padeiros empreendedores vendiam a massa crua em sacos com água, atingindo assim o peso mínimo exigido.
Apesar da crença popular de que a economia lida apenas com dinheiro, os incentivos não-monetários podem ser tão importantes quanto os monetários ao influenciar o comportamento humano. O tempo é um fator não-monetário importante no que fazemos.
Imagine que você seja um grande fã dos Beatles. Por um milagre, anunciam que os Beatles se reunirão para um show de despedida, em um mês. Os quatro Beatles estarão se apresentando em um pequeno teatro, perto de sua casa. Você fica bastante empolgado, até que ouve alguém dizer que o show será gratuito e que os ingressos serão distribuídos por ordem de chegada: apenas os primeiros 250 fãs da fila poderão ouvir os Beatles.
O show não é gratuito. Na verdade, custará muito caro. Se quiser comparecer, é melhor você morar em frente ao teatro por um mês. Caso contrário, você não será um dos 250 primeiros. E pode ser perigoso também. Quando o preço de alguns produtos é tão baixo que há mais pessoas querendo comprá-lo que unidades disponíveis, os consumidores concorrentes não costumam ser muito corteses.
Yogi Berra, certa vez, respondeu (ou, supostamente respondeu) quando perguntado sobre um restaurante popular, “ele é tão cheio que ninguém mais vai lá”. Como todos os “Yogismos”, a frase é absurda, mas um exame mais cuidadoso revela uma verdade escondida. O que ele quis dizer foi que o restaurante era tão cheio que uma pessoa que valorizasse bastante seu tempo e desejasse uma atmosfera mais tranqüila, teria alternativas melhores. Em resumo, “ele é tão cheio que ninguém que é alguém vai lá mais”. Na verdade, Yogi pode ter querido dizer o contrário – ele é tão cheio que você tem que ser alguém para entrar lá – os donos mantém a ralé do lado de fora.
Como podemos ver, o dinheiro não é tudo. E adicionar o tempo à lista de incentivos também não é suficiente. As pessoas também se preocupam com sua reputação, sua fama e consciência. Preocupam-se com a glória, com o patriotismo e com o amor. E todos esses fatores podem agir como incentivos.
Quando um economista diz que os incentivos são importantes, aqueles que não são economistas ouvem apenas que pessoas reagem aos preços. Porém, o que o economista realmente quer dizer é que em se mantendo todo o resto constante – a quantidade de fama ou vergonha, glória ou humilhação – e se aumentando a recompensa monetária, as pessoas se sentirão incentivadas a realizar determinada tarefa. Estabeleça uma recompensa monetária menor, mantenha os outros fatores constantes e as pessoas se sentirão menos incentivadas.
Os economistas, na maioria das vezes, se concentram nos incentivos monetários porque são observáveis e, geralmente, mais fáceis de serem modificados do que os incentivos não-monetários. Um economista dirá que quando a renda dos médicos aumenta, mais pessoas buscam a medicina como profissão. Mas geralmente as pessoas compreendem mal essa afirmação, concluindo que os médicos são motivados pelo dinheiro, em comparação com os motivos não monetários para se tornarem médicos. Mas tudo o que isso significa é que a manutenção das recompensas não monetárias da medicina constantes e aumentar a satisfação monetária fará a medicina mais atraente em relação a outras profissões. Se pudéssemos medir ou estimular as satisfações não monetárias dos médicos, esses fatores seriam tão relevantes quanto os monetários.
As diferenças entre os incentivos monetários e os não-monetários podem ser vistas na falta de rins disponíveis para transplantes. Atualmente, é proibida por lei a compra e venda de rins nos Estados Unidos. O fornecimento atual de rins é baseado no altruísmo. Milhares de pessoas enfrentam todos os anos o risco de morrer, para doar um rim a alguém que ama ou mesmo a um desconhecido. Outros doam seus rins depois de mortos. A vontade de doar é motivada pelo desejo de ajudar outras pessoas, e esse é um incentivo poderoso. Mas não poderoso o suficiente para criar uma oferta igual à demanda. Milhares de pessoas morrem todos os anos esperando por um transplante de rim.
Se quiséssemos aumentar o numero de rins disponíveis a pacientes com rins deficientes, voltaríamos à situação dos presos australianos e dos capitães cruéis. Precisaríamos aumentar os incentivos ao fornecimento de rins. Nós poderímos encorajar pessoas a doarem seus rins – fazendo mais campanhas públicas e tentando divulgar as satisfações provenientes da ajuda ao próximo. Mas permitir que pessoas comprem e vendam rins legalmente, provavelmente, seria mais eficiente em aumentar o número de rins disponíveis para transplantes do que suplicar e implorar.
Os incentivos desempenham um papel importante na forma pela qual os indivíduos se relacionam com suas propriedades, em comparação com a propriedade dos outros e a propriedade comunitária. As pessoas têm mais chance de se preocupar em trocar o óleo de seu próprio carro do que de um carro alugado. Os campos privados da União Soviética tinham um desempenho melhor que os campos comunitários.
Os peregrinos americanos, em Plymouth, adotaram o cultivo comunitário em seu primeiro inverno, mas, após o fracasso da safra naquele primeiro ano, passaram a utilizar um sistema que continha mais incentivos às pessoas do que apenas a culpa e a honra. O Governador Bradford resumiu esse processo em seu diário:
“E então designaram a cada família um pedaço de terra proporcional ao número de pessoas, para somente aquele fim, para o uso presente (mas não fizeram divisão alguma por herança) e colocaram todos os rapazes e jovens sob alguma família. Esse plano foi um sucesso, já que tornou todas as mãos mais diligentes e fez com que fosse plantado mais milho do que qualquer outro meio que o governador ou qualquer outra pessoa poderia impor, além de poupar o governador de enfrentar problemas e produzir maior satisfação. Agora, as mulheres vão para o campo por vontade e também levam seus pequenos para plantar milho; os quais, anteriormente, alegariam fraqueza ou incapacidade; e os mesmos, se obrigados, pensariam serem vítimas de grande opressão e tirania.”
As mãos não eram apenas mais diligentes – o incentivo para se colher o milho comunitário antes que estivesse completamente maduro, um problema equivalente a caça ilegal na mata selvagem, também havia sido eliminado.
Os incentivos são importantes. Recompensas tangíveis, monetárias ou indiretas – como no caso do milho em Plymouth – são muito poderosas. O foco nos incentivos monetários cria um espantalho, o homo economicus, um mercenário que fará qualquer coisa por um preço. Eu costumava dizer aos meus estudantes que ficaria feliz em permiti-los comprarem um “A” em minha disciplina. O preço era o PIB da França. O que eu tentava dizer era que meu preço era suficientemente alto para ser essencialmente infinito. Mas, para dizer a verdade, eu gostaria de acreditar que, mesmo uma tentativa de suborno com valores exorbitantes, não teria obtido sucesso.
Porém, mesmo que eu mantivesse minha honra e integridade intactas, diante de uma imensa proposta de suborno, eu posso imaginar um preço não monetário, que me faria perder até mesmo minha honra. Desconfio que eu venderia uma nota, com prazer, ou faria qualquer coisa desonesta, por muito menos que o PIB da França, se isso significasse a salvação da vida de um dos meus filhos. Talvez, se definido corretamente com os custos monetários e não monetários inclusos, todo homem tenha realmente um preço.
Originalmente publicado em EconLib.org.