Published on Ordemlivre (http://www.ordemlivre.org)
O feudo da opinião
By ordemlivre_admin
Criado 04/07/2008 - 15:31

por Pedro Sette Câmara

Quando eu achava que o assunto já tinha morrido, ele retorna: ontem à noite participei de mais uma discussão sobre o fato de Marcelo Madureira, da Casseta, ter dito que — com o perdão da palavra — "Glauber Rocha é uma merda". Logo depois, artistas por quem você provavelmente não tem o menor interesse fizeram um "ato de desagravo a Glauber Rocha" na Academia Brasileira de Letras e deram entrevistas indignadas aos jornais.

Eu não torraria a paciência dos leitores se não achasse que ainda há algo interessante a comentar no episódio. E há, já que todos que escreveram a respeito — ao menos aqueles que li — simplesmente não foram capazes de fazer uma distinção muito simples.

Uma coisa é liberdade de expressão — que só existe no Brasil até um certo ponto, já que há o direito de controlar o que os outros dizem a seu respeito, como se a opinião deles sobre você pertencesse a você e não a eles; leis contra o "preconceito"; lei de ultraje a culto, lei disso, lei daquilo. Nesse ponto, estou com a Suprema Corte americana: o limite da liberdade de expressão é a incitação à violência imediata. Se você gosta de liberdade de expressão e prega a tolerância, tem que começar a tolerar opiniões que você considere ultrajantes e ofensivas. Afinal, se você gostasse do que estão dizendo, não precisaria tolerar, não é mesmo? Daí é que a gente vê que quem costuma fazer da tolerância uma bandeira normalmente quer apenas ser tolerado porque já se sabe, intimamente, chato e inviável. Assim como no caso da justiça, quem quer tolerância de verdade pratica-a em vez de reivindicá-la. Por isso, se há liberdade de expressão e tolerância — ou melhor, total indiferença — do Estado em relação ao que é dito, não pode haver qualquer problema com a opinião de Marcelo Madureira sobre Glauber Rocha. Com a qual eu tendo a concordar, aliás.

Outra coisa é a existência de opiniões mais ou menos autorizadas. Admito sem pestanejar que existem pessoas muito mais capazes a julgar a obra de Glauber Rocha do que eu, que tenho como principal critério para a seleção de filmes a presença de certas atrizes. Sei que não posso diagnosticar doenças, construir prédios e, admito com vergonha, nem mesmo consertar carros. Mas no Brasil, como em outros lugares, há que distinguir a autoridade de fato e a autoridade de direito. Concedemos autoridade a quem tem diplomas, registros, e sabemos que o documento não se converte necessariamente em sabedoria, mas esse é o preço que quem deseja uma sociedade planejada deve pagar. Eu não desejo uma sociedade planejada e infelizmente também pago, o que mostra que não há muito amor pela liberdade na base dessa sociedade.

Mesmo assim, devemos transformar a (suposta ou não) falta de autoridade em limite da liberdade de expressão? Devemos, por conseguinte, impedir aqueles que não são mecânicos de dizer que acham que seu carro tem um problema na peça x? Devemos impedir aqueles que não são professores de literatura de manifestar suas opiniões literárias? Vamos levar a sociedade planejada e o saber institucional ao paroxismo, autorizando e desautorizando opiniões oficialmente, como se houvesse um cânon doxológico a ser defendido pelo Estado, ao custo da liberdade de expressão?

Talvez no passado eu até achasse que essa confusão, na cabeça daqueles que falam dela nos jornais e defendem indignados a memória de Glauber Rocha, fosse sincera; mas hoje eu acredito que essas pessoas apenas consideram que alguém no passado já obteve seu próprio quinhão, seu privilégio, e se o feudo dos grandes d'antanho for atacado pelo MST da opinião livre talvez seu próprio futuro feudo esteja em perigo. É tudo rentismo, é tudo desejo de monopólio; é isso que está na raiz do desejo de sociedade planejada, e é isso que leva essa gente a querer cercear a liberdade de expressão em nome de opiniões supostamente autorizadas.


Source URL (retrieved on 09/08/2008 - 12:14): http://www.ordemlivre.org/node/162